“Você pode ser cético o quanto for, mas é muito louco direcionar a energia para o caminho da transformação”

- 22 de março de 2016
Daniela Paiva, jornalista, mudou-se de Brasília para São Paulo e de São Paulo para a Inglaterra: uma busca que não precisa ter fim (foto: Ana Carolina Fullen).
Daniela Paiva, jornalista, mudou-se de Brasília para São Paulo e de São Paulo para a Inglaterra: uma busca que não precisa ter fim (foto: Ana Carolina Fullen).

por Daniela Paiva

 

Quando fui honrada com o convite do Draft para contar sobre meus movimentos ao cursar o mestrado de Enterprise and Business Creation, já cultivava a ideia há um tempinho. Falar mais sobre esse ser “buscante” que acorda, faz xixi, toma café da manhã, liga o som e vai escanear o mundo todos os dias: euzinha aqui. Desde setembro sou estudante de mestrado da University of East Anglia em Norwich, leste da Inglaterra, e navego em um clima de construção interno e externo.

Interno porque tudo está literalmente em andamento. Agora, nesse minuto. Sei que é óbvio, e acontece assim para cada ser humano deste planetinha. Mas, para mim, neste momento, eu quase posso TOCAR essa revolução de caminhos sendo tecidos. VEJO as linhas crescendo, desmantelando, crescendo, quebrando, nascendo… O futuro… Comento adiante sobre ele. Vem comigo até lá?

Um pouco do até aqui. Não posso dizer que fiz de tudo – cada vez mais longe disso –, mas conquistei bastante coisa nesses entre 30 e 40 anos de vida (depois de um bate-papo com a Bia Granja, curti a ideia de brincar de ter uma idade fluida, too young to be in my fourties, too old to be in my thirties).

Quereres surgiram ao longo da estrada. Vezes de dentro para fora, noutras de fora para dentro. Jornalista, reportei shows e festivais entre lágrimas e decepções, escrevi apaixonada sobre comida, pirulitei de cronista e colunista. Mereci e ganhei São Paulo. Surtei (no melhor sentido) nos textos e temáticas pela mão dos chefes mais inspiradores da vida.

Realizei sonhos, como trabalhar em mídia jornalistona. Desbravei o novo mundo das mídias sociais, quebrei (pre)conceitos ao ser assessora de imprensa. Aprendi a me encontrar e me perder na medida da minha liberdade. Free é o lance.

Daí veio a amiga-inimiga inquietude. Muitas vezes ouvi de amigos que sempre estou insatisfeita. Sempre quero mais. Sempre acredito que posso mais. A real é que sigo furiosamente palavrinhas do tipo evolução, desenvolvimento, melhora, novo, futuro, mais e mais e mais conhecimento.

É que tem um ponto lá longe… meio borrado, disforme…

Noutros tempos culpei astrologia, amaldiçoei um moço desagradável chamado mercado, reclamei das próprias escolhas.

Tive gazilhões de dúvidas. Ainda as tenho. Todos os dias! Só que agora eu pelo menos entendo, aceito e estou em paz com esse ser buscante que habita em mim.

Ele me levou a fuçar possibilidades fora do Brasil. Não que seja novidade. Perdi as contas das vezes que pensei, planejei, e bati na trave de concluir as malditas applications. Só que quando grudou uma ideia, inteiramente brotada pelo toque do Draft e compartilhada com dois parceiros de gulodices, germinou junto o motivo que faltava.

Você pode ser cético o quanto for, mas é muito louco quando se direciona a energia para o caminho da transformação. Comecei a mexer em tudo, como diria Renato Russo, quase sem querer. Morava sozinha em um apê foférrimo, aluguei-o e busquei aconchego e entusiasmo em uma grande amiga.

Isso significou mudar de bairro também, daí novas padocas, botecos, restôs, galera das redondezas e processo conchinha acoplado à reflexão com ela e outra amiga – quando as ilhotas se juntam, sabe? Os momentos, as energias…

Passei a incluir em minha rotina corrida e exercícios ao ar livre como nunca (e entrei numas de abandono do velho tabaco). Divulguei as atuais vontades, circulei por feiras de estudo. Colei mais nos amigos que também têm olhos aventureiros.

E de repente as coisas acontecem. Uma atrás da outra, meio efeito-dominó. Corro o risco de ser injusta, mas sinto que isso é raro na minha trilha.

A tomada de decisões é foda. Eu me encontrei em várias situações complicadas.

Alguns amigos não absorveram o fato de que o meu ser buscante não me conduzia a um emprego, ou a uma relação amorosa, e me distanciavam do meu ecossistema tão especial. Que me colocaria em uma condição similar a outra fase segundo os parâmetros “normais”. Uns disseram isso claramente — e agradeço a honestidade. Outros simplesmente debandaram aos poucos, talvez nem tão conscientes dessa despedida.

Notei que esse é um processo que já rolava – a tal da seleção natural. E eu sofro demais com ela. Sempre fui uma people’s person. Outro dia falei com um amigo sobre isso.

Não consigo lidar com as perdas, com essa dificuldade em convergir diferenças entre amigos. Com a separação sem perspectiva de conciliação.

Os erros, as cagadas nossas e do outro… De repente o pavimento se dissolve, mas isso acontece sempre, né? Longe torna-se impossível contar com aquele esbarrão que lava a roupa. Ainda assim, agora eu entendo e, bom, aceito (atenção porque entender não é não sofrer). Nas Skypeadas, Snapchats e Whats agarro o que fica. E tem certas amizades que precisam só do cultivo via pensamento, amor e energia, Thank God!

Curioso que muitas pessoas falam desse meu exercício pela busca um ato de coragem. Não consigo ver assim, para mim é de certa forma só mais um movimento da vida.

Eu não tinha filhos, namorado, estava free. Dizendo isso, você pode pensar: “ah, então tá, assim é fácil”. Não, não é. Porque quando você tem essas coisas todas de certa maneira elas podem funcionar como uma pequena desculpa, sabe? E eu tinha as minhas. Sem falar em angústias do tipo Bridget Jones (“será que minhas buscas vão fechar outras portas?”). A questão é que todas essas questões ficaram menores – atenção, não menos doloridas e angustiantes – do que os incômodos. E quando a gente quer mover… Ah, a gente move. Com toda a bagagem na cacunda.

Também tive outras opções difíceis – escolher entre um curso mais communications, show me the money! em uma instituição centenária, respeitada e tradicional; ou ser o labrat do empreendorismo hands on em uma faculdade moderna e jovial com uma experiência imersiva e concreta. Londres ou Norwich. Norwich quem?

Ah, sim, e ganhei três bolsas, duas para uma faculdade e uma para outra, que até hoje não sei lidar ou comemorar. Como faz para ser vitorioso? E qual é o tempo dessa vitória? E o que é vitória para mim pode ser incompleto pra você.

Enfim, então chegamos àquele fator de construção externa que comentei lá no início, lembra? Escolhi participar da primeira turma de Enterprise and Business Creation da University of East Anglia, em Norwich.

O curso está padecendo da pecha de pioneiro, e nós, estudantes, suando na função de ratos de laboratório. O primeiro semestre (que aqui é trimestre, vai entender…) foi um inesperado rolo compressor.

Tive de me virar com aulas de finanças e contabilidade, sintonizar o corpo e o mindset na função business (uma coisa é contar aqui, outra é vivenciar!), me virar na confusão para escrever um paper em academês sobre áreas que sequer foram estudadas.

E é assustador praticar o tal do Business Plan. Enquanto ouvia os relatos dos tantos empreendedores que entrevistei para o Draft, seus motivos emocionais, suas lutas, eu tinha uma vaga ideia de que a sensação era a de se equilibrar em um slackline. Só que a cada passo o cenário muda. De um lado você, do outro os amigos. Em dois minutos tem um você, profissional, que quer fazer dinheiro e relaxar; do outro a tua persona que quer criar…

Todas as ferramentas, plataformas, formas, modelos que prometem te ajudar. Financiamento, crowdfunding, crowdsourding, concursos, empréstimos, incubadoras, eventos para novos negócios e inovação, networking, métodos, canvas, anjos, hackatons… A maioria (ou tudo) você lê no Draft sem as amarras da academia! Meu curso faz parte da business school, o que resulta em uma visão que volta e meia turva pelo pragmatismo, pelo mantra business business business.

E você lá, tentando abraçar tudo isso com pernas, braços, nariz, fio de cabelo. E noite após noite se perguntando “será que estou fazendo a coisa certa?” E enfrentando um leque de medos – da empreitada dar errado, de ter se enganado sobre si mesmo, da competição ser maior, melhor e mais rápida do que você, do amanhã, dos mitos, das verdades. As insônias e as dormidas em horinhas…

“It’s war!!!”, me disse um entrevistado com sotaque do Bronx que você lerá em breve aqui no Draft. Guerra com uma boa parte do mundo e com você mesmo, aliás.

E eu ainda não nasci como empreendedora. Estou na barriga.

No meio disso, mil encontros, desencontros, reencontros… Morar com uma pessoa completamente estranha e de cultura ainda mais diferente – observar, aprender o melhor, respeitar a louça largada… Not easy.

Correr e escutar música em uma friaca que te deixaria na cama sem a menor dúvida em outra situação. E ler seus livros, escolher os shows que vai sozinha (se bem que esse é um jeito bem meu). E ficar com você, easy sometimes, not always.

Um alerta, porém: se você acha que ao fazer um mestrado fora do país vai ter um tempo gigantesco para fazer coisas que não pode na vida “normal”, não se engane. Não vai. O que você vai é organizar a sua atenção – ah, hoje eu vou ligar para ESSA amiga, no sábado eu vou tirar o dia para andar pela cidade… No meu caso, é quase TODO O TEMPO para a universidade, menos do que eu gostaria para os frilas, a família e amigos (sorry!!!).

Mas tem as baladinhas de sexta e sábado via Skype com amigos, amigas ou família, cada vez mais aperfeiçoadas, ao lado de uma garrafa de vinho e com transmissão ao vivo do preparo do jantar. E momentos de troca profundos e super intensos. Horas. Duas, três, quatro direto. São janelas de felicidade. Tive até de reduzir e olhar para fora, botar o umbigo na rua. E tome reflexões em áudios de 10 minutos para as amigas no ônibus, no raro break para o almoço (o povo aqui não almoça, o que me deixa maluca!).

Ao buscar os amigos, você se sente exercendo o verbo compartilhar. E sabe-se que a resposta virá no momento apropriado e com a devida atenção.

Este segundo semestre na universidade anda um tanto de repetitivo. Business Plan all over again, mas mais aprofundado, em uma organização de curso que perde pontinhos. Por outro lado, as coisas tomaram um rumo psicológico interessante. Muitas aulas procuram ir mais a fundo nos motivos, na autoestima e no propósito de cada um. Observo coleguinhas dando braçadas de volta à sua terra – alguns, verdade, por conta de expectativas, outros porque não era aquilo mesmo. Estou curtindo ficar debaixo d’água absorvendo o que vem.

O curso vai junto (e bate muita cabeça) com uma busca da faculdade por oferecer musculatura para futuros empreendedores. Foi inaugurado simultaneamente um espaço dedicado à inovação, ao desenvolvimento de ideias, coworking. Daí todo o caos típico da novidade, gente reclamando, gente se envolvendo, gente tentando. Natural? Ele trabalha diretamente (com grana inclusive) para botar as loucurinhas das pessoas de pé para ver no que dá. Isso muito me interessa.

E existe uma cena do empreendedorismo local, um entusiasmo e uma vontade misturando universidade e empresas que ainda estou tateando. É muito mais barato montar algo aqui do que em Londres e com uma logística favorável por conta de um aeroporto internacional com ponte-aérea para Amsterdam. Uma dessas fontes de troca e conhecimento local traz um nome que eu amo, Hot Source.

Eu, que vim com uma ideia a tiracolo e muita vontade de imersão, respiro minha loucurinha, prendo o ar e vou ao fundo ver o que tem por ali.

Agora bora lá, e o futuro? Há, eu não tenho essa resposta. Não tenho nem para o que eu vou fazer após o curso. Virei metralhadora de application do meu business (quem sabe você vai me ver em breve aqui, entrevistando a mim mesma? He he he).

No momento a minha busca é colocar pele e osso nisso. Que seja até para te contar depois como é, mas eu PRECISO compartilhar essa delícia de ideia que estou cuidando com tanto amor, e gerindo com dois amigos que admiro e com quem troco, aprendo e me divirto a cada meeting por Skype. Uma ideia amalucada (será?) e que já me deu tanto…

Eu não sei quem serei, mas sei quem sou hoje. E hoje eu sou infinitamente melhor do que ontem. Mais empolgada e mais nutrida. Em todos os sentidos. E com muita, muita vontade de dar asas a esse ser buscante que saltita aqui dentro, ó.

 

Daniela Paiva, 30 e uns bons anos, é jornalista e colunista com passagens pelo Correio Braziliense, Brasil Econômico, Folha de S.Paulo, e Agência Ideal. Pirada em comida, música, arte e encontros inspiradores, saiu do Brasil no fim de 2015 para mergulhar no mestrado de Enterprise and Business Creation na University of East Anglia, no Reino Unido.

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