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Propósito e planejamento: como trocar o emprego por um sabático ou uma viagem “sem fim”

- 9 de Março de 2018
Família Sem Fronteiras: Allyson, Bruno e os filhos no Grand Canyon (crédito: divulgação)

 

“Sabático é um momento de imersão em você. Um momento de reflexão, de busca de algo maior. Aí você se reinventa e recomeça.”

A definição é de Ana Paula Candeloro, 52 anos. Executiva de um banco alemão, ela começou a trabalhar no mercado financeiro logo após sair da faculdade. Ascendeu profissionalmente, ocupou cargos de diretoria – mas, em duas ocasiões, escolheu afastar-se do mercado por alguns anos, atrás dessa reinvenção.

O primeiro sabático teve início no finzinho de 2001. Cansada após o nascimento da segunda filha, ela desligou-se da instituição em que trabalhava e mudou-se com a família de São Paulo para Curitiba, onde o marido começava em um novo emprego. Ela também não ficou parada.

“Acabei empreendendo. Reconheci em mim uma paixão pela sustentabilidade e montei uma loja de produtos sustentáveis. Fiz contatos com o Sebrae e viajava ao Nordeste para identificar fornecedores de comunidades que viviam do artesanato.”

Após três anos, bateu o comichão de retornar ao frenesi do mercado. Ela conseguiu se recolocar e acabou transferida de volta a São Paulo (a família ficou mais seis meses no Paraná). Ana Paula recuou algumas “casinhas” no tabuleiro profissional, mas foi galgando posições e retomando os níveis de cargo e salário que deixara para trás. Até que…

“Em 2011, comecei a me perguntar que ‘bem maior’ eu estava alcançando com aqueles relatórios que tinha de preencher e elaborar todos os dias? O que aquilo estava gerando de impacto positivo para a sociedade?”

A busca de propósito motivou o segundo sabático. Entre 2013 e 2015, de novo fora do mercado, ela concluiu um mestrado em Negócios Sustentáveis, em Cambridge, na Inglaterra, e publicou dois livros. Também deu palestras e consultoria em governança corporativa para dois projetos na África, em Angola e Gana.

Os trabalhos pontuais ajudaram a viabilizar o período longe do mercado, bem como a cumplicidade do marido, que assumiu boa parte das despesas nesta fase. O planejamento também foi crucial. “Na nossa planilha de gastos, há uma rubrica para cursos, viagens etc. Todo mês colocamos uns 15% da renda familiar nessa rubrica.”

Os períodos sabáticos ajudaram a transformar a trajetória de Ana Paula. Hoje, além do emprego no banco, ela está à frente da Yiesia, uma consultoria para formação de lideranças empresariais, e toca um projeto de capacitação profissional com foco em refugiados. Mesmo consciente do acerto de suas escolhas, ela faz um alerta:

“É importante ter em mente que na volta ao mercado há sempre um ‘pedágio’. Você não retorna nas mesmas condições. Hoje, apesar de eu ser chefe da minha área, a remuneração é abaixo da última remuneração.”

Ana Paula: a busca por propósito motivou o segundo sabático e o mestrado (crédito: divulgação)

 

Nômades digitais

Mas e quando o sonho é botar o pé na estrada e abandonar a rotina corporativa de vez – ou pelo menos por tempo indeterminado?

Rômulo Wolff, 38 anos, e Mirella Rabelo, 35, se conheceram no Tinder. Depois de dez anos na Escandinávia, ele havia sido transferido para o escritório paulistano de uma fabricante sueca de simuladores de maquinário pesado; ela era gerente comercial para a América Latina de uma siderúrgica com matriz também na Suécia.

As carreiras, no entanto, não se traduziam em satisfação pessoal e profissional. “Sabe cachorro correndo atrás da roda do carro, sem saber o que fazer quando o carro para?”, diz Mirella. “Nós corremos muito para alcançar algumas posições, e quando chegamos lá vimos que não era bem aquilo que a gente imaginava.”

Mirella e Rômulo não entendiam nada de edição de vídeo. Aprenderam e colocaram de pé o projeto Travel and Share, que juntou a vontade dele de viajar e a ideia dela de criar um negócio. Em quatro anos, o casal já percorreu 38 países produzindo vídeos próprios e para parceiros (o canal do Youtube soma 664 mil inscritos).

“Tínhamos economias, o Rômulo as dele, eu as minhas. Investimentos em diversas opções, menos poupança. Tínhamos CDI, CDB, um pouco em ação, previdência e tudo mais. Mas nunca tocamos nesse dinheiro, porque não sabíamos como seria o futuro. Viabilizamos a viagem desenvolvendo o nosso trabalho.”

Em vez de torrar a grana, eles foram à caça de patrocinadores. Pelas contas de Mirella, ouviram 192 “não” e oito “sim” – um deles de uma montadora de carros, que cedeu o veículo que eles usam nas viagens. O investimento inicial foi de uns R$ 4 mil, gastos em uma barraca de camping (hoje substituída por um motorhome, bem mais confortável) e duas câmeras, uma delas uma GoPro, além de alguns outros itens.

Hoje, os dois mantêm um orçamento mensal de 1.000 euros – que sobe para 1.500 quando visitam um país de custo de vida mais caro ou se permitem esbanjar um pouco mais. O que sobra é investido. “Temos planilha onde controlamos todas as nossas despesas”, diz Rômulo. “Nossos principais gastos são diesel e comida.”

No começo, eles dirigiam muitos quilômetros por dia. Mas, sem pressa de chegar (o destino é a jornada), desaceleraram o ritmo e reduziram o custo de combustível. Já rodaram o continente americano e boa parte da Europa (o carro cruzou o Atlântico de navio). Voaram também a alguns países: Israel, Catar, Islândia, Tailândia, Japão.

“Os gastos são bem menores do que a gente imaginava”, diz Mirella. “Aprendemos que viver viajando pode ser muito mais barato do que ter uma casa convencional. Você encontra formas diferentes de aproveitar a vida. Nós gastamos muito menos com roupas, diversão… E não temos conta de luz, telefone, água, IPTU.”

 

Rômulo e Mirella: do Tinder para a vida sobre rodas (crédito: divulgação)

 

Filhos a tiracolo

Para outro casal de nômades digitais – Bruno Pinheiro, 36 anos, e Allyson Natier, 31 –, os gastos aumentaram muito depois que eles abriram mão de endereço fixo. Não à toa. “Em apenas três meses de ‘viagem’, minha esposa descobriu que estava grávida”, diz Bruno. “Tínhamos duas opções: abandonar o projeto ou refazer o planejamento.”

A francesa Allyson e o brasileiro Bruno se conheceram por meio do CouchSurfing, a plataforma que aproxima pessoas com um sofá disponível e viajantes em busca de um teto; na época, ela estava morando no Rio e ele vinha de um período estudando inglês na Irlanda, onde percebeu que não queria ficar mais “preso” em um só lugar.

Apaixonados, decidiram ganhar o mundo. Com uma carreira em marketing digital, Bruno tinha economias e uma renda mensal com negócios online. Allyson juntara uma quantia intermediando aluguéis de casas no Rio, no período pré-Copa. “Nosso planejamento foi de seis meses, para depois reavaliarmos se continuaríamos.”

Continuaram. Em quatro anos, foram 40 países visitados, boa parte já com filhos a tiracolo. Hoje são duas crianças (uma menina de 4 e um menino de 3) e há uma terceira a caminho. A renda vem de cursos à distância, mentorias para a criação de negócios e alguns posts patrocinados no blog do casal, o Família sem Fronteiras.

Em média, eles permanecem 30 dias em cada destino, com um gasto mensal de cerca de R$ 6 mil. “A Allyson decide o itinerário”, diz Bruno. “Somos uma equipe e ela administra muito bem a nossa agenda, desde a busca por passagens baratas, aluguel de casas ou hospedagem, aluguel de carro, passeios que valem a pena…”.

Ter residência fixa não está mais nos planos. “ Podemos talvez diminuir as viagens por conta das crianças, mas encerrar, jamais”, diz Bruno. “Nosso objetivo é ampliar os nossos negócios na internet, com a filosofia de que é possível administrá-los de qualquer lugar do mundo.”

 

Bruno e a filha, em Cingapura: sem residência fixa no horizonte (crédito: divulgação)

 

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Quer tirar o seu sonho do papel? Então confira algumas dicas na hora de viabilizar o período sabático ou uma temporada de viagem:

 

  • Reserve – já! – uma parte de sua renda mensal para cursos, viagens etc.
  • Mude o seu mindset de consumo. Avalie a necessidade de cada compra.
  • O propósito é fundamental: reflita sobre o que você quer do seu sabático.
  • Evite pedir empréstimos. Repense seus custos e privilegie a austeridade.
  • No borderô de viagem, programe sempre uma reserva para imprevistos.
  • Fique atento a promoções de milhas (que ajudam a esticar o orçamento).
  • Leve em conta flutuações de preço em alta temporada ao definir o itinerário.
  • Analise a opção de criar um negócio digital (que você possa manter viajando).
  • Mantenha o network aquecido: você vai precisar dele na volta ao mercado.

 

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