O case das bicicletas ecológicas Muzzicycles, ou como sobreviver a cinco anos pagando uma única dívida

- 24 de janeiro de 2017
Juan e uma Muzzicycle, a bicicleta ecológica que custou 5,3 milhões de dólares em pesquisa para chegar ao modelo ideal.
Juan e uma Muzzicycle, a bicicleta ecológica que custou 5,3 milhões de dólares em pesquisa para chegar ao modelo ideal.

Possivelmente você já viu por aí umas bicicletas meio esquisitonas, com o quadro feito de plástico. Possivelmente, você sabe que são feitas de garrafas pet recicladas. Lançadas comercialmente em 2012, as Muzzicycles, são uma criação do uruguaio Juan Muzzi, 68, radicado no Brasil há mais de 40 anos. A história por trás das bicicletas e os aprendizados de Juan nesse processo dizem muito sobre quem quer empreender, criar algo novo, levar adiante um sonho e tem que se virar para aprender com os próprios erros e pagar, literalmente, as dívidas acumuladas no processo.

Inventor contumaz (lembra aquelas molas coloridas que foram febre nos anos 1990?), Juan está mais acostumado com o fracasso do que o sucesso de suas ideias. Isso traz, de um lado, liberdade para seguir criando, e de outro, no caso dele, seis (!) casamentos prejudicados pela turbulência nos negócios.

A Muzzicycles é a única empresa do mundo a fabricar quadros de bicicletas a partir de plástico reciclado. Após anos de pesquisas e testes, em 2012 entrou no mercado um modelo de quadro de bicicleta produzido inteiramente com plástico reciclado: do reaproveitamento de garrafas PET, embalagens de produtos de higiene e outros plásticos (como polipropileno, nylon, ABS) que após serem triturados e tratados são injetados em um molde. Cada quadro usa cerca de seis quilos deste material e utiliza cerca de 200 garrafas PET para ser confeccionado. A Muzzi vende — apenas online — tanto o quadro ecológico, a 380 reais, como cinco modelos de bicicletas urbanas completas, que variam de 815 a 3 200 reais.

As bikes da Muzzi são um sonho antigo de Juan: mais baratas que as de aço e feitas de material reciclado.

As bikes da Muzzi são um sonho antigo de Juan: mais baratas que as de aço e feitas de material reciclado.

A ideia de uma bicicleta acessível nasceu de um sonho de Juan ainda menino. Aos 12, ele ia e voltava da fazenda dos tios, na pequena cidade uruguaia de La Paz, onde trabalhava arando a terra e cuidando do gado de bicicleta, um modelo italiano antigo que ganhara de presente.

O garoto se apaixonou pelo meio de transporte, mas pouco tempo depois foi obrigado a vendê-lo para ajudar nas despesas da casa. “Foi traumático perder a bicicleta por não ter comida em casa. Eu me perguntava: por que bicicleta é tão cara? Todo mundo devia poder ter uma. Bicicleta devia ser um bem social”, conta.

Essa questão ficou no inconsciente do futuro empreendedor, que sempre foi ligado à sustentabilidade. “Quando tive a ideia do quadro da bicicleta, pensei que poderia ao mesmo tempo usar um material ecológico, eliminar um problema que afetava a natureza e fazer uma um meio de transporte barato, que todo mundo ia poder ter acesso”, diz.

Além de utilizar um recurso que iria para o lixo, o processo industrial da Muzzicycles evita a extração de minério de ferro e bauxita ou a fabricação de alumínio. Também elimina o uso da solda e da pintura, pois o quadro é uma peça única e já é injetado na cor desejada. Tudo isso gera uma economia de 90% de energia na comparação com outros quadros produzidos atualmente. Outra particularidade da bike é o fato de o quadro não enferrujar, não necessitar de amortecedores e proporcionar um pedalar mais leve, com menos trepidação e esforço da coluna vertebral.

No site da Muzzicycles, um quadro explica o processo de reciclagem de plástico que resulta no quadro da bicicleta.

No site da Muzzicycles, um quadro explica o processo de reciclagem de plástico que resulta no quadro da bicicleta.

Todas vêm com garantia vitalícia do quadro Muzzicycles. Pela inovação e pioneirismo, Juan conseguiu conquistar o mercado internacional, patenteando sua criação em 140 países e exportando para Colômbia, Holanda, Estados Unidos e mais 27 destinos. O mais recente país a entrar nas negociações foi a Alemanha.

TUDO COMEÇOU COM UMA MOLA COLORIDA

Quem conheceu o garoto Juan já podia imaginar que ele seria um inventor, ou artista. Criava seus brinquedos, desmontava e remontava objetos e chegou a construir o próprio carro na adolescência. E sempre se interessou por artes, espelhando-se nos avós paternos, que eram escultores. Na juventude, Juan cursou engenharia na Universidad del Trabajo del Uruguay (UTU) e atuou alguns anos na área da ferramentaria. Mas seu grande sucesso — e primeiro empreendimento — foi a invenção e comercialização de molas coloridas, um brinquedo que foi febre nos anos 1990.

Juan conta que vendeu 44 milhões de unidades em todo o mundo. Seu ateliê chegou a ser invadido para copiarem o projeto, levando o caso à polícia. Ele conta que agradeceu o incidente, pois não estava dando conta de produzir as quantidades demandadas sem concorrência.

A mola lhe rendeu um bom retorno financeiro e também a experiência de ter um negócio com sucesso comercial. Depois desta invenção, não parou mais de criar.

“Com o sucesso, entendi que eu não tinha que alugar a minha inteligência para os outros. Também aprendi mais sobre mercado e fiquei mais experiente”

É dele, também, a autoria de um sapato que cresce na mesma velocidade que os pés e de uma fralda com uma espécie de sensor que avisa quando o bebê fez cocô. Nenhum desses projetos, no entanto, foi adiante. Assim, depois do sucesso da mola, Muzzi concentrou todos os seus esforços no velho sonho de criar uma bicicleta ecológica — investiu nisso, também, o dinheiro ganho com o brinquedo.

MUITA PESQUISA E ALGUNS MILHÕES DE DÓLARES INVESTIDOS

Ao todo, foram 12 anos de pesquisas e mais de cinco milhões de dólares investidos, desde 1998, até que a bicicleta pudesse entrar no mercado. A princípio, Juan despendeu quatro milhões de dólares, vendendo um avião, apartamentos e um ateliê em Punta Del Este. Mas a ideia não ia para frente. A bicicleta não funcionava, entortava, caía. Em paralelo, seus relacionamentos também ruíam. Ele foi casado seis vezes e no momento está divorciado. Tem três filhos, o menor tem 13 anos e costuma ajudar na Muzzicycles. Juan diz que “nenhuma mulher aguenta” sua vida meio maluca de trabalhar por conta própria, sem horários, “um dia tendo muito dinheiro, outra dia devendo o aluguel”.

Após longos anos de teste, a bike Muzzicycle atende a todos os requisitos de uma bicicleta convencional.

Após 12 anos de testes, a bike Muzzicycle atende aos requisitos de uma bicicleta convencional (acima, um comprador mostra a bike num passeio ciclístico).

Até acertar o molde do quadro da Muzzicycle, foram sete protótipos fracassados. Em 2010, quando a peça finalmente estava pronta, o plano teve de ser interrompido porque não havia mais dinheiro para seguir com o projeto.

Aquilo tudo ficou encostado em seu ateliê até ser redescoberto, dois anos depois, por representantes do Banco de la República del Uruguay, que se interessaram e ofereceram um empréstimo de 1,3 milhão de dólares para que o empreendedor colocasse a bicicleta no mercado.

Foram necessários, ainda, outros testes para comprovar que o material era resistente. O quadro chegou a ser atirado diversas vezes do alto do prédio da fábrica de Muzzi, além de passar por uma prova de fogo: ficar sob uma empilhadeira carregada com três toneladas e meia e sair sem nenhum amassadinho. Depois de tudo isso, ganhou o selo do Inmetro. E, nesse intervalo, perdeu muito dinheiro de novo:

“Quando peguei o empréstimo o dólar valia 1,20 real. Depois de um ano, estava a 3,80. A dívida se tornou impagável”

Juan prossegue: “Eu podia ter feito tudo igual, com o meu dinheiro, só que levaria uns dez anos. O empreendedor tem ânsia de fazer e se mete em encrencas sem tamanho por causa do sonho. Foi o meu maior erro, que vale por todos”.

O pesadelo da cobrança das parcelas do empréstimo só terminou no começo deste ano. Para quitar a dívida, Juan entregou ao banco o imóvel onde ficava sua linha de montagem e ateliê, no bairro do Limão, na zona norte de São Paulo. O prédio é, ele também, totalmente sustentável levou 10 anos para ser levantado pelo próprio Juan, junto com um pedreiro e um soldador. É feito com ferro de sucata e tijolos jogados fora por olarias.

Provisoriamente, alugou um prédio perto do antigo imóvel e dois amigos ofereceram galpões para servirem de depósito da fábrica. “A Muzzicycles para mim é a realização de um sonho. Um sonho que custou caro. Tem um amigo meu que fala, Muzzi, você podia ter dez Mercedes, ir para a Europa todo o dia, mas você foi fazer uma bicicleta??”

UMA MUZZI AINDA MAIS VERDE

Apesar de ainda não ter o retorno financeiro que um empreendedor comum poderia esperar e precisar entregar o prédio de sua fábrica, para Juan seus negócios vão bem sim, obrigado! Atualmente o faturamento, levando em conta dados do ano passado, é de 200 mil reais mensais. O lucro fica em menos de 20% disso. Mas as dívidas, finalmente, estão quitadas.

A meta do empreendedor para seu negócio agora é produzir dentro da capacidade máxima, de doze mil peças por mês. Mas engana-se quem pensa que ele está querendo apenas aumentar o lucro:

“Quero que meu negócio entre em escala industrial para que mais pessoas possam ter acesso às bicicletas. Elas ainda estão caras. É isso que está faltando”

E não faltam novas ideias de produtos e subprodutos. Juan não para de pensar em possibilidades para novos modelos. O mais próximo de chegar ao mercado e que já está em fase de testes é uma bicicleta feita com material de fonte renovável, biomassa, que é transformado em plástico. A Braskem, que já realiza a transformação da cana de açúcar em polímeros, é a responsável pelo projeto em parceria com a Muzzicycles.

Galpão emprestado: para quitar as dívidas, Juan vendeu o galpão e, hoje, usa o espaço emprestado por um amigo para seguir produzindo.

Galpão emprestado: para quitar as dívidas, Juan vendeu o galpão e, hoje, usa o espaço emprestado por um amigo para seguir produzindo.

Outro passo é inserir a empresa em um modelo de economia circular. “Nós já seguimos esse conceito, porque nosso quadro é modelo único, pode ser usado para qualquer tipo de aro de bicicleta. A ideia agora é adicionar sementes neste plástico verde”, diz. Como os quadros das bicicletas de Muzzi têm garantia vitalícia, podem se transformar no futuro em uma árvore, como os já conhecidos papéis sementes.

A mente inventiva de Juan não conhece limites. Ele idealiza, por exemplo, uma bike de cristal feita com um plástico emborrachado que parece vidro e não quebra, outra que não enferruja, uma dobrável e até uma cadeira de rodas feita 100% de plástico reciclado. O empreendedor quer fazer as coisas com calma. Ele sabe que falta dinheiro e não quer mais depender de empréstimos. Sabe, também, que tudo será feito no seu tempo. Esperou doze anos para realizar este sonho. Não tem pressa para os demais.

DRAFT CARD

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  • Projeto: Muzzicycles
  • O que faz: quadros de bicicleta a partir de plástico reciclável
  • Sócio(s): Juan Muzzi
  • Funcionários: 100 (entre diretos e indiretos)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2012
  • Investimento inicial: US$ 5,3 milhões
  • Faturamento: R$ 200.000 mensais (em 2016)
  • Contato: muzzicycles@muzzicycles.com.br e (11) 3966-6533
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