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“Se bater o complexo de vira-lata, lembre que você tem tanto direito de estar ali quanto qualquer um”

- 27 de janeiro de 2017
Sarah, em Berlim: "Se você me perguntar se deve largar tudo e morar fora, te pergunto: você está preparado para abandonar uma parte de você?" (foto: Jonathan Gröger).
Sarah, em Berlim: "Se você me perguntar se deve largar tudo e morar fora, te pergunto: você está preparado para abandonar uma parte de você?" (foto: Jonathan Gröger).

 

por Sarah Luisa Santos

Vivo em Berlim há quatro anos. Trabalho há um ano e meio para a Babbel, empresa formada por poliglotas, linguistas, educadores e techs que criou o primeiro app para aprender idiomas. O que isso significa na prática? Para mim, a Babbel foi e está sendo um aprendizado de como gerir um negócio sustentável, independente e com uma atmosfera motivante para seus funcionários. A maioria das startups de Berlim não chega lá. A famosa cena tecnológica de Berlim é cool, porém não como o mundo todo pensa.

Lógico que há problemas. Ser imigrante e latino americana faz diferença, sim, no mercado de trabalho alemão, para o bem e para o mal. Neste artigo compartilharei a minha experiência pessoal como brasileira em uma das cenas de startup mais legais do mundo. Isso não deve ser visto como uma generalização, pois cada caso é um caso.

Apesar de hoje eu estar satisfeita com a posição que ocupo e o local onde trabalho, as coisas em Berlim nem sempre foram fáceis. Uma das razões que me fazem valorizar meu trabalho atual é a comparação com outros que tive aqui. Em outras startups, a gerência nem sempre lidava com o seu time de uma forma saudável ou coerente (geralmente os times latino-americanos não eram tão priorizados, devo admitir). Uma vez comentei com um amigo que o clima na startup onde eu trabalhava estava péssimo e ele simplesmente respondeu: “Acabou o financiamento?”. Outro conhecido chegou a comentar comigo que Berlim era a “Bangladesh do mundo tech”, ou seja, mão de obra barata e projetos que podem dar muito certo — ou muito errado.

Voltando à startup que mencionei: de fato o financiamento tinha acabado, e por má gestão o negócio startup faliu logo depois de eu me demitir. Falir também é muito comum aqui, nessa indústria, e isso me afetou profundamente em 2013, quando a startup que me contratou e me fez sair do Brasil fechou as portas depois de um ano.

De repente, me vi em Berlim, sem falar alemão, sem emprego, completamente apaixonada pela cidade e também por um alemão. Ou seja, voltar para o Brasil não era uma opção

Além do mais, eu sentia que São Paulo, minha cidade natal, apesar de oferecer muitas opções cobrava também um valor muito alto por isso. Escolhi ter qualidade de vida, independente do meu trabalho.

Nesse período complicado e ainda novo em Berlim, comecei a procurar trabalho compulsoriamente (hábito que até hoje cultivo, por exemplo, vendo meu LinkedIn quase diariamente). Além disso, comecei a estudar alemão, que apesar de não ser completamente necessário em Berlim, faz uma grande diferença, principalmente na hora de procurar emprego.

Nessa época, descobri que para a maior parte dos estrangeiros com diploma e que não falam alemão fluente, os empregos disponíveis em startups são para trabalhar para o seu país de origem. Existe, em Berlim, uma comunidade imensa de espanhóis e italianos que fazem o mesmo.

A crise tomou outras formas na Alemanha: uma delas é um intenso fluxo de imigrantes, que traz vida e diversidade, enquanto barateia custos de mão de obra nas empresas

Entre trabalhos como tradutora, community manager, e até mesmo quase secretária, acabei achando meu lugar ao sol, escrevendo regularmente para o site Berlin Loves You, além de ser a editora da revista online da Babbel em português, a Babbel Magazine. E o idioma alemão? É verdade que não o uso cotidianamente, a não ser para traduzir alguns textos e escrever e-mails, mas o fato de eu ter conhecimento suficiente para me comunicar e traduzir textos me garantiu uma posição melhor no mercado de trabalho.

Sem contar a mão na roda que é falar alemão para lidar com as burocracias locais, que não são poucas. Ainda, vez ou outra, preciso de ajuda de amigos para resolver problemas com seguros de saúde, impostos ou taxas governamentais. Se você pensa em vir para cá, se prepare, porque aqui os impostos são altíssimos!

A maioria dos meus colegas fala pelo menos três idiomas fluentemente, o que me impressionou bastante. O mais comum é o inglês, mas ao andar pelos corredores ouço de tudo, de russo a espanhol passando por italiano e francês. Eu mesma falo muito português, porque aqui temos 12 brasileiros (somos 400 “babilônios” no escritório de Berlim), sem contar alguns alemães que falam muito bem português.

Mas o que mais me impressionou foi a prevalência de uma visão de negócio alemã, apesar de a empresa ser bem internacional e cosmopolita no que se refere aos funcionários e aos seus consumidores.

A cultura alemã não lida bem com o risco. Se algo tem a possibilidade de dar errado, eles pensam não duas, mas umas trinta vezes antes de fazer

Isso, para nós brasileiros, é muito difícil de lidar. A meu ver, estamos tão acostumados com as coisas dando errado que sempre conseguimos ter mais jogo de cintura e nos arriscamos muito mais, já os alemães querem evitar ter que reparar danos e fazem projetos que eles têm certeza que vão dar certo.

Claro que há muitos pontos positivos nessa mistura de culturas: o respeito na hora de dividir ou apreciar um projeto é maior, porque a troca de perspectivas é muito grande. É gratificante ver o interesse genuíno dos seus colegas estrangeiros pela minha cultura e pelo meu país. Também é muito divertido quando descobrimos similaridades.

Outro ponto positivo, e que demorei a aprender, é a disciplina dos alemães. Tudo tem a sua hora e lugar. Pensar antes de falar, não se alterar por motivos pequenos e ter paciência são coisas que parecem óbvias, mas que tive de aprender a duras penas. Hoje, sou grata por ter tido experiências que me ensinaram isso.

A vida em Berlim também ajuda a deixar o ambiente, de uma forma geral, mais descontraído. Berlim faz jus ao seu slogan “Arm aber Sexy” (Pobre mas Sexy). Não espere ver aqui muita gente ligada em grifes, grana ou fama – o cool é ser low profile. Consumo consciente está em todos os lugares e a preocupação com o meio ambiente também. Andar de bicicleta é regra, reciclagem e reúso de coisas também. Muita gente aqui mobilia um apartamento inteiro com móveis doados ou achados na rua. Sim, esta é a Berlim da economia solidária.

Aqui, sinto que todos os movimentos convivem bem lado a lado (salvo exceções óbvias), o sentimento de liberdade é imenso. Inclusive, o metrô de Berlim é um lugar onde você pode achar de tudo: pôneis (sim, o animal), punks remanescentes dos anos 1980, famílias alemãs e famílias de refugiados sírios.

Nesse sentido, me sinto muito bem na Alemanha, as liberdades pessoais são muito respeitadas. Claro que algumas vezes, já ouvi alguns comentários maliciosos, pessoas perguntando com certa desconfiança, “como você veio parar aqui, tão longe do Brasil?”. Minha vontade é responder: “de avião, ou você acha que eu voo numa vassoura?”.

Às vezes o complexo de vira-lata bate, mas nessas horas temos que reafirmar o nosso valor e mostrar ainda mais para nós mesmos que podemos estar aqui, como qualquer outra pessoa

Hoje, o amor com o alemão acabou, mas meu relacionamento com a cidade continua de vento e popa. Mesmo depois de quatro anos, não paro de conhecer pessoas novas, novas culturas (e até mais sobre a própria Alemanha). Em alguns momentos, bate o desânimo e a saudade da minha mãe. Mas, como diz o maravilhoso musical Hedwig and the Angry Inch, que é sobre a imigração de um transexual alemão para os Estados Unidos: “Para ser livre, é preciso desistir de uma pequena parte de si mesmo”. Eu não poderia concordar mais. E, se você me perguntar se deve largar tudo e morar fora do seu país, vou dizer: você está preparado para abandonar uma parte de você?

 

Sarah Luisa Santos, 31, estudou Artes Visuais na Belas Artes e trabalhou como repórter na Editora Abril. Morou no Brasil até 2012, quando mudou-se a trabalho para a capital alemã, onde atua como gerente de conteúdo no aplicativo de ensino de idiomas Babbel.

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