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“Use a furadeira como uma garota”: a Agiliza Lab ensina mulheres (e homens) a realizar reparos residenciais

- 31 de julho de 2019
"Girl power": uma das turmas do workshop "Deixa Que Eu Faço"; a fundadora Mariana Pavan está na ponta direita da foto, agachada (foto: Agiliza Lab/Mariana Prado).

Uma furadeira de impacto, dessas de uso doméstico, pesa pouco mais do que 1,6 kg. Para muitas mulheres, porém, o peso poderia ser de 16 toneladas, tamanho o medo de lidar com a ferramenta. Há o receio de fazer um furo torto, de romper um cano ou tomar choque… O fato é que, ainda hoje, poucas garotas são incentivadas a aprender como se faz pequenos reparos em casa.

“Meu objetivo é mudar esse conceito e acabar com o temor que limita tudo o que as mulheres são capazes de realizar”, diz Mariana Pavan, fundadora da Agiliza Lab. Desde 2017, seu negócio é ensinar na prática como resolver os principais problemas ligados à manutenção residencial: trocar a resistência do chuveiro, consertar um vazamento na pia e, claro, dominar de uma vez por todas a temida furadeira.

Formada em Engenharia Florestal pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq) da Universidade de São Paulo, em Piracicaba, Mariana nasceu e cresceu em outra cidade do interior paulista: Araraquara, a 300 quilômetros da capital. Ela conta que, desde criança, sempre gostou de montar e desmontar objetos:

“Meu pai fazia todos os reparos em casa e eu aprendi com ele. Esses ensinamentos têm sido úteis para mim, meus amigos e os roommates ao longo da vida”

Ao contrário da maioria de suas alunas, portanto, a empreendedora trouxe da infância o gosto e o conhecimento para colocar a mão na massa.

EMPREENDER FOI UM MEIO DE INCENTIVAR O CONSUMO CONSCIENTE

Recém-formada pela Esalq, Mariana se mudou para Manaus, onde viveu de 2007 a 2012, trabalhando no Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Sua última posição foi como coordenadora nacional da Força Tarefa dos Governadores para o Clima e Florestas (GCF), articulando ações entre os estados-membros do grupo, que combate o desmatamento em florestas tropicais nas Américas, África e Ásia.

Em 2012, Mariana encerrou o ciclo amazonense e pela primeira vez foi morar na capital paulista. Começou a trabalhar com inovação social, mas continuou antenada com os temas ambientais (e prestando consultoria como engenheira florestal, o que faz até hoje). Daí veio a inquietude por trabalhar com algo que despertasse em outras pessoas o interesse pelo consumo consciente, ajudando mulheres a desenvolver habilidades manuais e a autoconfiança.

Nos workshops, as alunas vencem tabus e aprendem a dominar a “temida” furadeira (foto: Agiliza Lab/Mariana Prado).

Ao buscar um curso rápido de elétrica e hidráulica, com foco no público feminino, ela só encontrou aulas em formato profissionalizante, “com 1500 horas e titulação de técnico em alguma coisa”. E enxergou aí uma oportunidade.

Com apoio de um amigo que prestava serviços como “marido de aluguel”, Mariana foi montando conteúdos de base para um curso livre, prático, de curta duração. E assim, com R$ 15 mil de investimento (usados na compra de materiais, criação de site e locação de espaço) e a realização de um primeiro workshop entre amigas para colher feedbacks, nascia a Agiliza Lab.

OS WORKSHOPS ESTIMULAM A CRIATIVIDADE E DESFAZEM TABUS

A base da empresa é o workshop mensal “Deixa Que Eu Faço”, realizado desde julho de 2017. Num único dia, sábado ou domingo, durante oito horas, até 12 pessoas aprendem técnicas elementares de manutenção hidráulica e elétrica e manejo de ferramentas. Em dois anos, 190 mulheres passaram pelo workshop (o público feminino compõe 99% das turmas).

Não é preciso conhecimento prévio. A maioria, diz Mariana, chega sem saber diferenciar um prego de um parafuso — e tudo bem. Além da furadeira, outro grande tabu é a parte elétrica.

“Dá para sentir a alegria no ar quando as alunas montam e fazem funcionar uma tomada! É um resgate do prazer e da liberdade de saber criar e consertar coisas”

O workshop custa R$ 300 por pessoa. O valor inclui material (como torneiras e chuveiros para o aprendizado de reparos e um diagrama elétrico que simula um circuito de iluminação), lanche — com frutas, pipoca, café chá — e a possibilidade de fabricar uma luminária individual. “Valorizo a parte criativa do programa, pois permite dar vida nova a objetos que seriam descartados, fazendo um uso melhor dos recursos que nos cercam.”

 

Segundo a empreendedora, a faixa etária das participantes varia “dos 16 aos 82 anos” (foto: Agiliza Lab/Mariana Prado).

A faixa etária varia “dos 16 aos 82 anos”. Mariana se recorda dessa senhora octogenária que fez o curso com a filha (e saiu-se bem): “Ela me emocionou quando disse que não gostava de depender dos outros, por isso queria aprender”. Outro momento gratificante foi a ligação de uma ex-aluna de pintura contando que tinha desmontado o telhado e alugado um andaime para pintar sozinha o muro e o lado externo da casa. “Ela estava radiante, sentindo-se poderosa!”

O 1% de homens participa dos cursos mistos e chega “de coração aberto”, segundo Mariana, muitos deles acompanhando a namorada. “Os fatores de motivação para o público masculino são a independência e a capacidade de avaliar o preço e o trabalho oferecido por prestadores de serviço.”

A ESTRUTURA ITINERANTE É VISTA POR ELA COMO UMA VANTAGEM

Ainda em 2017, a empreendedora ganhou uma sócia: a xará Mariana Prado, ex-aluna de uma das primeiras turmas que se juntou ao negócio logo no começo. Ao longo dos meses, alguns ajustes de rota ajudaram a manter a Agiliza Lab nos trilhos. As duas entenderam que precisavam suavizar conteúdos (para evitar aulas longas e técnicas demais) e que valia a pena desmembrar pintura como um módulo independente do workshop “Deixa que Eu Faço”. Mariana (Pavan) explica:

“Contei com muita ajuda para afinar os materiais. É bom ouvir a opinião de especialistas e saber aproveitar cada informação para melhorar os serviços oferecidos”

A empresa não tem sede fixa e trabalha em parceria com estúdios e coworkings paulistanos para realizar os cursos. “A única desvantagem é carregar nosso material para todos os lados. Mas enxergo mais vantagens nesse sistema”, diz a fundadora. Um dos benefícios da estrutura itinerante seria abrir possibilidades para gente de qualquer bairro participar. “Também ampliamos nossas redes de contato e divulgação ao trabalhar em diferentes espaços”.

A lista inclui a Casa Jaya, escola de yoga e meditação em Pinheiros; os coworkings pinheirenses Impact Hub, Aldeia 445 e Ideário S/A; a Casa Locomotiva, espaço de criação artística na Vila Madalena; a escola de marcenaria LAB74, na Barra Funda; e o Instituto Amani, escola de inovação social no Morro dos Ingleses, na região da Bela Vista. Em junho, a Agiliza Lab desembarcou no Rio de Janeiro, com um workshop no Olabi, espaço maker em Botafogo.

A AGILIZA LAB NAS EMPRESAS, NA PERIFERIA — E NAS ESCOLAS

O segmento B2B é hoje o braço mais rentável. Mariana diz que mais de 450 pessoas participaram de oficinas e eventos corporativos. As participações são customizadas conforme a demanda, gerando “ações de integração, superação ou diversidade”.

Em dois anos, 190 mulheres passaram pelo workshop; o público feminino compõe 99% das turmas (foto: Casa Locomotiva).

Em agosto de 2018, por exemplo, ela ensinou como usar a furadeira no festival #AgoraÉQueSãoElas, na Unibes Cultural; em setembro, deu workshops em duas unidades do SESC e oficinas de elétrica e hidráulica no Festival Red Bull Basement. Mais recentemente, em março deste ano, ministrou uma oficina para o Grupo Pão de Açúcar por conta do Dia Internacional da Mulher.

A empreendedora projeta expandir a atuação voluntária junto a comunidades economicamente vulneráveis. A primeira ação pro bono se deu em março: uma oficina de capacitação para 46 mulheres na Vila Roschel, em Parelheiros, no extremo sul de São Paulo, numa parceria com a Associação ProBrasil.

“A maioria era chefe de família, mas nem por isso deixa de ouvir de parentes e vizinhos que ‘mexer na pia e na caixa de força’ não é coisa para mulheres…. Nestes casos, a independência significa uma economia substancial no fim do mês”

Mariana também planeja ministrar aulas extracurriculares em escolas, com cursos práticos de marcenaria, pintura e reparos elétricos e hidráulicos, estimulando a criatividade e o reaproveitamento de materiais.

“Nosso público-alvo são crianças acima de 10 anos. Ao desenvolver essas aptidões, meninos e meninas têm a possibilidade de expandir horizontes criativos e ganhar mais autonomia.”

 

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  • Projeto: Agiliza Lab
  • O que faz: Oferece workshops práticos de hidráulica, elétrica e pintura com foco no público feminino.
  • Sócio(s): Mariana Pavan e Mariana Prado
  • Funcionários: não tem
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2017
  • Investimento inicial: R$ 15 mil
  • Faturamento: R$ 50 mil (2008)
  • Contato: [email protected]
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