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“O meu problema não era ser uma garota comum — mas continuar fazendo coisas comuns”

- 11 de maio de 2018
Depois de anos se achando uma pessoa comum, Letícia Mello conta como descobriu seu potencial de fazer "coisas extraordinárias", após uma viagem de voluntariado pela Ásia que resultou em um livro e em um documentário.
Depois de anos se achando "comum", Letícia Mello descobriu seu potencial de fazer "coisas extraordinárias" e conta como foi.

 

por Letícia Mello

Na escola eu raramente tirava 10, mas também nunca tirei menos de 7,5. Estudei em oito escolas, morei em incontáveis cidades e não me sinto de lugar nenhum. Pratiquei vôlei, luta marcial, fiz aulas de desenho e de dança. Era boa em todas elas, mas não boa o suficiente para me destacar. Era muito baixinha. Tinha orelhas de abano e um jeito de menina-moleque. Mas ainda assim, os meninos mandavam cartinhas para mim. Sonhava em ter os olhos claros, em ser veterinária, atriz ou simplesmente ser maior de idade logo de uma vez.

Saí de casa aos 17 anos para fazer faculdade em outra cidade. No primeiro dia de aula, a professora perguntou quem estava fazendo o curso de Turismo e Hotelaria porque gostava de viajar. Levantei a mão e o sorriso de quem acredita que finalmente as coisas vão dar certo. E ela disparou: “Se você está aqui porque gosta de viajar, está no curso errado”. Mais uma vez, eu não me encaixava.

Deveria ter estudado para ser engenheira como meu pai, pelo menos teria um conhecimento específico de alguma coisa nessa vida. Sempre gostei dos números, eles eram sempre exatos. Talvez eu os invejasse. Mas o mundo caiu mesmo quando me formei. Aprendi um pouco de tudo na faculdade, mas realmente, a profissão não me faria viajar o mundo e não me tornaria especialista em nada. Continuava uma garota comum, com gostos comuns.

Sempre fui boa em muitas coisas, mas me frustrava a sensação de não ter uma verdadeira vocação. Tudo em mim parecia comum demais. Eu não me destacava. E falo de tudo, tanto de mim fisicamente como dos meus próprios desejos. Sonhava com tudo, mas não me achava capaz de executar nada. Haviam me prometido que o diploma seria a solução da minha vida, mas acabei me virando como atendente de loja de câmbio em um shopping e também como garçonete. O bom disso tudo é que ser uma garçonete razoável me permitiu morar em diferentes países e viver alguns dos sonhos que moravam em mim.

Em algum momento, entre bandejas, pratos e gerentes mal humorados, percebi que o problema não era ser uma garota comum — mas continuar fazendo coisas comuns

Talvez a vida não tenha me dado uma história triste para contar ou uma herança para financiar meus sonhos, mas eu tinha uma paixão pela vida e sabia que precisava expô-la o mundo, nem que fosse da minha maneira simples.

Foi em 2013 que tudo começou. Viajei sozinha para o Sudeste Asiático, com um orçamento limitado, para dar aulas de inglês em comunidades carentes. Como não tinha dinheiro para pagar uma agência, fui encontrando projetos pequenos onde poderia ser voluntária em troca de dormir na casa dos professores e comer na escola com as crianças. Queria viver uma experiência em que o dinheiro não estivesse envolvido, queria viver de forma simples e viajar de um jeito diferente. Queria pagar para ver: será que uma pessoa comum pode ter algo de útil para doar para o mundo?

Letícia, na Tailândia, onde deu aula de inglês para crianças.

Foram seis meses da escola mais intensa de minha vida. Fui furtada no meu primeiro dia de viagem em Bangkok, fiquei sem dinheiro, cartão e passaporte.

Assim que cheguei na escola, no interior da Tailândia, peguei uma infecção. Dormia em um colchonete fininho, tomava banho frio de caneca, me ofereciam insetos fritos no café-da-manhã e abraços sinceros ao longo do dia. Aprendi a amar cada momento daquela vida tão diferente. Alguns dias, eu chorava sem nem saber o porquê. Mas aprendia muito com a simplicidade e sinceridade com que eles me receberam. O que vou dizer a seguir é o clichê mais verdadeiro: fui para ensinar e acabei aprendendo muito mais.

Fui furtada pela segunda vez, no meio da madrugada enquanto dirigia minha motoca. Levaram tudo de novo, incluindo meu celular e minha energia. Nem sei como, mas encontrei forças para me reerguer e seguir viagem. O Camboja foi o meu grande professor, aprendi com os personagens reais da triste história do genocídio cambojano. E, para agradecer, deixei uma casinha construída para uma família com 800 dólares que consegui juntar com a ajuda de amigos e familiares. O Vietnã me conectou ao acaso com uma família de uma minoria étnica no alto das montanhas. Essa experiência me transformou e foi ali que prometi que, um dia, eu voltaria. E foi dessa viagem que nasceu o meu projeto Do For Love.

Começou como uma página no Facebook com 1 000 seguidores. Ali, eu compartilhava alguns textos sobre as minhas experiências e foi dali que vieram os primeiros pedidos para que eu escrevesse um livro. Mas quem sou eu para escrever um livro? Quem sou eu para acreditar nos meus sonhos?

No livro “Do For Love”, Letícia relata suas experiências como voluntária na Ásia.

A garota comum que vivia dentro de mim questionou isso tudo e mais um pouco por dois anos depois do fim da viagem. Voltei a trabalhar com eventos e como garçonete. Contratada pela FIFA, na Copa do Mundo aqui no Brasil, essas inquietações me vinham à cabeça toda vez que eu precisava mudar o trânsito das pessoas comuns para dar preferência aos convidados VIPs.

Voltava a me questionar, enquanto carregava bandejas com taças de champagne rosé no rooftop de um famoso clube para pessoas da área criativa em Nova York. A vida me levou para Nova York e a cidade era o oposto de tudo que eu tinha visto e vivido na Ásia. Explodi de verdade. Surtei um dia no meu trabalho, desci no RH chorando e pedi para assinar minha demissão, larguei meu avental e uniforme no armário e prometi que só voltaria lá como membro do clube.

Meu namorado não entendeu nada. Poucas semanas depois, eu voava de volta para o Brasil para realizar o sonho de escrever um livro sobre minhas experiências na Ásia. Isso foi no final de 2015, a data em que a garota comum continuou sendo comum, mas se permitiu fazer coisas extraordinárias. Não sei se extraordinárias aos olhos do mundo, mas extraordinárias para o coração dela.

Só nós sabemos quais são os nossos maiores desafios, o quanto de energia, de persistência e garra colocamos nos nossos sonhos, o que é realmente importante para fazer transbordar o nosso coração

Consegui publicar meu livro por meio de um financiamento coletivo de sucesso, que ultrapassou a meta inicial e chegou a quase 40 mil reais no auge da crise de 2016. Organizei festas de lançamento em diversas cidades do Brasil e jamais vou esquecer o dia que autografei os livros dos meus primeiros leitores. Foram 1 000 unidades vendidas rapidamente e, em poucos meses, eu estava reimprimindo mais cópias.

Lembra que eu prometi, lá no Vietnã, que um dia eu voltaria? Então, esse é o título do documentário independente que produzi em parceria com um filmmaker brasileiro incrível, o Lucas Bogo. Logo depois de lançar o livro, marcando três anos da minha viagem, retornei a todos os lugares do livro e revisitei os principais amigos, que agora são também personagens das minhas histórias. Viajamos por 40 dias para gravar um material emocionante e sincero, que tem a intenção de compartilhar essas histórias, incentivar sonhos e inspirar as pessoas a fazerem por amor.

Nessa jornada, tive que aprender de tudo: organizar meus próprios eventos, falar em público, fazer marketing, editar, fotografar, fazer website, gerenciar pessoas, distribuição de filme, contratos, burocracias e por aí vai. E olha eu aqui, fazendo um pouco de tudo novamente. Assumi isso como parte da minha essência, já que ser multifuncional é o que me permite fazer um pouco de tudo o que gosto. Percebi também que muito do que negamos em nós é o que o sociedade nos impõe como o correto. Mas o correto muda com a loucura pessoal de cada um, não é mesmo?

Hoje, cuido sozinha da logística de venda dos meus livros, que acontece por meio do meu site. Já são mais de 4 000 exemplares vendidos de forma independente, o que é muito mais do que eu imaginei para um primeiro livro de uma autora desconhecida. O documentário ganhou vida por meio de exibições que organizei com o apoio de uma seguidora que se voluntariou para me ajudar. Rodamos mais de 14 cidades pelo Brasil com salas de cinema lotadas de pessoas e de uma energia linda. No mês passado, o filme estreou no Canal Futura e, nesse mês, começo um tour internacional de exibição que passará por San Diego, Los Angeles, Nova York e diversos países da Europa.

A minha segunda palestra da vida foi um TEDx. Mais um sonho realizado. Escrevi para sites que sempre admirei, saí em matérias de grandes veículos de comunicação brasileiros, dei entrevista para rádios e hoje sou amiga pessoal de pessoas que por muito tempo admirei de longe.

Meu livro não é um best-seller, meu filme não foi produzido em Hollywood, nunca fui capa de revista e não fiquei milionária (nada disso, por enquanto haha)

Mas me orgulho do que conquistei da mesma maneira como se isso tudo tivesse acontecido. A dimensão do que conquistamos com nossas próprias mãos é incalculável. Foram desafios pessoais imensos e aprendizados ainda maiores que hoje me permitem tocar e inspirar as pessoas a acreditarem nos seus sonhos e a fazerem por amor. Tudo isso, graças à garotinha comum que aprendeu a dar espaço para a mulher que faz coisas extraordinárias, desde que ela se permita viver sua verdadeira essência.

 

Letícia Mello, 29, é autora do livro Do For Love, produtora do documentário Um dia eu voltaria, empreendedora e um pouco de tudo que faz o seu coração vibrar. Tudo o que possui cabe em uma mochila e atualmente se divide entre Nova York e viagens pelo mundo. 

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