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“Tinha passe livre para não fazer nada. Ao mesmo tempo, queria tocar projetos engavetados por anos”

- 23 de agosto de 2019
Marcelo Moraes chegou em Toronto no começo de agosto para uma especialização em Content Strategy e Digital Marketing.

 

por Marcelo Moraes

No final de junho de 2018, eu saía do Estadão. Mais uma demissão dentre as milhares que aconteceram em empresas de mídia tradicionais no mundo todo, que encolheram ou sumiram nos últimos anos, onde formas de comunicação conhecidas há décadas estão derretendo e dando lugar às mídias digitais.

Foram seis anos numa casa especial, lugar onde sonhava em trabalhar desde criança. O final de ciclo foi esperado e trouxe alívio, apreensão, tristeza e novas perspectivas. Ainda não sei se é uma pausa ou um ponto final na minha vida como executivo em grupos de comunicação, lugares onde não existe rotina, decisões são tomadas com o coração e  repletos de gente muito inteligente, crítica e apaixonada. Mas ali, entre gols de placa e chutes de canela na Copa da Rússia, eu pegava minha bola pra jogar em campos que eu ainda não sabia quais seriam.

A maior vantagem que enxergava naquele momento era ter tempo livre

Cara, isso vale ouro e é o Santo Graal de quem está trabalhando, apertado entre um chefe chato, uma meta puxada, horas com a bunda amassada no carro e, por outro lado, com uma vontade enorme de se esticar no sofá sem fazer nada, buscar os filhos na escola no meio do dia, ler um livro deitado na rede e jogar video game por horas.

Era o que mais me animava nessa primeira fase da minha nova vida. Sem romantismos, claro. Afinal, as contas não param de chegar. Mas eu tinha um pé de meia que me dava certa folga e minha esposa continuava trabalhando. Então, por que não aproveitar? Fernando de Noronha, Paraty, José Bonifácio, Vinhedo (onde morava, no interior de São Paulo). Redenção da Serra, Paraibuna, Aparecida do Norte. Sim, eu me diverti! Com minha família, meus amigos, sozinho.

Eu tinha um passe livre para não fazer nada. Ao mesmo tempo, queria botar a mão em projetos engavetados por anos, alguns até por décadas.

Yuval Noah Harari, César Souza, Malcolm Gladwell, Mário Sergio Cortella, Alan Moore, Brian Michael Bendis. Entre palavras, ideias e desenhos foi principalmente nas páginas dos livros e quadrinhos desses autores que li, aprendi, me diverti.

E dentre todos eles, o que mais me influenciou recentemente foi Harari. Super recomendo a leitura dos seus três livros: Sapiens, Homo Deus e 21 Lições para o Século 21. O figura é um historiador que escreve muito bem e conecta quem somos e o que fizemos em nossa tortuosa jornada por esse planeta com as oportunidades e desafios que temos pela frente num mundo de inteligência artificial, redes sociais, fake news e realidades infinitas.

Talvez não haja respostas para as nossas angústias, mas pelo menos ideias que nos ajudem a navegar em mares incertos estão nas perguntas e reflexões que autores como Cortella e Harari apresentam. Se você concorda pelo menos em parte com isso, divirta-se nas páginas desses livros. E, como ninguém é de ferro, na hora de relaxar passeei pela Louisiana e pelo além com o Monstro do Pântano, de Alan Moore, e me pendurei por Nova York com o Homem-Aranha, de Brian Michael Bendis, dois papas dos quadrinhos modernos.

Sim, sou apaixonado por gibis de heróis. Mais que isso, sou fã de cultura pop e jogador de video game desde os jurássicos tempos do Telejogo, no final dos anos 70. Estava na hora de tirar a poeira do meu PS4 e o jogo que escolhi me surpreendeu além de me divertir um bocado.

God of War conta a história de um cruel, incansável e implacável guerreiro espartano. Traído por Ares, deus da Guerra, Kratos assassina sua esposa e filha e vive a partir daí uma das mais fascinantes, longas, fantásticas e sanguinárias histórias de vingança. Não basta derrotar e tomar o lugar de Ares, sua sede de sangue vai além e todos os deuses gregos pagam por seus pecados em cenas antológicas e violentas, muito violentas. God of War sempre foi um jogo pra gente grande. Pelo menos até o lançamento de sua última edição, em 2018.

Num roteiro que me deixou de cabelo em pé antes de pegar o controle do PS4, Kratos por alguma razão agora andava pelas terras da mitologia nórdica e pela primeira vez teria um companheiro em sua jornada, Atreus, seu filho. Hum, será que vai dar certo? Deu muito certo! Como a gente enxerga no mundo reflexos de nós mesmos, vi em God of War uma bela história de pai e filho, que entre batalhas contra elfos, valquírias e deuses nórdicos, se ajudam, conversam, discutem, aprendem e crescem numa relação que começa fria e distante e termina com cumplicidade, respeito e amor.

Entre páginas lidas, horas no video game, brincadeiras com meus filhos e busca por trabalho, eu comecei a sentir falta de tocar um projeto.

Talvez numa crise de abstinência do mundo corporativo, eu queria fazer algo que tivesse um objetivo para o qual tivesse que planejar, definir estratégia, recursos, ajustar o percurso. Foi então que decidi realizar uma caminhada até Aparecida do Norte (SP)

Tinha bem longe no baú das minhas memórias lembranças de quando Claudio, meu irmão mais velho, fez sua jornada entre São Paulo a Aparecida do Norte, rota de romeiros de todo o Brasil em um trecho de quase 200 quilômetros entre a capital paulista e uma das cidades que mais representa a fé dos brasileiros, às margens da Via Dutra.

Agora era minha vez. Muitas coisas mudaram entre os passos do meu irmão e os meus. Ele seguiu a Dutra de São Paulo a seu destino, entre carros, caminhões e ônibus. Eu aproveitei a Rota da Luz, um caminho criado pelo governo de São Paulo para dar mais segurança aos romeiros, com início em Mogi das Cruzes e 200 quilômetros de muitas subidas íngremes, descidas escorregadias em estradas de terra que cortam a Serra do Mar por cidades como Redenção da Serra, Paraibuna e Taubaté. Eu ainda não sabia, mas os passos que daria nesse caminho me mudariam para sempre e seriam uma das experiências mais plenas que vivi em minha vida.

Em uma terça-feira, no início de outubro, saí de madrugada de casa e segui de ônibus até o Tietê e de lá para a Estação da Luz, onde me encontrei com o Tula, primo-irmão que pelas mesmas influências queria fazer a Rota da Luz. Às oito da manhã saíamos do marco zero da trilha com destino à Santa Branca, 47 quilômetros adiante. No final do dia descobrimos nosso primeiro erro de planejamento.

Não estávamos preparados para andar à noite em estradas sem iluminação. Para aliviar o peso da mochila, não levamos lanterna e vimos que a sensação de não enxergar o chão onde se pisa é bem estranha. Mas esse mesmo escuro me proporcionou um dos momentos mais sublimes da minha vida.

A poucos quilômetros da pousada onde dormiríamos, andávamos no breu entre montanhas escuras dos dois lados da pista. E de repente, quase que em um passe de mágica, centenas de vagalumes começam a piscar sobre os morros em uma decoração de Natal antecipada, a mais linda que vi. A vontade era parar e ficar ali, apreciando o balé iluminado dos nossos pequenos companheiros.

No final do dia, descobrimos nosso segundo e pior erro de planejamento. A ideia de fazer 200 quilômetros em quatro dias tinha funcionado bem no papel, mas na prática estava muito puxada. As dores nas pernas e nas costas incomodavam os dois, mas Tula começava a sofrer com bolhas nos pés que fizeram com que ele tivesse que voltar pra casa no segundo dia. E eu, com quase metade do caminho cumprido, me vi com uma dúvida cruel: voltar para casa e retomar a trilha em algum momento no futuro ou encarar o desafio de seguir sozinho por um caminho que me preocupava  por ser em boa parte deserto e me dar medo de ser assaltado.

Com apoio da minha esposa e alguns cuidados extras, segui adiante. E se os dois primeiros dias tinham sido excepcionais, a metade final da minha jornada foi a maior reflexão da minha vida. Horas de silêncio entre paisagens deslumbrantes se revezavam com a simplicidade das casas na periferia das cidades por onde passei. O desafio de andar 50 quilômetros por dia era amenizado pelas mensagens da minha família e um grupo de amigos que acompanhava tudo pelo WhatsApp. E eu andava. E pensava. E falava com animais. E pensava. E agradecia a Deus e a todos que fizeram parte da minha vida. E chorava. Difícil dizer mais que isso. Parte de mim ficou para sempre naquelas estradas de terra. Transformador e inesquecível. Nisso o tempo ia passando.

Desde minha saída do Estadão já tinham sido quatro meses. Era pouca coisa sem trabalhar considerando o mar de gente desempregada por meses ou anos no país

Aos 45 anos, achava que podia usar minhas experiências e energia para construir coisas novas em outras empresas. Ou seja, queria voltar a trabalhar como executivo. Sabia que não seria fácil nem rápido, mas não conseguia me ver batendo de porta em porta por um tempo indefinido. Não queria isso pra mim. Então, eu precisava de um plano B.

Comecei a pesquisar sobre o que seria essa alternativa e dentre as cartas na mesa, uma me chamou a atenção: passar uma temporada fora do Brasil. Parecia não haver melhor momento. De um lado um país que segue girando sem sair do lugar, no meio da pior crise econômica e política de sua história. De outro a possibilidade de aprender coisas novas, viver outros ares com minha esposa Edilene e meus filhos, Lucas e Nicolas. Decisão fácil.

O plano era buscar uma especialização em Marketing Digital em um lugar que abrisse as portas pra nós quatro. Deu certo. O destino? Canadá

E assim, depois de seis meses de planejamento, trabalho e despedidas emocionantes, começamos a escrever novas linhas em nossas histórias em Toronto. Estamos cheios de expectativas, medos, ansiedade mas, acima de tudo, com uma vontade enorme de curtir o Canadá por pelo menos um ano, de aprender muito, conhecer gente nova, nos divertir, passear, trabalhar, escorregar no gelo, fazer guerra de bola de neve.

Queremos fincar o pé em um lugar que pode ser uma nova opção de casa para nossa família e onde chegamos poucos dias atrás. E ao que tudo promete, essa nova jornada vai ser inesquecível!

 

Marcelo Moraes, 45, é administrador de empresas e especialista em marketing, desenvolvimento de produtos e inovação. Foi diretor de marketing do Estadão e trabalhou em outros grupo de mídia. Atualmente faz uma especialização em Content Strategy e Digital Marketing na Humber College, no Canadá.

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