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Verbete Draft Feminismo nos Negócios: o que é Bropriating

- 20 de dezembro de 2017
Bropriating é quando um homem rouba a ideia ou argumento de uma mulher e age como se fosse dele (imagem: reprodução internet).
Bropriating é quando um homem rouba a ideia ou argumento de uma mulher e age como se fosse dele (imagem: reprodução internet).

De 13 de dezembro a 10 de janeiro, interrompemos a sequência de Verbetes Draft sobre termos da nova economia para apresentar uma série especial dedicada a expressões do “Novo Feminismo”, ou simplesmente Feminismo, como prefere quem entende do assunto, já que as demandas são as mesmas de movimentos passados. Entenda como a discriminação de gênero acontece no mundo dos negócios (e, a propósito, o que você pode fazer para evitar que continue). O Verbete Especial Feminismo nos Negócios de hoje é:

BROPRIANTIG

O que acham que é: Apropriação, por estrangeiros, da gíria americana “bro” (de brother).

O que realmente é: Bropriating (originalmente Bropropriating) é um neologismo em língua inglesa formado pela junção do prefixo bro (de brother, aqui no sentido de “cara”, como na gíria) e propriating (da palavra appropriating, apropriação). Criado no âmbito do feminismo, Bropriating se refere a situações, em sua maioria profissionais, em que homens tomam para si o crédito de ideias expressadas por mulheres.

Uma forma clássica de Bropriating vem precedida da interrupção da fala de uma mulher por um homem (o chamado Manterrupting) que, em seguida, a repete como se fosse sua. É comum que use artifícios como postura de propriedade, variações no tom de voz, na escolha de palavras etc. Outra forma usual de Bropriating é o silêncio após uma mulher propor algo (em uma reunião, por exemplo) e, pouco tempo depois, o mesmo ser proposto por um homem e, então, ser recebido como uma ótima ideia.

Há poucos meses, um outro neologismo em língua inglesa, Hepeating, foi criado no mesmo contexto. Vem de he (pronome ele, em inglês) + peating (de repeating, ou repetir ) e apesar da especificidade de sentido, é utilizado como sinônimo de Bropriating.

As expressões surgiram neste século mas o que definem, não. Historicamente, em função da discriminação de gênero, espaços de trabalho que demandam conhecimento intelectual e poder são predominantemente masculinos. Arquiteta, ativista feminista negra, escritora e colunista da revista Marie Claire, Stephanie Ribeiro fala que a cultura machista relega às mulheres cargos de subalternidade e não de decisão. “De forma geral, não se acredita que mulheres entendam de muitos assuntos, mesmo que muitas vezes sejam PhD no tema.”

Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, maior rede de apoio ao empreendedorismo feminino do Brasil, diz que no mundo corporativo o lugar de fala é fundamental: “Se posicionar, ser ouvido e ter suas ideias consideradas é crucial para a carreira de qualquer pessoa”.

Quem inventou: Assim como Manterrupting, foi Jessica Bennet quem usou o termo Bropropriating pela primeira vez, no artigo “How Not to Be ‘Manterrupted’ in Meetings”, publicado na revista Time. Lá, ela conta que a autoria de ambas as expressões é, na verdade, de seus amigos.

Não há referências de quando ou como surgiu versão mais curta, Bropriating, mas uma busca no Google aponta, em sua grande maioria, para links para textos brasileiros. Para pesquisar referências em inglês, deve-se usar Bropropriating. No Twitter acontece o mesmo.

Já Hepeating surgiu e rapidamente se popularizou — foi retuitado 69 mil vezes — em um post da astrônoma americana Nicole Gigliucci no Twitter. A tradução (livre) diz: “Meus amigos cunharam uma palavra: hepeated. É para quando uma mulher sugere uma ideia que é ignorada mas então um cara diz a mesma coisa e todo mundo adora.”

Quando foi inventado: O texto de Bennet foi publicado na Time em janeiro de 2015. Gigliucci tuitou sobre Hepeating em setembro deste ano.

Como interfere na carreira da mulher: Ter ideias roubadas leva à estagnação profissional, à falta de motivação para trabalhar e até mesmo ao bloqueio criativo. Isso pode gerar questões emocionais que afetam a vida como um todo, como ansiedade, angústia e mesmo depressão.

Para Camila Achutti, cientista da computação e professora de engenharia do Insper, a principal consequência do Bropriating é a dificuldade de ascensão profissional. “Se ninguém reconhecer o quão brilhante é a mulher ela não avança até porque ela mesma passa a se menosprezar”, diz.

Outra consequência, segundo Ribeiro, é a chamada “Síndrome do Impostor”, que afeta pessoas que não acreditam merecer o cargo que ocupam. “É incrível como isso está associado ao Bropriating porque vivemos em uma sociedade em que a mesma ideia dita por uma mulher e por um homem tem pesos diferentes, a dela geralmente desvalorizada”, afirma.

Como pode ser evitado (preventivamente): Assim como no caso do Manterrupting, o ideal é haver uma conscientização e mudança de cultura em todas as esferas de poder, ou seja, a começar da chefia. Achutti diz que a solução é trabalhar na criação de aliados das mulheres: “Sejam outras mulheres, homens, líderes, enfim, todos que as rodeiam para que se consiga, de alguma maneira, protegê-las”.

Para Ribeiro, é preciso que empresas, em primeiro lugar, entendam a discriminação por gênero e deem vozes a estudos e discursos que trazem à tona o machismo da sociedade. “É estranho como ainda queremos resolver as práticas sem nem ao menos nos atermos à estrutura que as possibilita.”

Casos, reações e repercussões: Em setembro do ano passado, um grupo de mulheres que trabalhava na equipe de assessores do então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, criou uma estratégia para lidar com as frequentes interrupções e apropriações de suas ideias por seus colegas homens (a maioria numérica). Chamada de “amplification”, a técnica consistia em uma mulher repetir e dar crédito a ideias propostas por outra mulher no momento em que aconteciam, forçando os homens a reconhecer o que estava sendo dito e impedindo que clamassem pela autoria.

Em janeiro de 2015, poucos dias depois que a expressão Bropropriating surgiu, a artista islandesa Björk contou, em entrevista ao Pitchfork, sobre duas ocasiões em que homens levaram crédito integral pela coprodução de seus discos, em seu caso, pela mídia. No álbum Vespertine, Björk trabalhou durante três anos e fez 80% das batidas enquanto um produtor convidado, Matmos, entrou nas duas últimas semanas e não trabalhou nas partes principais. “Em todos os lugares o álbum inteiro é creditado a Matmos. Ele é um amigo próximo e em cada entrevista que deu, corrigiu. Mas nem sequer o escutaram”, diz.

Achutti conta que presencia Bropriating entre seus alunos. “Já aconteceu de estarem reunidos em grupos mistos em que as meninas fazem o trabalho todo. Mas, quando alguém de fora pede uma informação a um menino, ele respondia como se tivesse o mérito da criação.”

Para saber mais:
1) Leia, na Time, How Not to Be ‘Manterrupted’ in Meetings, o artigo de Jessica Bennett que “lançou” as expressões Bropropriating e Manterrupting.
2) Leia, no Pitchfork, The Invisible Woman: A Conversation With Björk. Entrevista em que a artista islandesa descreve ocasiões em que sofreu Bropriating por parte da mídia.
3) Na Business Insider, Men are getting the credit for women’s work through something called ‘hepeating’ — here’s what it means, sobre a criação do termo Hepeating.
4) Leia, no Washington Post, White House women want to be in the room where it happens, mais sobre a estratégia “amplification” criada pelas assessoras de Obama.

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