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“No Canadá, aprendi que ninguém vive de nome. Ter uma boa reputação não basta, você precisa ser bom todo dia”

- 9 de novembro de 2018
Marcelo Andrade diz que o mercado brasileiro valoriza mais o histórico das empresas e dos profissionais do que, de fato, suas propostas.

 

por Marcelo Andrade

Sempre ouvimos que sair da zona de conforto costuma ser uma experiência transformadora e, por vezes, necessária para que possamos encontrar algumas respostas. É claro, concordo plenamente. No entanto, o que não nos dizem é que sair da zona de conforto pode ter significados completamente distintos em outros ambientes. Eu cursei Engenharia Mecânica no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e, naturalmente, essa conquista me abriu muitas portas no mercado brasileiro.

Me senti aliviado com a sensação de que jamais faltariam oportunidades quando, antes mesmo de concluir a graduação, já tinha cinco ofertas de trabalho em minha mesa

Concluí meu curso em 1993 e, após uma rápida passagem pelo mercado financeiro, em São Paulo, segui para a Volvo do Brasil, em Curitiba, onde fiquei até 1999. Foram bons anos, não tenho dúvida. Mas eu sempre tive o sonho de estudar e trabalhar fora do país, então, decidi começar um novo ciclo.

Meu próximo projeto de vida foi cursar um mestrado em Economia na Universidade de Toronto, no Canadá. Na minha cabeça, já estava tudo desenhado: além de português, eu falava inglês e alemão, era formado em uma excelente instituição de ensino e teria um tapete vermelho estendido em qualquer lugar do mundo. Ah, que ilusão!

Entrando no mercado canadense, aprendi que ter uma boa reputação não era suficiente se eu quisesse encontrar o caminho para o sucesso

Para entender o que era necessário mudar, decidi fazer uma reflexão das diferenças entre o Brasil e o Canadá — e isso foi libertador. Não é segredo para ninguém: no Brasil, as empresas são prejudicadas por um ambiente extremamente burocrático, pela carga tributária pesada e, no nível pessoal, pela dificuldade de formar equipes qualificadas.

Isso cria uma tendência de valorização do “ser” e do “ter” muito grande. Sob a perspectiva comercial, as empresas que conseguem vencer as barreiras operacionais encontram relativamente pouca concorrência. Além disso, é muito comum a empatia corporativa pelo histórico, ou seja, a opção por soluções de fornecedores que têm em sua carteira grandes corporações. Na perspectiva pessoal, essa cultura se traduz de forma parecida. Não raro, a faculdade de origem ou habilidades pouco relacionadas com a atividade em questão são mais decisivos para uma vaga de emprego do que deveriam.

De forma resumida, o mercado brasileiro está mais preocupado com a história de profissionais e empresas do que com as soluções e os benefícios e oferecidos

Às vezes, entender uma demanda e oferecer um atendimento personalizado pode até ficar em segundo plano. Aqui no Norte das Américas, não existe o “você precisa comprar de mim porque sou bom”. E essa é uma diferença impressionante. Esse é um dos primeiros desafios enfrentados por empresários habituados à realidade do Brasil.

Os ambientes proporcionados pelos dois países em quesitos de concorrência e operação (mão de obra, impostos, legislação e incentivo) são pólos quase opostos. Se por um lado, o Canadá tem um mercado recheado de boas empresas competindo pelo mesmo espaço, por outro, a facilidade de empreender é muito maior. Já no Brasil, são poucas as empresas que conseguem superar as adversidades, o que resulta em uma competitividade muito menor, facilitando as vendas. No entanto, o grande desafio é suportar a dificuldade operacional.

Essas conclusões permitiram que eu começasse a trilhar meu caminho no Canadá. Não só através de um currículo bonito ou de uma formação bacana, porque isso é o mínimo para a realidade local. O que realmente fez a diferença foi a disposição em me adequar em comportamento, mentalidade e objetivos.

Já habituado, comecei a trabalhar com Análise de Risco na Royal Bank of Canada. Dali, construí uma carreira no setor bancário de Toronto e lecionei por alguns anos na Ryerson University. Sim, me estabeleci por completo no país. Vim com minha esposa na época do mestrado e hoje toda a nossa vida está aqui: somos pais de dois meninões canadenses.

Exatamente por conhecer a realidade brasileira e ter tanto tempo de experiência na América do Norte, em um país que me abraçou e virou meu lar, decidi partir para um novo desafio em 2012: iniciar meu próprio negócio e ajudar a crescente onda de empreendedores brasileiros que desejam fincar raízes e prosperar por aqui.

Apesar da história de que “quem é bem-sucedido em um ambiente corporativo inóspito como o brasileiro está preparado para qualquer coisa” seja um enorme mito, sei que minha terra natal é um berço de grandes ideias e de gente esforçada. E com tudo o que aprendi em mais de dez anos trabalhando em grandes bancos em Toronto financiando empresas no Canadá (muitas sofrendo as dores da internacionalização), tive a certeza de que poderia contribuir na internacionalização de empresas brasileiras. Por isso, fundei a Lucalex.

Hoje me dedico a prestar toda a consultoria necessária a esses empreendedores que desejam construir uma integração mais sólida no Canadá. Meu trabalho está fortemente ligado à adaptação completa de planos de negócio que já rodam no Brasil e têm potencial para competir em um nível ainda mais alto aqui, no Hemisfério Norte.

Posso dizer que ter aprendido que o mundo espera mais de nós do que simplesmente sermos bons foi um grande privilégio. Isso influenciou minha história de tal maneira que decidi investir meus esforços em compartilhar essa lição.

 

Marcelo Andrade, 47, é formado em Engenharia Mecânica no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e mestre em Economia pela Universidade de Toronto. É especialista em análise de risco-país e já trabalhou na Alcan, Volvo, Enbridge, Ryerson University, Royal Bank of Canada, HSBC e Nuveo. Atualmente, é CEO da Lucalex e presta consultoria para empresas brasileiras que desejam expandir suas operações para o Canadá.

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