Canal Meio: uma startup de jornalismo que quer resolver nada menos do que a desinformação

- 8 de fevereiro de 2017
Os sócios Vitor Conceição, Audrey Furlaneto e Pedro Doria e o desafio de levar informação curada a pessoas que têm cada vez menos tempo para se informar.
Os sócios Vitor Conceição, e Pedro Doria, ao lado da editora Audrey Furlaneto. À frente, o desafio de levar informação curada a pessoas que têm cada vez menos tempo para se informar (foto Leo Martins).

De um lado, grandes empresas de mídia que produzem conteúdo com a mesma fórmula usada no século passado (penando para manter seu modelo de negócios em pé). De outro, uma legião de leitores cada vez mais conectados, curiosos em entender o mundo e, claro, apressados. No meio disso tudo… um terreno fértil para se tentar coisas novas. Quem sabe, algo que una esses dois universos aparentemente dissonantes. Com esta ambição nasceu o Canal Meio. O produto em si não é novo: uma newsletter enviada de segunda a sexta pela manhã, de forma gratuita, com “tudo o que você precisa saber hoje”. O que há de inédito, no entanto, é o cenário em que se ela insere. Eis a disrupção: empreender em jornalismo nos anos 10, em pleno 2017, na era de… você sabe quem.

“A ideia é oferecer informação na medida certa”, diz Vitor Conceição, 42, administrador e sócio fundador, ao lado de Pedro Doria, 42, jornalista, escritor e colunista de O Globo, Estado de S.Paulo e rádio CBN. A newsletter resume os acontecimentos e traz uma série de links, inclusive para outros veículos. “O leitor vai gastar cinco minutos. Se ele tiver mais tempo e quiser se aprofundar, pode clicar nos links e ler os textos completos”, diz Vitor. Já está no ar também o Meio Minuto, vídeos diários no Facebook que informam, em menos de um minuto, as notícias mais relevantes do dia.

Pedro e Vitor se conhecem há mais de 20 anos, sempre trabalhando em empresas de mídia e discutindo os rumos do jornalismo no Brasil. A turbulência econômica que se estende desde 2013, agravou ainda mais a crise do modelo de negócio no jornalismo. Foi aí que um alerta acendeu na cabeça dos dois: era hora de eles fundarem o próprio empreendimento, momento de fazer uma aposta.

INCERTEZA NO MERCADO, HORA DE APOSTAR

A ideia do Meio nasceu em 2015 e ficou em gestação por mais de um ano — até entrar no ar, em outubro do ano passado, véspera do segundo turno das eleições municipais. Eles contam que, durante o período de pesquisa de mercado, perceberam algo que mudou todo o processo. Vitor conta:

“Os Estados Unidos passaram por esta crise econômica e no jornalismo antes de nós. Lá isso gerou frutos: uma série de veículos de comunicação que trabalham com tecnologia”

Foi nessa pesquisa que os dois entenderam que, para criar uma publicação digital, precisariam de uma estratégia mais contemporânea, mais no “estilo Vale do Silício”. Não adiantava repetir os modelos vistos na grande imprensa. Era essencial encontrar novas referências. A dolorida conclusão abriu os olhos dos dois para a cultura startup de trabalhar com velocidade e eficiência. Começaram a tirar daí métodos para experimentar, prototipar e adequar o produto ao mercado. Pronto, eles não seriam um jornal: construiriam uma startup de jornalismo.

Simples. A linguagem visual do Meio é a menos intrusiva possível. Acima, parte do manifesto da startup.

A linguagem visual do Meio é a menos intrusiva possível. Acima, parte do manifesto da startup.

“Mudamos a nossa visão. No começo tínhamos pensado em um formato tradicional, talvez com uma redação”, conta Pedro, admitindo que ficou claro que seria inviável ter estrutura inchada e com custos pesados. O plano foi começar com o mínimo possível, o que, naquele momento, significava uma equipe de dois homens: Pedro e Vitor.

“Há muitos veículos criados por jornalistas que emulam as grandes empresas em que eles desenvolveram suas carreiras. Com o negócio digital, a tecnologia te ajuda a compreender o público, o que ele quer e o que ele lê. Dá para fazer mais com menos”, diz Pedro.

Segundo ele, dentro do formato que criaram para o Meio, bom jornalismo e tecnologia convivem bem e têm a mesma importância para que o negócio funcione.

A ARTE DE RESOLVER PROBLEMAS

Ao assumir o ponto de vista de uma startup os dois sócios deram de cara com a primeira grande pergunta sobre o negócio: qual problema eles pretendiam resolver? Quebraram a cabeça e concluíram: queriam solucionar a desinformação. “Vivemos uma crise profunda hoje. As pessoas perderam o hábito de ler jornal — ou nem chegaram a criá-lo”, diz Vitor. A confusão fica completa quando entram em cena as redes sociais. Pedro diz que, por conta do algoritmo, a pessoa só tem acesso àquilo com que tende a concordar e, assim, fica presa em uma bolha de informação — ou seja, fica desinformada:

“Não somos contra algoritmos, muito pelo contrário. Mas eles criaram um problema. E dá para consertar”

Outro agravante, acrescenta ele, é a fragmentação da informação que chega, que não permite que os leitores tenham a visão do todo — algo que nos jornais costuma ser melhor resolvido, mas na internet é um problema importante. É isso que gera tantas brigas e discussões infrutíferas entre ideologias, apontam.

Com o desafio em mente, começaram a pensar no modelo do negócio. Pensavam em um site que, afinal, é o caminho mais óbvio. Então resolveram desenvolver a ideia com MVP (Minimum Viable Product) e entenderam que a solução não precisava ser tão completa, o importante é que fosse efetiva. “Trabalhamos durante um ano e chegamos a um produto que cumpre a sua função pelo menor custo possível”, diz Pedro. Ao longo do período de desenvolvimento, o projeto recebeu dois investimentos, mas os sócios não detalham de quem, nem o valor.

São estes aportes que sustentam a fase inicial do Meio, que é e pretende permanecer totalmente gratuito para o leitor. O plano é monetizar o negócio com a veiculação de conteúdo de marca nos canais da publicação, que trabalha com a missão de chegar onde o leitor está, não de tentar atrai-lo para o seu site. “Vamos ter um estúdio de conteúdo para produzir material para empresas”, conta Vitor, de olho no nicho de brand content.

UM JORNALISMO PARA O NOSSO TEMPO

O momento mais tenso, que era entender se o Meio realmente tinha potencial de mercado, parece já ter passado. Vitor diz que o projeto cresceu bem mais do que eles projetavam para os primeiros meses de operação. Eles não revelam a quantidade de assinantes, mas a fanpage da publicação tem 17 mil seguidores. Todos chegaram até ali de forma orgânica (ou seja, sem qualquer investimento em publicidade), algo raro no Facebook hoje. Com isso, eles dizem, fica provado um ponto: há interesse dos leitores em curar-se da desinformação.

Os sócios também contam que, depois de alguns anos perdendo amigos por causa de brigas nas redes sociais motivadas pelo ponto de vista enviesado que os algoritmos geram, as pessoas começam a dar sinais de que cansaram de ser bombardeadas com tanta notícia a conta-gotas. Pedro fala:

“A fragmentação da informação é um dos grandes problemas da sociedade hoje. Não há diálogo e o diálogo é essencial para a democracia”

Ele afirma que entender o todo é cada vez mais necessário, até pela complexidade que as coisas tomaram, por exemplo, com os intermináveis desdobramentos dos escândalos de corrupção e da política nacional.

No Instagram, as notícias do dia em menos de meio minuto: o desafio de chegar a leitores que não leem.

No Instagram, notícias em menos de 1 min.

Pedro diz que os tradicionais jornais, no entanto, ainda trabalham com a mesma lógica da revolução industrial e têm dificuldade para cobrir alguns temas importantes. Ele dá o exemplo do casamento gay.

“Se acontece na sua cidade, provavelmente o jornal publicará na editoria Cidades. Se for aprovado nos Estados Unidos, vai entrar em Internacional. Não há uma cobertura especializada que entregue visão ampla do assunto. As transformações pelas quais o mundo passa hoje não cabem nessa estrutura de editorias”, diz.

“No fim das contas, só veículos especializados conseguem cobrir bem as mudanças de comportamento geradas pela tecnologia. Por isso o interesse no jornalismo tradicional tem diminuído tão rapidamente”, acrescenta Vitor.

Para fugir desta armadilha, o Meio foi desenhado com apenas quatro editorias: Política, Viver, Cultura e Cotidiano Digital.

Com os macrotemas, os sócios acreditam que poderão oferecer cobertura mais ampla e coerente. “O Meio é um veículo jornalístico absolutamente do nosso tempo”, diz Pedro.

PELA FRENTE, O INCERTO E AS AMBIÇÕES

Justamente no momento em que o chamado jornalismo posicionado (aquele que deixa claro a posição que ocupa no espectro político e ideológico) ganha espaço no meio digital, a startup defende a boa e velha isenção. Pedro pretende mostrar na publicação todos os pontos de vista envolvidos em cada história. “No fim compreendemos que é no meio deste conflito que a democracia se estabelece. Um veículo fundamentalmente precisa ter personalidade, tom de voz, gama de interesses e visão de mundo”, diz.

Agora, depois de sentir que o canal tem potencial, os dois sócios querem passar para a próxima etapa — estamos falando de uma startup, certo? A meta é escalar: conquistar mais leitores para, lá na frente, alcançar um objetivo nada modesto. Pedro anuncia:

“No médio prazo, queremos ser a principal startup de jornalismo do país, o principal veículo nativo da internet”

Para sustentar tal ambição, eles contrataram em janeiro um reforço para a equipe. A jornalista Audrey Furlaneto é a nova editora adjunta. O objetivo dos três, agora, é estruturar o núcleo de conteúdo aos poucos, ainda que a publicação permaneça sem uma sede fixa — é uma startup, lembra? Home-office. Seja como for, sabem que há muito trabalho pela frente. A missão que escolheram, ora ora, requer todos os meios para ser cumprida.

DRAFT CARD

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  • Projeto: Canal Meio
  • O que faz: Newsletter com resumo diário de notícias
  • Sócio(s): Pedro Doria e Vitor Conceição
  • Funcionários: 3 (incluindo os sócios)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: Outubro de 2016
  • Investimento inicial: NI
  • Faturamento: NI
  • Contato: pdoria@canalmeio.com.br
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