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Projeto Glück – o desafio de transformar a busca pela felicidade num ganha-pão

- 30 de agosto de 2014
Fred e Karin, recém chegados em Berlim, na foto que ilustrou o post "Vale a pena largar tudo em busca da felicidade?", que tornou o Projeto Glück conhecido.
Fred e Karin, recém chegados em Berlim, na foto que ilustrou o post "Vale a pena largar tudo em busca da felicidade?", que tornou o Projeto Glück conhecido.

Conheça Fred Di Giacomo, 30, nascido em Penápolis, interior de São Paulo. Fred se formou jornalista na Unesp, em Bauru, e fez o Curso Abril de Jornalismo, o programa de trainees editoriais da empresa, em 2006. Trabalhou nos sites das revistas Mundo Estranho e Bizz até virar editor de entretenimento da Abril.com e editor dos sites do Núcleo Jovem da Abril.

E conheça Karin Hueck, 29, paulistana descendente de alemães que morou na Bavária, perto de Munique, entre os 5 e os 9 anos. Karin se formou jornalista pela Cásper Líbero e fez o Curso Abril de Jornalismo em 2007. Fez carreira na revista Superinteressante, como repórter e editora.

Fred e Karin foram colegas durante alguns anos. E às vezes até saíam juntos com a turma do trabalho, sem que nada de especial faiscasse entre eles. Até que, em 2010, Fred terminando um relacionamento e Karin solteira, ficaram a sós para discutir um projeto qualquer. E a faísca aconteceu. Casaram em agosto de 2012.

Um ano depois, em agosto de 2013, Fred e Karin empreenderam o Projeto Glück – palavra que quer dizer, a um só tempo, felicidade e sorte em alemão. E que na vida deles significou um sabático. Só que com um propósito: estudar a felicidade. O que é? Como obtê-la? Por que ela é tão fugidia? Por que tanta gente é infeliz? Ao longo de 12 meses, até julho de 2014, tendo Berlim como base, eles viajaram o mundo – Camboja, Vietnã, Tailândia, Portugal, República Checa, Holanda, Itália e pela própria Alemanha – em busca dessas respostas.

Fred e Karin no templo de Angkor Wat, no Cambodja: mochilão pelo Sudeste Asiático, em busca de novas referências e de si mesmos.

Fred e Karin no templo de Angkor Wat, no Cambodja: mochilão pelo Sudeste Asiático, em busca de novas referências e de si mesmos.

COMO SURGIU A IDEIA

Karin queria morar fora. E queria morar especificamente na Alemanha, terra do seu avô, judeu que veio para o Brasil fugindo do nazismo. Fred teve a ideia de transformar a viagem num projeto. Ele queria repensar a vida. Aos 29 anos, acabara de ser convidado a virar redator chefe. Com aumento de 30% no salário e melhoria nos benefícios e no bônus. Paradoxalmente, não estava feliz com essa perspectiva. Porque significava mergulhar ainda mais fundo num estilo de vida que lhe exasperava: trabalhar muito para ganhar muito para gastar muito – e viver pouco. Então ele aproveitou para rever sua trajetória. Recusou a promoção. E montou o Projeto Glück. “Eu estava infeliz. Olhava ao redor, para os amigos, e via todo mundo na terapia e no Rivotril, sonhando em fazer outra coisa, em ter um negócio próprio. Aí eu pensei: e se a gente criasse um site para discutir isso tudo?”, diz Fred.

Um exercício ajudou Fred e Karin a optarem pela ruptura. Num curso de gestão, na Abril, um professor pediu que eles listassem seus objetivos profissionais. Ali começaram a ver a discrepância que havia entre o que sonhavam e a rota que estavam seguindo. Em casa, mais tarde, eles ampliaram a lista e elencaram 20 metas de vida. E aí compararam essa lista de coisas que queriam fazer antes de morrer com a vida que estavam levando. E quase morreram – uma coisa divergia muito da outra. “É muito importante parar e repensar a vida, porque ela te leva. E nem sempre para o lugar que vai te fazer realmente feliz. O Glück foi essa parada e essa reflexão. Para voltarmos a tomar decisões conscientes”, diz Fred.

Eis a lista de sonhos a realizar que Fred colocou no papel:

Ter filhos

Publicar um romance

Comprar uma casa

Gravar um disco

Morar fora do Brasil

Aprender a dirigir

Montar minha empresa

Tirar um ano sabático

Pagar uma viagem para os meus pais

Conhecer Nova York

Pedir demissão

Viajar para Peru e Bolívia

Morar no Rio de Janeiro

Praticar esportes três vezes por semana

Perder o medo de avião

Conhecer a cidade do meu avô paterno: Barreiras, na Bahia

Conhecer Recife

Dirigir um filme

Fazer mestrado

Dar aulas

Trabalhar em outro país

Melhorar meu inglês

Comprar um baixo Music Man

Morar em Pinheiros

Fazer um mochilão pelo Brasil

Dar uma volta ao mundo

Aprender a programar

Conhecer Vietnã e Tailândia

Escrever um livro interativo para iPad

Publicar um livro infantil

Trabalhar com alguma coisa mais social

Me envolver com a política e desistir depois

Escrever um livro-reportagem

Aprender uma terceira língua

Morar 6 meses na praia ou no interior

Tirar o passaporte italiano

Uma lista absolutamente humana. Tocante de tão próxima de cada um de nós.

Outra inspiração para Fred e Karin foi o trabalho do artista plástico/digital americano Jonathan Harris. Em especial o seu manifesto Navigating Stuckness (algo como “Navegando o Marasmo”). Ou como transformar a vida num projeto criativo e relevante. Como trabalhar com o que você gosta em vez de trabalhar para poder fazer, nas horas vagas, o que você gosta. “Foi assim que pedimos demissão de nossos empregos com carteira assinada e abrimos mão da nossa vida paulistana, com renda familiar de 20 mil reais, apartamento comprado e carro na garagem”, diz Fred.

A proposta original do Projeto Glück era transformar a viagem, de um ano, numa investigação sobre a felicidade. Entrevistar especialistas, ler e estudar a respeito, e escrever sobre isso, sempre de forma pessoal, compartilhando as aprendizagens ao longo do caminho, num site. Um objetivo que se cumpriu. Foram mais de 50 posts – um por semana. (Textos de fôlego, com mais de 8 mil caracteres.) E mais de 20 vídeos.

“Nosso primeiro post viralizou, o que trouxe 150 000 unique visitors para o site já no primeiro mês. Também saíram mais de 20 matérias sobre a gente, em lugares como iG, Yahoo, Correio Brasiliense, Exame, Vida Simples e Elle. Chegamos a gravar uma entrevista para o Fantástico por internet que não foi ao ar devido à qualidade da imagem”, diz Fred. Hoje o Projeto Glück conta com 30 000 visitantes únicos todo mês e tem quase 11 mil fãs no Facebook.

Berlim se mostrou uma escolha certeira para Fred e Karin. “É uma das cidades mais pulsantes e baratas da Europa. A gente alugou um apartamento de dois quartos que nos custava 750 euros por mês com tudo: aluguel, luz, água, condomínio, aquecimento e internet. E em Kreuzberg, um bairro descolado, que equivaleria a Pinheiros, em São Paulo”, diz Karin. “A gente comia fora e a conta para o casal ficava entre 15 e 25 euros. Vivíamos bem com 2 mil euros, com um padrão de vida equivalente ao de jovens profissionais no primeiro emprego. Abrimos mão de carro, faxineira e terapia, em relação à vida que tínhamos no Brasil. Coisas de que não precisávamos lá”.

Em um ano de Projeto Glück, Fred e Karin estimam ter ganho 22 mil euros – com trabalhos freelancers como produção de textos e edição de livros – e gastado 30 mil euros. No total, Fred afirma ter investido 30 mil reais da sua poupança, e Karin, outros 20 mil reais da sua, para a realização do Projeto. “O Glück não foi feito para ganhar dinheiro. Era uma busca pessoal, que vimos que poderia interessar aos outros. Era um sabático que acabou ganhando muita visibilidade e interesse coletivo. Agora queremos transformá-lo num modo de vida. Estamos em busca de um modelo de negócios”, diz Fred.

“Existe um trabalho por trás da busca da felicidade. Tem que se conhecer, aprender a ficar sozinho consigo mesmo. Tem que ter disciplina. Tem que estudar. Não cai do céu. É uma questão mais profunda do que trocar ou não de emprego. Passa por revisar sua relação com o trabalho, com a família, consigo mesmo. As montanhas mais difíceis de transpor estão dentro de nós.”

A VOLTA AO BRASIL

Fred e Karin voltaram ao Brasil há pouco mais de um mês. E estão experimentando um choque cultural reverso. “A gente está tentando continuar levando a vida que levávamos em Berlim. Mas é difícil. A política da cidade influencia muito no grau de felicidade que você pode experimentar vivendo nela. Em Berlim, uma cidade projetada para 5 milhões de habitantes que só tem 3 milhões, a estrutura está montada para você ter uma vida boa e ser mais feliz – há muitos parques, metrô em todo lugar, há mais bicicletas do que carros, você tem uma relação mais direta com a cidade. Aqui é difícil não se irritar com trens lotados ou não se estressar com o trânsito”, diz Fred.

Berlim surpreendeu Fred e Karin em outros aspectos também. “Os metrôs não tem catraca porque todo mundo está convidado a ser honesto. Lojas como a Ikea tem caixas automáticas, em que cada cliente registra e paga a sua conta sozinho”, diz Karin. “E a relação com o trabalho é diferente. Todo mundo sai às 17h, ninguém faz hora extra. Ao mesmo tempo, durante o horário de trabalho, todo mundo é muito focado e produtivo. Não ficam de papo no café”.

Há muitos jovens, artistas, estudantes, gente criativa em busca de um projeto ou de si mesmos, vivendo com os 400 euros do seguro desemprego – que costumam complementar com outros 400 euros trabalhando até 4 horas por dia como garçons, por exemplo. Então eles tem tempo para ler, fazer cursos, conhecer gente, tomar sol nus nos parques – uma cena comum por lá.

“Em São Paulo você é o que você está fazendo. É a primeira coisa que lhe perguntam – qual é a sua profissão, onde você trabalha. Em Berlim, não é assim. Essa não é a primeira pergunta. E fazer nada pode ser uma coisa legal. Não há essa cobrança”, diz Karin, que sente falta desse maior respeito à individualidade do outro também na questão do assédio sexual às mulheres. Esse constrangimento, que ela sente aqui no Brasil, não a acompanhou por lá. Em agosto de 2013, Karin organizou no site Think Olga, um “think tank dedicado a elevar o nível da discussão sobre feminilidade nos dias de hoje”, uma pesquisa e um movimento chamados “Chega de Fiu Fiu”, contra o assédio.

Fred e Karin em viagem por Munique. Das 20 metas de vida que cada um deles elencou, extraíram uma lista com 5 aprendizagens básicas sobre felicidade

Fred e Karin em viagem por Munique. Das 20 metas de vida que cada um deles elencou, extraíram uma lista com 5 aprendizagens básicas sobre felicidade

Muitas pessoas tem procurado Fred e Karin em busca de conselhos. Desde gente dizendo que ia trocar de emprego no dia seguinte por causa do Glück até gente pensando em se matar. “A gente não é guru. Estudamos muito. Mas não podemos cuidar da vida de ninguém. Podemos, no máximo, dividir as nossas experiências e aprendizagens. Tem gente em depressão profunda que nos procura”, diz Fred.

Fred e Karin condensaram uma lista com cinco pontos básicos a partir da sua reflexão sobre a felicidade:

1. Felicidade é um processo e a principal ferramenta para alcançá-la é o autoconhecimento.

2. Faça! O maior arrependimento das pessoas que estão no fim da vida é gerado pelas coisas que elas não fizeram.

3. Quem tem amigos e família por perto (e uma boa relação com essas pessoas amadas) tem mais chance de ser feliz.

4. Dinheiro só compra felicidade até certo ponto. As pesquisas mais recentes sobre o assunto indicam que a miséria provoca infelicidade e que uma vida confortável tem mais chances de ser feliz, MAS ser rico, milionário ou ostentar não acrescenta nada nessa busca.

5. Existem coisas na vida que fogem do nosso controle e são grandes demais para serem mudadas. Quem aceita essas coisas e parte para próxima tem mais chance de ser feliz.

COMO VIVER DISSO

A consultoria pode ser um caminho para estruturar um negócio a partir do expertise que Fred e Karin adquiriram em sua pesquisa em torno da felicidade, com entregas como palestras, cursos e conversas personalizadas com usuários. “Existe um trabalho por trás da busca da felicidade. Tem que se conhecer, aprender a ficar sozinho consigo mesmo. Tem que ter disciplina. Tem que estudar. Não cai do céu”, diz Fred. “É uma questão mais profunda do que trocar ou não de emprego. Passa por revisar sua relação com o trabalho, com a família, consigo mesmo. As montanhas mais difíceis de transpor estão dentro de nós. Nada é mais assustador do que tomar decisões autônomas e assumi-las.”

Outras formas de monetização já estão sendo testadas no Glück: a doação (paywall), na forma de uma “assinatura” do site, e o cadastramento do site em programas de afiliados, em que o Glück ganha uma porcentagem das vendas, por exemplo, dos livros que indica. Os resultados, em 5 meses de teste, ainda são tímidos: o paywall e o programa de afiliação geraram, juntos, menos de mil reais. Eles consideram que só começaram a divulgar bem essas ferramentas há poucos dias.

Fred e Karin também estão pensando em escrever um livro contando a história e os bastidores do Projeto. E em criar uma “caixinha” do Glück – talvez inspirada na famosa caixa da Inesplorato – como uma entrega estruturada às pessoas que lhes procuram. Eles consideram a trajetória de Natália Garcia, com o Cidade para Pessoas, uma inspiração. E pensam em se posicionar como especialistas em felicidade, operando na frequência da filosofia pop, ao estilo de Alain de Botton. “Há curso para te ensinar a dirigir, a falar outra língua ou a escolher vinhos. Mas não há um curso que te ajude a viver melhor e a ser mais feliz. Esse pode ser um caminho para a gente”, diz Fred.

Fred e Karin receberam nos últimos tempos três convites da Superinteressante: um para que o Glück virasse um blog no ambiente digital da revista, outro para que lançassem o livro pela Abril e outro para que Karin retornasse à revista como editora. Recusaram os dois primeiros por considerarem melhor, nesse momento, que o Glück siga de modo independente. Mas aceitaram o terceiro – Karin volta à redação da Super em fins de setembro.

“Quanto a mim, estou me dando um ano para fazer o Projeto virar”, diz Fred, que acabou de ministrar uma aula no Master em Jornalismo Digital do Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS). “Tudo que eu faço agora conflui para o Glück.”

Independente do que vier adiante, Fred, com seu sorriso aberto e sua barba hipster, e Karin, com seu olhar arguto e seu jeitinho tímido, mostraram a si mesmos, e a milhares de outras pessoas, que é possível repensar a vida. E trazê-la mais para perto daquilo que realmente faz sentido para cada um de nós.

No caso deles, o que parece fazer sentido é viver com mais leveza. Fred e Karin afirmam que preferem viver com metade do que ganhavam antes de saírem de São Paulo se isso significar uma vida mais parecida com a que tinham em Berlim. “A grande lição desse ano fora talvez tenha sido enxergar o tanto de coisas que temos e das quais não precisamos. Nós nos desfizemos de muita coisa. A partir de agora eu quero viver com menos”, diz Karin, enunciando o que parece ser uma boa receita de felicidade eles – e para qualquer pessoa.

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