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Antes mesmo de se abrir para o mercado, o C6 Bank criou o Opp, um hub de oportunidades para startups

- 9 de abril de 2019
O head de Inovação do C6, Gustavo Torres, acredita que a base para as empresas criarem soluções cada vez mais disruptivas é se abrir para o mercado e fazer alianças com startups.

Quem circula pela sede do banco digital C6 Bank, um edifício de oito mil metros quadrados nos Jardins, em São Paulo, sente-se mais em uma empresa de tecnologia do Vale do Silício do que em uma instituição financeira.

Em uma das salas envidraçadas, um grupo rascunha um projeto na parede. Ali perto, pessoas compartilham mesões modulares ou trabalham em notebooks acomodadas sobre pufes e bolas de pilates.

Em outro canto, há uma mesa de pingue-pongue e máquinas clássicas de fliperama. Dependendo da programação, um palestrante tem a atenção de uma pequena arquibancada disposta bem ali no corredor.

Tênis e camisetas quebram o ar sisudo da gravata e do salto alto. O ambiente de coworking está ligado a um dos principais programas da casa, o Opp, um hub que une mentoria e aporte de capital, levando startups para dentro do banco digital.

CRIANDO UMA INSTITUIÇÃO FINANCEIRA DO ZERO

Oficialmente, o C6 só começou a realizar operações financeiras no fim de janeiro, ao receber o aval do Banco Central. Com uma licença de um banco múltiplo, uma carteira comercial e outra de investimento, eles podem trabalhar com diversos modelos, de seguros a consórcios, passando por previdência.

A diferença é que não há taxa de abertura e manutenção de conta nem para saque na rede 24 Horas ou para TED. Para pessoa jurídica, aposta em diversificação de produtos, de olho nas dificuldades que empresas jovens têm de conseguir crédito no Brasil. Em março, foram autorizados também a abrir uma corretora em Nova York, com foco em clientes institucionais.

Por enquanto, nenhum serviço está disponível. As primeiras contas correntes abertas, logo após o sinal verde do Banco Central, foram dos funcionários e de convidados restrito, entre amigos e parentes dos colaboradores. Mas a promessa é abrir para novos clientes nos próximos dias. Eles terão que acessar o site e solicitar um convite de usuário.

O capital inicial investido pelos sócios não foi divulgado, mas a perspectiva é colocar 500 milhões de reais até o final de 2019. E como não param de recrutar, o número de colaboradores logo chegará a 450 (hoje são 400).

O processo para a abertura do banco, no entanto, começou bem antes de seu lançamento, em março de 2018, quando, remanescentes do BTG Pactual, os sócios majoritários Marcelo Kalim, Luiz Marcelo Calicchio e Leandro Torres se aventuraram na criação de uma instituição financeira digital da estaca zero – na época, nem sabiam como chamaria a empresa.

Assim que solicitaram a licença, começaram a se estruturar fisicamente e a contratar em peso. Queriam ajuda para lapidar a ideia, como o carbono, que precisa de condições específicas para virar um diamante. Não à toa, mais tarde, a fórmula desse elemento essencial à vida inspiraria o nome do banco.

Thiago Soares é o diretor do Opp, programa de aceleração de startups do C6 que já selecionou quatro negócios para apoiar.

Entre os profissionais que moldaram a instituição desde o início, estão Gustavo Torres, 36, head de Inovação, e Thiago Soares, 32, head do Opp.

Formado em Marketing na ESPM e com pós-graduação na London School of Marketing, Gustavo conta que se encontrou na área de Inovação ao trabalhar no grupo Naspers (dono de sites como Buscapé, OLX e iFood), em 2010, no surgimento do mobile.

Após seis anos, foi para o Banco Original, lançando a abertura de contas pelo celular. Em 2017, passou pela  TOTVS, onde ajudou a fundar o Idexo, instituto sem fins lucrativos de inovação aberta. Lá conheceu Thiago.

Graduado em Economia na PUC-SP, Thiago fez pós-graduação em Marketing na ESPM. Filho da dona de um restaurante, ele diz que sempre teve muitas ideias para empreender em uma startup. Uma delas o levou a procurar Gustavo em busca de conselhos. Foi aí que surgiu a conversa sobre o C6.

No início de 2018, Gustavo estava “bastante confortável” em seu emprego quando Marcelo Kalim o contatou, por indicação de mercado. A proposta de ser sócio de um banco que ainda nem existia era temerosa e atraente ao mesmo tempo. “Tudo que é diferente assusta, mas uma das coisas que me move é sentir essa coceirinha ao fazer algo novo”, afirma.

OPP, OU COMO FOMENTAR O ECOSSISTEMA DE STARTUPS DENTRO DO C6

Segundo Gustavo, o banco não investe no Opp para ter um retorno financeiro, como uma venture capture. “O que a gente mais quer é aplicar o nosso capital intelectual, participando muito próximo dos fundadores da construção das startups.”

Isso motivou a trazer as empresas para dentro da sede. Assim, além de uma série de atividades já programadas, o contato diário com os executivos do C6 foi facilitado. Gustavo afirma: “A gente sabe a dificuldade de fazer um produto nascer e ter maturidade aqui no Brasil”. E complementa:

“Para que as startups comecem a andar por si por si só, criamos um modelo que une mentoria e investimento, oferecemos um espaço de coworking e ainda podemos ser uma incubadora”

O Opp foi anunciado em setembro do ano passado. O primeiro ciclo já contou com 344 inscritos de 21 estados e a seleção tomou todo o último trimestre. Da triagem inicial, 150 startups foram entrevistadas, presencialmente ou online, no formato de pitches com o time do programa mais os sócios do banco.

“Procuramos startups em fase inicial de maturidade, que tivessem fit de negócios com o banco, independente do segmento, e com o empreendedor ideal, pois a gente investe mais nele do que, de fato, no negócio”, conta Thiago.

A ideia era ficar com, no máximo, seis cases. No final, quatro projetos foram selecionados e se mudaram para lá em 21 de janeiro. Cada um deles recebeu um investimento que varia de 40 mil reais a 70 mil reais. Os escolhidos desenvolvem produtos de base tecnológica, mas nem todos têm aplicação restrita ao setor financeiro.

A Travys, por exemplo, é uma plataforma de insights de vendas via análise de voz em tempo real. A ferramenta ajuda o atendente de um call center a entender se o cliente está interessado ou não pela compra. Ou seja, ela identifica sentimentos via análise de voz.

Já a AvaliaShop cria um big data sobre o comportamento dos consumidores nos pontos de venda e o oferece a varejistas mediante uma assinatura.

A Provi usa machine learning para analisar dados públicos disponíveis em redes sociais (com permissão do usuário) para descomplicar o acesso a empréstimos a quem não tem histórico de crédito, como estudantes. Uma última empresa, ainda sem nome, criou um serviço de transferência instantânea de dinheiro via mensagem de texto.

No Opp, as startups fazem uma jornada de descoberta que envolve pesquisa, entendimento de usuário, identificação de problemas, prototipação e desenvolvimento do produto e passam seis meses no banco. Nesse tempo, participam de vários eventos, como palestras, e tiram dúvidas direto com os executivos.

“Elas passam pelo que a gente chama de business strategy, entendendo o risco e o modelo de negócio e voltando de novo para a pesquisa”, conta Thiago. Em resumo, elas entram no marketplace do banco que pode ser cliente-anjo delas, e conecta os negócios ao seu ecossistema e de parceiros.

Por enquanto, as startups ocupam apenas parte de um andar da sede. No próximo ciclo, que deve ser anunciado ainda nesse semestre, a intenção do C6 é dar mais espaço a elas, apesar de ainda não saberem quantas serão. “O primeiro passo será revisitar os projetos que a gente já avaliou e talvez trazê-los de novo, porque ficou um material muito rico ali”, afirma Gustavo.

Nada de terno e gravata ou o clima sisudo de um banco. No C6 tem até espaço para os colaboradores darem uma relaxada.

Nada impede que, mais adiante, as funcionalidades desenvolvidas pelas startups incubadas no Opp sejam integradas ao sistema do C6 Bank e de sua rede. O banco defende um modelo de cultura organizacional aberta e Gustavo levou essa estratégia ao Opp para manter a proximidade com a comunidade de tecnologia, inovação e empreendedorismo.

“A regra desde a Revolução Industrial era criar uma fórmula e trancá-la em um cofre. Hoje, as empresas nascem com propósito de se abrir para o mercado, permitindo que outras indústrias se conectem com elas”

De acordo com Gustavo, ao derrubar essas barreiras, o mundo das startups tem assistido a um aumento do número de unicórnios. “As empresas começaram a se conectar e a construir businesses muito mais fortes. A gente acredita em trazer o ecossistema em torno de nós para podermos construir juntos.” As inscrições para a segunda turma do Opp estarão abertas a partir do dia 22 de abril.

UM DESAFIO: CONTRATAR FUNCIONÁRIOS PARA UMA EMPRESA QUE NÃO EXISTE

O ritmo alucinado de contratações levou a algumas complicações no início. Primeiro, porque ainda não havia uma marca. Foi necessário criar a hashtag #TheNextBigThing nas mídias sociais instigando profissionais de diversas áreas com frases como “você quer ajudar a construir um banco do zero?” e questionando se queriam “desafiar o status quo”. Gustavo diz:

“Foi fundamental começar escrevendo a cultura do banco, ressaltando nossos valores. Gosto de pensar que as pessoas vieram porque se identificaram com isso e se engajaram ao projeto”

Outro problema era o espaço físico. O atual prédio só ficou pronta em agosto passado. Até então, as 125 pessoas que integravam a equipe se apertavam em meio andar de um endereço provisório. Era difícil acomodar entrevistas e reuniões com fornecedores.

Mesmo assim, o aperto parece ter unido o time. Tanto que, antes de ter licença para funcionar e sem lançar um único produto, o C6 Bank foi eleito pela plataforma Love Mondays como a empresa mais amada com menos de 500 funcionários. A nota média dada pelos colaboradores era a nota máxima.

A fachada do C6, um prédio de oito mil metros quadrados no Jardins, na capital paulista.

O período de criação do banco também foi rico em aprendizados na hora de pensar os produtos. “Obviamente, a gente não força o erro, mas em user experience, o que a gente mais vê é essa parte de apontar o que não funcionou”, diz o diretor de Inovação.

Ele conta uma experiência desastrosa que tiveram com um sistema digital para visualização de mais de um cartão de crédito na tela. Todos acharam linda a animação interativa criada. E quando testaram com terceiros, ninguém conseguiu mexer. “É importante ter o usuário participando do processo. Ele tem a voz soberana se aquilo vai virar produto ou não”, completa Thiago.

Para isso servem as pesquisas realizadas tanto nas ruas como no banco, coordenadas por Gustavo. Para ele, o comportamento das pessoas está mudando cada vez mais rápido por causa das novas tecnologias e das formas de interação. Mas o que elas querem não muda.

“Ainda precisam ir de um ponto a outro, só que, em vez de táxi ou ônibus, agora há opções como o Uber e patinetes”, afirma o executivo. Da mesma forma, elas seguem precisando fazer banking, mas com uma nova roupagem. Gustavo conta que, passados todos os testes, a versão atual do banco já é a terceira.

Como o conhecimento é o principal investimento do programa Opp, o aprendizado dos executivos do banco com as pesquisas também é aplicado nas startups incubadas.

Recentemente, um dos empreendedores também descobriu que a interface desenvolvida por ele para uma experiência de transferência de dinheiro não era prática. Fez teste e o usuário não entendeu. “Esse feedback é na hora. Imagine colocar isso como produto e perder seis meses de trabalho”, diz Thiago, certo de que as startups e o C6  têm muito a aprender juntos.

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