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Hackeando a Wikinomia. CUIDADO: você pode mudar o mundo

- 14 de novembro de 2014
Tati Leite, a empreendedora por trás da Benfeitoria e do Festival Reboot

 

Por Tati Leite

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O olho vê,

a lembrança revê,

a imaginação transvê;

é preciso transver o mundo.

Manoel de Barros.

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Começar com poesia um texto sobre economia…

Não é só uma homenagem ao meu poeta predileto, que acabou de nos deixar. É simbólico, como muitas das mudanças que estão acontecendo nessa nova economia que está transvendo o mundo: wikinomia.

Para entender a abrangência deste conceito, gosto de lembrar da origem da palavra ECONOMIA. Normalmente, pensamos em finanças e negócios quando ouvimos esse termo, mas a verdade é que ECO vem do grego oikos (= casa) e NOMIA vem de nomos (= gestão, costume). Ou seja: uma nova economia é uma nova forma, modelo ou paradigma a partir do qual gerenciamos recursos globais (nossa casa!) — sejam eles financeiros, humanos, culturais, ambientais…

Então, quando falamos de Wikinomia, nos referimos a mudanças que vão além de novas formas de produção e consumo. Estamos falando (ou melhor, vivendo) uma revolução na forma com que as pessoas se relacionam: consigo, com os outros, com o meio ambiente e com as coisas. Nos negócios, nas ruas e em casa.

COMO SURGIU?

Essa revolução, assim como a maioria das revoluções, ganha força a partir da consciência coletiva pós crise da importância e da urgência de novos modelos. E a crise principal aqui não é financeira, social ou ambiental. É a crise por trás das crises: uma crise de valores. Nos damos conta agora que fomos criados para competir — e não para conviver.

Um exemplo bobo e emblemático disso são os jogos de tabuleiro mais vendidos no mundo: WAR é sobre guerra e Banco Imobiliário é sobre falir os adversários. Sim, está na regras:

Destruir para vencer, reza a cartilha do Banco Imobiliário...

Fomos ensinados a competir e aniquilar o adversário. A nova economia é uma alternativa a este modelo ultrapassado.

Mas a nossa sorte foi que, neste caso, esse despertar acontece em paralelo a uma evolução e barateamento tecnológico (em especial, da internet) sem precendentes, que derrubaram os custos de colaboração no mundo todo e permitem que pessoas com valores e insatisfações em comum se unam para propor e adotar novos modelos: de muitos para muitos.

Modelos com fins positivos e, muitas vezes, meios lucrativos. Modelos que expandem os limites do que entendíamos ser possível: wikis, produtos compartilhados, financiamento coletivo, cultura livre, negócios sociais, inovação aberta, moedas alternativas, coworking, couchsurfing…

Nesse contexto, “ter” passa (ou volta?) a ser menos importante do que ser ou acessar, e “controlar” fica menos interessante do que compartilhar

Reconhecemos as ineficiências e restrições do sistema, mas aprendemos que o mundo não é só feito de recursos escassos, mas também de recursos abundantes, que não só se esgotam, mas se multiplicam com o uso, como a criatividade e as redes.

Nesse contexto, passamos a ter uma economia que trabalha para a vida — e não uma vida que trabalha para a economia.

WIKINOMIA VS. ECONOMIA COLABORATIVA

Uma das coisas que mais me perguntam recentemente é por que optamos por usar o termo “Wikinomia”, e não “Economia Colaborativa”, que é tão mais fácil e conhecido. Usamos Wikinomia no nosso vídeo da Benfeitoria, na minha palestra do TEDx e, agora, no Reboot, o Festival de Wikinomia que estamos organizando, essencialmente, por dois motivos:

1) Começa com Wiki.
Ou seja: assim como nossa amada Wikipedia, é colaborativo e pode ser evoluído por qualquer um. E é isso que fazemos. O termo foi cunhado por Don Tapscott (veja aqui o 1˚ TED dele sobre o assunto) e hackeado por nós, o que significa que nossa descrição de Wikinomia hoje é diferente da dele – e que, assim como a dele, evolui constantemente.

2) Vai além da Economia Colaborativa.
Sim: a colaboração também é um valor central para a Wikinomia — assim como a criatividade, já que para romper com dinâmicas antigas e inventar novas, precisamos sair da caixa, desafiar convenções e muitos dos pilotos automáticos. Mas o valor principal, aquilo que pode ser o pulo do gato para termos uma sociedade radicalmente (radical = que vem da raiz) melhor, é o CUIDADO. Esse é o novo paradigma.

Expoente e metáfora real da wikinomia, o Festival Reboot acontece no Rio de Janeiro nos dias 29 e 30 de novembro.

Metáfora real da Wikinomia, o Festival Reboot acontece no Rio de Janeiro no fim deste mês.

Nesta palestra imperdível do TEDxAmazônia, Bernardo del Toro fala sobre esse novo paradigma: “O cuidado, hoje, não é uma opção. Ou aprendemos a cuidar ou vamos todos perecer”.

E quando o cuidado é ainda mais importante que a colaboração, algumas das iniciativas que, para muitos, não seriam consideradas economia colaborativa, passam a ser consideradas (e estimuladas) quando se trata de Wikinomia. Então, além dos ícones clássicos da economia colaborativa, a Wikinomia também pode ser composta por iniciativas da Era Industrial que, ainda que não tenham a colaboração no coração do seu modelo, reformulam-se a partir dos valores dessa nova economia.

Parece improvável, mas já há cases inspiradores nesse sentido, como a CVS, rede de farmácias americana que parou de vender cigarros “porque era a coisa a certa a ser feita”. Ou a Mercur, empresa brasileira produtora de borrachas, que descontinuou a venda da sua rentável linha Disney quando soube que era um dos principais motivos de bullying nas escolas.

Isso não significa que o McDonalds teria que descontinuar a venda de sanduíches para ser cuidadoso. Como diz Satish Kumar, fundador da Shumacher College, “everything has a place in its place” (tudo tem um lugar, no seu lugar). Ou seja: todos (ou quase todos) os produtos e serviços têm um espaço saudável na nossa vida. A falta de cuidado não está em vender algo que não é saudável, mas em querer induzir o consumo disso em uma quantidade muito maior que o razoável, como o Super Size e campanhas para as pessoas irem todo dia/semana às lanchonetes.

Quando finalmente nos damos conta que cuidar do outro é cuidar da gente — e do todo —, passamos a agir no trabalho com os mesmos valores que agimos em casa e descobrimos que, ainda assim, é possível ser sustentável financeiramente. Ou melhor, descobrimos que por conta disso é possível ser sustentável no longo prazo.

Insistimos muito nesse ponto, pois temos a clareza de que, para termos a velocidade e a escala que precisamos nessa mudança, é essencial envolver todas as esferas sociais: cidadãos, empresas, academia e governos. Esta talvez seja a mudança mais radical dessa revolução: ela não tem inimigos. 

Você pode escolher participar dela ou esperar que ela chegue. Não existe opção errada. Aliás, nada disso é sobre o que é certo ou errado ou sobre um novo modelo se impondo a outro. E sobre o que faz sentido para você. O que faz sentido para você?

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A poesia está guardada nas palavras — é tudo que
eu sei.
Meu fado é de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas).

Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.

 

Manoel de Barros.

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Tati Leite, 32, é formada em administração e tem pós graduação em uma das melhores escolas de marketing do mundo: a Coca-Cola, onde trabalhou por sete anos. Há quatro, saiu para empreender, ao lado do marido, fundando a Benfeitoria: um negócio social voltado a fomentar uma cultura mais humana, criativa e colaborativa no Brasil. Em 2011, lançaram a 1˚ plataforma de crowdfunding gratuita do mundo. Em 2013, o Rio+, uma plataforma colaborativa de inovação para a cidade. Em 2014, é hora do Reboot, o Festival de Wikinomia que acontece dias 29 e 30 de novembro, no Rio de Janeiro.

 

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