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Quem diria: a Escola de Botânica, que torna esse conhecimento acessível, é um sucesso

- 3 de julho de 2018
Os biólogos Gisele de Oliveira e Anderson Santos se juntaram para criar um espaço com oficinas e workshops de identificação de plantas, poda, extração de pigmentos naturais etc (foto: Julia Rettmann).
Os biólogos Gisele de Oliveira e Anderson Santos se juntaram para criar um espaço com oficinas e workshops de identificação de plantas, poda, extração de pigmentos naturais etc (foto: Julia Rettmann).

Todos os brasileiros que passaram pela escola tiveram, em algum momento da educação infantil, a experiência de plantar um feijãozinho no algodão. A ideia é ter contato com o ciclo de nascimento e crescimento das plantas. Mas depois disso, segundo o biólogo Anderson Santos, 34, os alunos vão voltar a estudar esse universo somente no ensino médio. Para evitar esta “cegueira botânica”, ou seja, a incapacidade de perceber as plantas nos lugares, ele e a também bióloga Gisele de Oliveira, 36, criaram, em 2015, a Escola de Botânica, que oferece oficinas e workshops sobre o tema em três linhas diferentes: conhecimento técnico (identificação de plantas e poda), artístico (aquarela, pintura e extração de pigmentos) e resgate afetivo (aulas ligadas à sabedoria ancestral e memória histórica, como tingimento de tecidos e preparo de alimentos com plantas). Anderson fala mais a respeito:

“Nosso enfoque é abordar temas gerais, nos quais as plantas são o assunto central ou aparecem como elemento importante para trabalhar com educação ambiental”

Apesar do nome, Escola de Botânica, o empreendimento está longe de ter um formato parecido com o de uma escola tradicional, com um aluno sentado atrás do outro. As aulas acontecem em torno de uma mesa retangular, com os participantes podendo se ver, conversar, trocar ideias e experiências. Instalada no andar térreo de um prédio no bairro de Santa Cecília, na região central de São Paulo, o negócio compartilha espaço com a loja de decoração e plantas Selvvva.

Além de dividir o aluguel, Anderson afirma que a parceria tem sido fundamental para o seu modelo de negócio. “Construímos uma porta de vidro para criar a integração dos públicos. Então, quem vem na loja se interessa pelas atividades da escola e quem sai da escola vai até a Selvvva comprar plantas. Foi um casamento maravilhoso.”

ELE FOI DEMITIDO E RESOLVEU ENSINAR O QUE SABIA PARA LEIGOS

A paixão por plantas acompanha os dois sócios há muito tempo. Eles se formaram juntos na universidade e foram estagiários e pesquisadores no Instituto de Botânica de São Paulo por quase dez anos. Anderson chegou a morar por dois anos dentro do Jardim Botânico, em uma residência estudantil. “Éramos 31 pessoas em uma casa. Tinha gente do mundo todo, de todas as idades e culturas. Foi um período muito interessante.”

Professor em colégios públicos e privados, universidades e também em uma escola técnica, ele teve a ideia inicial do negócio depois de ser demitido de uma faculdade na qual lecionava (em plena crise de 2015) e sentir um pouco de pavor diante do que seria sua vida profissional.

Na época, o biólogo dividia uma sala em um edifício na Praça da República, centro de São Paulo, com dois artistas plásticos e resolveu usar o espaço, chamado de Laboratório 52, para oferecer algum curso. Como a sala era pequena — cabiam apenas 8 pessoas — foi este o número de vagas abertas para os dois encontros sobre “Noções Básicas de Botânica”. Ele se lembra que recebeu uma artista, uma dona de casa, um técnico de informática, uma dona de bar e uma estudante de 17 anos. Em comum, apenas o interesse pelas plantas. O professor conta como foi encarar uma turma tão diversa:

“Naquele momento, o maior desafio era usar uma linguagem simples para falar sobre ciência. Dentro da universidade, tinha o filtro de que as pessoas foram lá interessadas na biologia. Neste outro formato, não sabia com quem iria conversar”

Ele repetiu a atividade algumas vezes, até que pensou na possibilidade de transformar o curso em algo maior. A divulgação era feita pelas redes sociais e houve uma resposta positiva das pessoas, além de muitos comentários de amigos biólogos dizendo que sempre haviam pensado em algo parecido. “Nessa hora, me deu um desespero porque arrumei concorrência antes mesmo do negócio existir.”

Ele resolveu, então, criar o site, o logotipo e uma lista de cursos que poderiam ser oferecidos. Ligou para a amiga Gisele e a convidou para embarcarem juntos nesta jornada. “Abrimos as inscrições e o curso só aconteceria a partir de um número determinado de pessoas inscritas. Foi a forma encontrada para injetar dinheiro na empresa sem precisar fazer investimento financeiro”, diz o biólogo.

COMO CRIAR UMA RELAÇÃO ENTRE O VERDE E O CINZA DA CIDADE

O público veio e os oito lugares do Laboratório 52 ficaram pequenos. Foi aí que Anderson, que já havia batido na porta da Selvvva e se apresentado, fez uma parceria para usar o espaço da loja e, assim, conseguiu aumentar o número de participantes das oficinas. Quando os sócios perceberam que o negócio havia engrenado, foram em busca de um lugar próprio. Encontraram uma cobertura na Avenida São Luís, também no centro da cidade, onde havia um jardim com árvores, e conseguiram alugar por um preço que cabia no bolso.

A Escola de Botânica divide espaço coma loja Selvvva (ao fundo) em uma parceria de muita troca (foto: PC Pereira).

“Ficamos um ano nessa cobertura e foi incrível. Estávamos em um prédio no centro da cidade, cercado por um jardim, mas olhando para um horizonte cinza. O único verde que a gente via eram as árvores da Praça da República”, fala Anderson. Ele continua: “Foi um período em que conseguimos refletir sobre muitas coisas, inclusive, sobre o quanto São Paulo precisava de uma escola que abordasse esse assunto”.

A mudança para o prédio onde estão hoje, em um andar térreo junto com a Selvvva, aconteceu depois de uma aluna entrar em contato perguntando sobre a acessibilidade da escola para cadeirantes. Não tinha. Eles estavam na cobertura e, para acessá-la, era preciso subir um lance de escada. “Nessa hora, levei uma facada. Percebi que precisávamos sair de lá e tornar a escola acessível, porque não adianta falar de informação se todo mundo não puder chegar até ela.”

A COMUNICAÇÃO TEM QUE SER PRECISA PARA ATRAIR OS ALUNOS

Embora não tenha sido a primeira empresa de Anderson e Gisele, a Escola de Botânica é a experiência de maior fôlego dos dois. Quando foi convidada pelo amigo para tocar o negócio, Gisele tinha uma empresa de consultoria ambiental e estava vendo a demanda cair drasticamente. “Estava em busca de novos ares e o Anderson veio com essa ideia da escola. Topei na hora, apesar de ser um universo bem diferente.” Ela prossegue:

“A consultoria era algo extremamente técnico, meu papel era visitar obras e fazer relatórios. Já educação exige um cuidado especial, pois estamos trabalhando na construção do outro”

Anderson, por sua vez, já havia se aventurado como joalheiro, hobby que virou um pequeno negócio. “Fazia as joias artesanais e vendia. Considero que empreendia em pequena escala porque participava de feiras na cidade e tinha alguns pontos de venda. Mas a quantidade de pessoas que acessava isso era muito pequena. Fazia dez  vendas por mês”, diz.

Entre os cursos oferecidos pela Escola de Botânica está o de extração de pigmentos naturais.

Pela Escola de Botânica já passaram cerca de dois mil alunos desde 2015. São oferecidos uma média de 15 cursos por mês, cada um com cerca de 15 vagas e preços que variam de 180 a 360 reais.

A comunicação é toda feita pela internet. “Nossa venda é 100% online. Então, a pessoa tem que ver, se interessar, se inscrever, concluir a inscrição e pagar, tudo pela internet”, diz Anderson.

Nesse ambiente virtual, a forma como é feita a comunicação dos cursos é fundamental e começa pelo título que, os sócios aprenderam: precisar ser explícito. O de “Cultivo de plantas em casas e apartamentos”, por exemplo,  se tornou o mais procurado quando eles incluíram a palavra “apartamento” na chamada. “Fomos aprendendo isso na tentativa e erro”, fala o sócio. Às vezes, por mais interessante que seja um assunto, se não encontrarem a forma correta de comunicar, a procura é baixa e a aula não acontece.

Os empreendedores dizem que o maior desafio foi — e ainda é — a burocracia administrativa, mas acreditam que o fato de terem começado devagar —  fazendo o que estava dentro da possibilidade dos dois — permitiu que não cometessem nenhum grande erro. “Tivemos a possibilidade, em alguns momentos, de criar uma equipe e ir para outro patamar. Mas preferimos ser cautelosos e ficarmos bem seguros do que nos mantêm, honrando nossas despesas e remunerando os professores de forma justa”, diz Anderson. Ele complementa: “Nunca passamos do nosso limite de atuação e, consequentemente, não causamos nenhuma tragédia”. O maior susto mesmo veio durante a reforma do espaço, que custou três vezes mais do que o planejado.

Além de empreendedores, Anderson e Gisele são professores na Escola de Botânica, junto com mais 20 profissionais que sempre estão na grade de cursos, cada um em uma área. E mesmo que aumentem a escala, não pensam em parar de lecionar. “Temos trabalhado com o formato de workshops e oficinas porque é rápido. A pessoa vive essa primeira experiência, mas sempre quer ter mais. Fica uma vontade de modular essas atividades para ter mais cursos regulares. Mas ainda estamos captando esse público”, afirma.

O único curso mais longo que a escola oferece é o “Grupo de Estudos de Introdução à Botânica”, que tem duração de quatro meses e 45 alunos divididos em três turmas. “Foi a forma que encontramos de ter uma renda fixa. É este curso que dá um respiro para a gente”, diz Gisele. No ano passado, o negócio faturou 150 mil reais.

TIRANDO VANTAGEM DA BUSCA POR MAIS VERDE NOS APARTAMENTOS

Se a crise econômica do país os impulsionou a criar o negócio, eles também souberam se posicionar diante de uma tendência mundial que chegou a São Paulo: a moda de ter cada vez mais  plantas dentro de apartamento, chamada de Urban Jungle. Com ela, a cidade viu crescer um movimento de pessoas em busca de mais espaços verdes e interessadas em temas relacionados à botânica. Anderson afirma que isso começou na Europa, quando a França decidiu não plantar mais alimentos transgênicos. “Nesse momento, as pessoas começaram a cultivar hortas em todos os lugares, inclusive, dentro dos apartamentos. E a gente vive a onda das imagens, do Pinterest, do Instagram. Vemos as imagens do que acontece de bonito lá e começamos a replicar.”

Os alunos com a mão na massa, ou melhor, na terra, em uma aula prática da Escola de Botânica.

Além disso, ele, que sempre esteve ligado à educação e à pesquisa, acha que a internet deu mais voz aos cientistas e pesquisadores. “O cientista tem esse lado de ser um pouco inacessível. Na academia, as pessoas sabem muito, mas esse conhecimento fica lá dentro. E com a internet e as redes sociais, passaram a se comunicar mais.”

Um dos sonhos de Anderson e Gisele é construir uma plataforma virtual gratuita para divulgar o conteúdo sobre botânica a qualquer pessoa que tenha acesso à internet. “O Brasil é o país com o maior número de espécies de plantas do planeta. É totalmente contraditório as pessoas não saberem sobre o assunto”, diz Anderson, determinado a semear este conhecimento entre os brasileiros.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Escola de Botânica
  • O que faz: Cursos e workshops de assuntos relacionados à botânica
  • Sócio(s): Anderson Santos e Gisele de Oliveira
  • Funcionários: 1
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2015
  • Investimento inicial: Não houve
  • Faturamento: R$ 150.000 (em 2017)
  • Contato: contato@escoladebotanica.com.br
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