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A feira Pop Plus trabalha para ampliar o mercado da moda plus size e, também, acabar com a gordofobia

- 5 de dezembro de 2018
Há seis anos, Flávia organiza a Pop Plus (foto: Ana Shiokawa).

A jornalista Flávia Durante, 41, viveu em Santos, litoral de São Paulo, até entrar na faculdade. Sempre frequentou a praia, usou biquíni e blusinhas tomara que caia. Gostava, e ainda gosta, de customizar as próprias roupas. Sem planejar uma mudança de carreira, acabou se tornando a empreendedora por trás da Pop Plus, feira de moda e cultura plus size focada no consumidor final, que existe desde 2012 e se tornou um negócio lucrativo.

Antes de seguirmos, vale entender a trajetória pessoal da ex-jornalista, que empreendeu mais por necessidade do que por vontade. Quando se mudou para a capital paulista para estudar, ela conta que se deslumbrou com o agito noturno: começou a discotecar em casas noturnas, a sair “de segunda a segunda” e ganhou bastante peso, sem se importar com isso. Continuou usando as mesmas roupas de antes. Porém, com 40 quilos a mais, começou a se sentir excluída pelas marcas e pelas pessoas:

“Me sentia maltratada e rejeitada em lojas, às vezes com palavras, às vezes com olhares que diziam ‘aqui não é o seu lugar'”

Ela prossegue: “Comprei muito em loja de departamento masculino ou de roupas para grávida”. Mesmo sem se incomodar com os quilos a mais, ela diz que foi impactada pela forma como os outros faziam com que se sentisse. “Por mais que eu não tivesse mudado o meu jeito de ser, é uma situação que acaba minando sua autoestima. Isso me incomodava, mas achava que não era um problema meu, e sim um erro da sociedade e do mercado de moda não incluir todas essas pessoas”, afirma.

INSATISFEITA COM O MERCADO PLUS SIZE, ELA CRIOU UM EVENTO DE NICHO

Em 2012, para fazer uma renda extra, Flávia resolveu comprar 500 reais em biquínis e revender para as amigas. Ela considera que esse foi o primeiro investimento na Pop Plus. A primeira edição da feira ocorreu em 2012, com o nome de Bazar Plus Size. Este primeiro evento teve a participação de seis marcas e foi o empurrão para o que é hoje o negócio.

Além da feira de moda, a Pop Plus oferece ao público performances, música e aulas de yoga.

No começo, a feira seguia o estilo do Mercado Mundo Mix (evento multicultural que fomenta iniciativas e talentos da moda, arte, design e gastronomia), mas foi se adaptando às demandas que surgiram. “Como sempre fui muito ligada ao estilo alternativo, foi a linha que segui. Mas as pessoas começaram a divulgar, levar mães, irmãs, amigos e pediram outros tipos de roupas, para trabalhar, por exemplo. Hoje, considero a Pop Plus um shopping plus size. Tem de tudo um pouco”, conta.

Para ela, o grande impacto da empresa foi mostrar para a cadeia de moda que pessoas gordas possuem estilos diferentes e podem vestir o que elas quiserem. “O mercado precisa oferecer a opção. A pessoa escolhe se quer ou não. Tem as meninas gordas que querem usar cropped e mostrar a barriga e tem as que não querem. Na Pop Plus, oferecemos diversidade. Tem marcas casuais, alternativas, clássicas, sexy”, conta Flávia. É ela quem faz a curadoria das marcas que vão participar da feira (caso da Chica Bolacha) e busca, sempre, o que há de novidade no mercado. “Faço muita pesquisa, acompanho influenciadores digitais e, quando vejo uma marca legal que não tem plus size, me apresento e indico aumentar a grade (ou seja, passar a produzir as roupas em tamanhos maiores).”

Para participar da Pop Plus, as marcas precisam trabalhar com roupas acima do tamanho 46. “Faço uma curadoria focada até o 60 ou mais. O que mais vende são as peças entre 48 e 54, mas um evento como esse não pode permitir que que mulheres que vestem acima do 60 saiam infelizes”. Ela conta que um dos gargalos desse mercado é justamente a exclusão de mulheres gordas dentro do próprio segmento:

“Campanhas de marcas com tamanhos a partir do 48 contratam mulheres que usam 44. Elas excluem a própria cliente e criam padrões em um mercado que deveria ser inclusivo”

Sua 23ª edição (são quatro feiras por ano) acontece neste fim se semana (dias 8 e 9 de dezembro), no Clube Homs, em São Paulo. Lá a Pop Plus vai reunir mais de 100 expositores, além de oferecer outras atrações como música e aulas de yoga. As marcas pagam entre 700 reais e 5 mil reais para participar dos dois dias do evento. O faturamento da empresa, em 2017, foi de 281 mil reais e a previsão para este ano é de 472 mil reais.

PARA IR DE JORNALISTA A EMPREENDEDORA, ELA BUSCOU AJUDA

Quando foi convidada para ser editora de lifestyle do portal Vírgula, em 2009, Flávia não tinha muito conhecimento de moda, já que vinha do trabalho como assessora de imprensa de gravadoras e bandas. Mas era justamente um novo olhar que o portal queria. “Os blogs de moda no brasil estavam começando e fui me aproximando mais desse universo. Depois, virei editora dos sites das revistas Tpm e Trip e convidava gente para escrever sobre uma moda mais real”, diz.

A Pop Plus é trimestral e, até a última edição de 2018, reuniu 12 mil pessoas por evento (foto: Robson Leandro da Silva).

Há três anos, ela deixou o jornalismo para empreender exclusivamente na Pop Plus. “Quando fui demitida do meu último trabalho, vi que a Pop Plus estava se consolidando e decidi arriscar.”

Uma das primeiras medidas que tomou, foi fazer uma consultoria de branding e mudar o nome do evento de Bazar Plus Size para Pop Plus.

“Na raiz da palavra, bazar é um mercado onde se vende de tudo, mas aqui no Brasil tem conotação de liquidação, brechó, coisas de segunda mão. E não é o caso da nossa feira, porque trabalhamos com lançamentos”, conta.

Ela também fez uma parceria operacional com a produtora Art Shine, que trouxe experiência em grandes eventos para o negócio. “Sempre fiz muito pela ideologia e nunca aprendi a me valorizar. Eles me ajudaram a enxergar o meu potencial e a ter a visão de negócio de uma feira.” Agora, ela está no meio de um processo de consultoria na Feminaria, agência especializada em gestão estratégica focada no empreendedorismo feminino.

Por mais que tudo tenha dado certo até o momento e ela nunca tenha tido prejuízo, Flávia sente que chegou a hora de estruturar melhor a empresa e desenvolver novas linhas de negócios. “Sou muito ansiosa e, quando tenho uma ideia, já quero colocar em prática. Às vezes sinto que preciso planejar melhor, guardar algumas para depois. Então, já estamos fazendo plano de negócios e projeções para o próximo ano”. Dentre as estratégias, está fazer uma feira para o atacado e buscar patrocínio para os eventos, que hoje se sustentam apenas com a taxa que os expositores pagam para participar.

CONTRA O PRECONCEITO, ATIVISMO E BOAS IDEIAS

Um dos desafios de Flávia como empreendedora no nicho plus size é popularizar o assunto, fomentar o surgimento de novas marcas e aumentar a grade de tamanhos das que já existem. Por mais que se fale sobre moda plus size, o acesso ainda é restrito. Ela afirma: “Hoje em dia há uma oferta muito maior do que quando comecei, mas se eu for ao shopping com um cartão ilimitado, agora, não consigo comprar um vestido que caiba em mim. Então, ainda precisamos muito de eventos especializados”. Se olharmos para além dos grandes centros, a situação é ainda pior, como diz:

“Recebo e-mails de mulheres do interior do Maranhão, da Bahia, de Pernambuco, que usam lençol e canga para se cobrir porque não existe roupa do tamanho delas”

Flávia conta que muitas marcas de alta costura já declararam abertamente que não há interesse em investir em uma grade de tamanhos maiores. Nas redes varejistas, existe um pouco mais de abertura mas, ainda assim, a numeração costuma parar no 46 e, em algumas marcas, os tamanhos maiores precisam ser encomendados. A empreendedora alerta: “O gordo é visto como doente, preguiçoso, incapaz ou, então, exótico e engraçadinho. São estereótipos que fazem com que seja mais difícil sermos levados a sério. O que a gente quer é mostrar que merece respeito como todo mundo”.

Na curadoria da Pop Plus, Flávia seleciona marcas que fabriquem peças acima do tamanho 46.

O sonho de Flávia é que, um dia, a Pop Plus não precise mais existir porque todas as lojas trabalharão com roupas para diversos corpos. Mas ela sabe que o caminho ainda é longo e, por isso, além de empreendedora e cliente, se vê também na posição de uma ativista do nicho plus size:

“Não posso pensar só em faturamento porque lido com a autoestima de milhares de mulheres”

Lidar com essas três esferas (empreendedora, cliente, ativista) é um exercício de equilíbrio, porque as pressões de cada um dos lados são diferentes. “Acho que não tem como ser de outra forma.” Para se desestressar, ela gosta de relembrar os velhos tempos de discotecagem na noite paulistana e, até, se montar de drag queen de vez quando. Plus size, é claro!

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Pop Plus
  • O que faz: Feira de moda e cultura plus size
  • Sócio(s): Flávia Durante
  • Funcionários: 7
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2012
  • Investimento inicial: R$ 500
  • Faturamento: R$ 281.000 (em 2017)
  • Contato: contato@popplus.com.br
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