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Verbete Draft: o que é Afrofuturismo

- 14 de março de 2018
Tecnologia e protagonismo negro: Lupita Nyong’o, Chadwick Boseman e Danai Gurira no blockbuster Pantera Negra (Imagem: Marvel/Reprodução).
Tecnologia e protagonismo negro: Lupita Nyong’o, Chadwick Boseman e Danai Gurira no blockbuster Pantera Negra (Imagem: Marvel/Reprodução).

Continuamos a série que explica as principais palavras do vocabulário dos empreendedores da nova economia. São termos e expressões que você precisa saber: seja para conhecer as novas ferramentas que vão impulsionar seus negócios ou para te ajudar a falar a mesma língua de mentores e investidores. O verbete de hoje é…

AFROFUTURISMO

O que acham que é: Uma subdivisão do Futurismo, movimento artístico e literário que surgiu em 1909.

O que realmente é: Afrofuturismo é um movimento cultural, social e político, cuja produção promove o encontro entre ficção científica, tecnologia, realismo fantástico, ancestralidade, mitologia e diáspora africana negra. Suas narrativas — na música, nas artes plásticas, na literatura, nos quadrinhos, na moda, no cinema etc — dizem respeito, necessariamente, à população negra.

Kênia Freitas, pesquisadora, crítica de cinema e curadora da mostra Afrofuturismo: Cinema e Música em uma Diáspora Intergaláctica, que aconteceu em 2015, em São Paulo, diz que se trata de um movimento vivo e em construção. “Desta forma, há muitas definições. A que prefiro é a que pensa o Afrofuturismo como um movimento político e estético que explora narrativas de ficção especulativa a partir da perspectiva negra. Algumas vislumbram a possibilidade de novos futuros para a população negra, enquanto outras trabalham reelaborando o passado ou fabulando o presente”, afirma.

A mais recente produção afrofuturista é o filme Pantera Negra, cujo herói de mesmo nome, nasceu nos quadrinhos da Marvel, em 1966. Embora o sucesso mundial da adaptação para o cinema esteja suscitando um crescente interesse pelo movimento e o tornando mainstream, sua produção artística tem acontecido com força (e por artistas pop de peso) na última década.

Apesar da manifestação do Afrofuturismo se dar por meio da arte (por isso, o termo “gênero”, no sentido de categoria, às vezes seja usado para conceituá-lo) e se comunicar por meio da estética (inclusive pela indumentária), o fundamento do movimento é indissociável da política.

Para Ale Santos, escritor do gênero Ficção e Fantasia Afro Americana  na Savage Fiction (consultoria de entretenimento que desenvolve jogos e narrativas fantásticas), o Afrofuturismo é, basicamente, a interpretação do futuro sob o filtro e o olhar do “povo preto”. “A magia dessa conceituação reside exatamente na expressão povo preto, já que a maioria da produção de ficção é feita pelo olhar do homem branco. Há uma visão limitada e preconceituosa dos negros, ainda marginalizados nas discussões científicas, tanto realistas como ficcionais”, fala.

O Afrofuturismo não tem relação com o movimento artístico e literário italiano Futurismo e tampouco com a disciplina Futurismo, que investiga, explora, traduz e acelera as possibilidades de um futuro pós-emergente (de cinco a 10 anos).

Quem inventou: O termo Afrofuturismo foi cunhado pelo crítico cultural americano Mark Dery, no ensaio Black to the Future, no fim do século XX. Mas os elementos que o definem já estavam presentes cerca de 40 anos antes no cenário artístico.

Quem contribuiu com a popularização e a reinserção do Afrofuturismo nesta década foram duas mulheres americanas de áreas diferentes: Janelle Monáe, cantora, compositora e produtora, e Ytasha L. Womack, jornalista, escritora e artista multimídia. Janelle Monáe: A New Pioneer Of Afrofuturism é o título de um texto que a revista online britânica Quietus publicou há quase dez anos (link em Para saber mais). Já Ytasha L. Womack relatou a evolução do movimento no livro Afrofuturism: The World of Black Sci-Fi e Fantasy Culture.

Quando foi inventado: O embrião do movimento, com suas diversas produções culturais, surgiu entre as décadas de 1960 e 1970. O ensaio de Dery (e a criação do termo), em 1994. O texto da Quietus é de 2010 e o livro de Womack é de 2013.

Para que serve: Para recuperar valores dos povos africanos historicamente subjugados (como a ancestralidade, a mitologia, os conhecimentos tecnológicos e científicos), para projetar futuros para a população negra no contexto dos avanços tecnológicos e inserir a estética negra no que é considerado moderno, belo e desejável.

Leila Negalaize Lopes, jornalista, artista visual, pensadora afrofuturista e proprietária do restaurante brasiliense EWÈ Etnogastronomia e Bistrô, diz que o Afrofuturismo permite que o povo negro, por meio do resgate de sua ancestralidade, olhe para o passado para melhorar o futuro. “Além disso, o movimento possibilita que artistas saiam do anonimato e vivam de suas artes.”

Quem usa: Na música, alguns nomes internacionais ligados ao Afrofuturismo (mesmo que anteriores à criação do termo) são Sun Ra, George Clinton, Jimi Hendrix, Miles Davis, Funkadelic, Drexclya, Erykah Badu, OutKast, Flying Lotus, Grace Jones, Janelle Monáe Rihanna, Missy Elliott, Beyoncé, Solange Knowles e Jay-Z, entre outros.

Na ficção científica, destaca-se a escritora Octavia Butler; no cinema, os diretores, produtores e roteiristas Ava DuVernay e Spike Lee; nas artes plásticas, Basquiat, Lina Iris Viktor e Kerry James Marshall; na moda, a designer Michelle Busayo Olupona.

Já no Brasil, temos Zaika dos Santos, multiartista (performance, fotografia e pintura), que é um dos expoentes do Afrofuturismo em Minas Gerais; Fábio Kabral, fundador do site O lado negro da força, escritor e autor do livro afrofuturista Caçador Cibernético da Rua 13; Ellen Oléria, soprano que, em 2016, lançou o álbum Afrofuturista (destaque para a música Afrofuturo) e a banda Senzala Hi-Tech, com Baile da Meia-Noite, entre muitos outros.

Por sua vez, a Mariwô é uma plataforma afrofuturista, baseada no Rio de Janeiro, que realiza ocupações culturais junto à iniciativas negras da cena artística atual, independente e experimental.

Efeitos colaterais: Não há.

Quem é contra: Segundo Freitas, são contra o Afrofuturismo pessoas racistas, que não desejam vislumbrar sociedades mais justas para as pessoas negras: “E, também, aqueles que não conseguem conviver com o protagonismo negro nas narrativas”.

Santos conta que o filme Pantera Negra sofreu tentativa de boicote assim como a série Cara Gente Branca (Dear White People, no original, em inglês), da Netflix. “O racismo não foi extinto. Ele mudou, virou uma sombra, um fantasma, uma falácia institucional, mas ainda há quem queira manter o mundo como era antes”, afirma.

Para saber mais:
1) Leia, no The Washington Post, The resurgence of Afrofuturism goes beyond ‘Black Panther,’ to Janelle Monáe, Jay-Z and more. O texto explica por que o ressurgimento do Afrofuturismo é anterior ao filme Pantera Negra.
2) Leia, na Quietus, Janelle Monáe: A New Pioneer Of Afrofuturism.
3) Assista ao TEDx Visual Aesthetics of Afrofuturism, de Ingrid LaFleur. Produtora cultural e ativista, LaFleur é fundadora da Afrotopia, projeto de pesquisa criativa que investiga as possibilidades de utilização da produção artística do Afrofuturismo como cura psicossocial.

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