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Como as HR Techs estão aproveitando um setor carente em inovação e tecnologia para se desenvolver

- 28 de março de 2019
A Gupy é um caso clássico: a HR Tech surgiu dentro da Ambev, fundada por ex-funcionárias que notaram a baixa efetividade do modelo tradicional de fazer recrutamento e seleção.

Reflexo da carência de inovações na área de recursos humanos, as HR Techs vêm encontrando terreno fértil para se desenvolver. Hoje, existem 122 startups de RH no Brasil, segundo um estudo da Liga Ventures que mapeou o ecossistema. De mais de 8 mil startups analisadas, as HR Techs representam cerca de 1,5% do total, com potencial de expansão, tanto pelas deficiências do segmento — ainda muito tradicional — quanto pelo tamanho do mercado: há cerca de 93 milhões de trabalhadores no Brasil e outras 12 milhões de pessoas desempregadas, de acordo com o IBGE.

“As grandes empresas atendem a um segmento bastante básico, com soluções mais tradicionais de recrutamento, gestão de talentos e aspectos operacionais. As startups estão trazendo um novo nível de solução, com tecnologias analíticas e custo competitivo, otimizando produtividade com diagnósticos mais apurados”, diz Kelly Ribeiro, sócia da área de capital humano da consultoria Deloitte. “Quando se fala em análise de dados, machine learning e todas essas tecnologias mais inovadoras que permitem melhorar engajamento e produtividade, são as ‘techs’ que trazem uma abordagem mais assertiva e direcionada.”

Para se ter uma ideia do potencial de desenvolvimento do setor, globalmente, as HR Techs atraíram mais de 1,87 bilhão de dólares em investimentos entre 2016 e 2017, segundo o relatório HR Technology Disruptions for 2018, elaborado pela Deloitte. O estudo afirma que uma onda massiva de atualizações e substituições está varrendo o setor, já que muitas empresas estão substituindo seus sistemas principais por tecnologias baseadas em nuvem e construindo novas infraestruturas inteiras orientadas às equipes, com aplicativos centrados em dados e aplicações em rede.

As HR Techs podem atuar em 11 frentes, como mostra o estudo da Liga Ventures: recrutamento e seleção (18%); cursos e treinamentos (16%); ponto, operações e folha (12%); saúde ocupacional (10%); avaliação de performance (9%); plataforma de vagas (7%); engajamento de colaboradores (7%); temporários e freelancers (5%); people analytics (5%); entrevistas (5%) e gestão de benefícios (5%). Mais da metade dessas empresas (56%) nasceu depois de 2015 e somente 11% surgiram antes de 2010. Em relação à distribuição geográfica, 67% estão em São Paulo, depois aparecem Minas Gerais (8%) e Santa Catarina e Rio de Janeiro (7% em cada estado).

A seguir, apresentamos uma seleção de HR Techs que se destacam no Brasil, em diferentes frentes, dentro deste novíssimo universo.

GUPY

A frente mais atacada pelas startups na área de recursos humanos é o recrutamento de pessoas. Ex-gerente nacional de recrutamento e seleção da Ambev, Bruna Guimarães, 35, sentia na pele a dificuldade de selecionar funcionários. “A gente lidava com pilhas de currículos que chegavam em PDF ou no e-mail e sabíamos que ali havia uma oportunidade de melhoria. O esforço operacional e a experiência ruim não faziam sentido com o potencial da área de gente em ser mais estratégica”, conta.

Pois em meados de 2015, Mariana Dias, 31, colega de trabalho de Bruna, que na época ocupava o cargo de HR business partner para América Latina na Ambev, teve uma ideia e chamou a amiga para conversar. “A Mariana experimentava desafios semelhantes e como nós já tínhamos trabalhado juntas em alguns projetos, ela entrou em contato comigo para nos unirmos.”

A ideia de criar a Gupy (já saiu em Acelerados), um sistema que automatiza o recrutamento e a seleção das empresas para que elas possam estruturar seus processos de forma mais simples, surgiu porque tanto Mariana quanto Bruna observaram que estava acontecendo um movimento de transformação digital em diversas áreas das organizações. “Sempre estudamos e olhamos para fora do Brasil, para entender as tendências e inovações do setor, e sabíamos que o RH no país estava atrás de outras áreas quando o assunto era eficiência e resultado por meio de tecnologia. Começamos a estudar a aplicação de inteligência artificial e identificamos a oportunidade de fazer a Gupy”, diz Bruna.

Como faltava alguém com expertise na área de tecnologia, as duas chamaram mais um sócio, Robson Ventura, 31, que ocupa o cargo de CTO da startup. Completa o time de cofundadores o CMO Guilherme Henrique Dias, 27.

O mercado, como se provou, ansiava pelo produto que a Gupy oferecia: a startup conseguir seu primeiro cliente — a multinacional Kraft Heinz — antes mesmo de a ferramenta ficar pronta. Hoje, possui 200 clientes de diferentes perfis, desde pequenas empresas até multinacionais como a própria Ambev, Embraer e Cielo.

Bruna diz que a digitalização e a automatização do processo de seleção reduzem em 50% o tempo de contratação de um funcionário — da abertura até o fechamento da vaga. Além disso, que o sistema diminui em 80% o esforço operacional e, também, o turnover, porque aumenta a assertividade da contratação. Ela conta que, independentemente do número de inscritos para uma vaga, o sistema destaca 12 candidatos para a análise final, e fala mais:

“Nossos algoritmos aprendem com o padrão de recrutamento das empresas a cada contratação. Dessa forma, o sistema pode entender continuamente quais são as características, experiências e potencial necessário para cada vaga”

A Gupy funciona com um modelo de assinatura. As empresas fecham um valor de mensalidade com contratos anuais para facilitar a gestão do pagamento, que variam de 800 reais a 50 mil reais (levando em consideração informações como o tamanho da empresa, número de funcionários e potencial de crescimento).

Em 2015, para fundar a startup, os cofundadores investiram 40 mil reais com capital próprio. Em 2016, foram acelerados pela Wayra. Em 2017, captaram 1,5 milhão de reais e, no final de 2018, conseguiram uma rodada Series A de 11,5 milhões de reais. Esse último aporte foi feito pela Valor Capital e Maya Capital. Em ritmo acelerado, a Gupy cresceu 400% em 2018. “A expectativa é fazer um ano ainda melhor em 2019”, diz Bruna. Na equipe, hoje, há 60 funcionários.

REVELO

Fundada em 2014, a Revelo também atua na frente de recrutamento e seleção e seu grande diferencial foi inverter o processo e “colocar o candidato no centro”. Diferentemente dos sites tradicionais de empregos, não são os profissionais que se candidatam às vagas. Eles passam por um único processo seletivo na plataforma e, se aprovados, ficam disponíveis em um marketplace online para consulta das empresas assinantes. Dessa forma, não precisam fazer testes em cada uma das organizações que se interessam pelo seu perfil. Para fazer o match entre candidato e empresa, a startup usa tecnologias como machine learning e inteligência artificial.

Na Revelo, o foco são profissionais que atuam em funções com grande demanda no mercado, como engenheiros, designers, gente da área de marketing, de finanças corporativas, planejamento estratégico etc. “São profissionais de salário mais elevado, não necessariamente por serem sêniores, mas pela alta demanda no mercado”, conta Lucas Mendes, 35, CEO e cofundador da startup junto com o australiano Lachlan de Crespigny, 34. Em 2018, a área de engenharia de software foi a que apresentou maior demanda, seguida por cientistas de dados e profissionais de data analytics. Entre junho e novembro de 2018, o número de convites de entrevistas para vagas nessas qualificações subiu 141%.

Com cinco anos de operação, a Revelo teve que fazer ajustes no meio do caminho. E segue se adaptando, como diz o CEO:

“A cultura da Revelo é de experimentação. Não acreditamos que nenhum produto nasce pronto, mas que evolui por meio  da inovação contínua”

Um desses ajustes foi no modelo de cobrança do serviço. No início, a Revelo trabalhava baseada em success fee, sistema bastante tradicional no mercado de recrutamento balizado em uma porcentagem do salário do profissional contratado. Nesse formato, a startup só recebia do cliente mediante contratação efetivada. “Algumas empresas não usavam o produto em todo seu potencial porque o valor ficava alto”, conta Lucas. Foi aí que surgiu a ideia dos planos pré-pagos. “Agora, elas compram créditos para usar a plataforma e ficam livres para fazer suas contratações.”

Lucas Mendes, da Revelo, busca fazer os empregadores irem até o candidato, e não o contrário.

Os valores são definidos pelo número de contratações — e não mais com base no salário do contratado. “Isso implicou na necessidade de criar áreas novas na empresa, especialmente na frente comercial, mas gerou resultados muito além do esperado. Crescemos mais de dez vezes e, hoje, mais de 90% da receita da Revelo vem dos planos pré-pagos”, diz Lucas.

Em 2018, o crescimento foi de 400% e a expectativa é triplicar o faturamento em 2019. Há mais de 3 mil empresas ativas na plataforma, entre elas Itaú, Ambev, QuintoAndar, B2W e Grupo Boticário. Ao todo, 30 mil processos de seleção foram realizados no ano passado.

Para atrair os profissionais e fazer com que se cadastrem e passem pelo processo de seleção — algo extremamente importante para o negócio girar —, a Revelo ataca em três pilares. O primeiro deles é a indicação. Candidatos aprovados que indicam a plataforma para amigos são remunerados por isso. Se o profissional for aprovado, quem indicou ganha 50 reais, e se for contratado por uma empresa, a remuneração sobe para 500 reais. O segundo pilar é o tráfego orgânico a partir de geração de conteúdo e o terceiro é mídia online

Dessa forma, todos os dias, entre 100 e 200 pessoas são aprovadas no processo seletivo da plataforma e ficam à disposição das empresas. “O foco não é quantidade e sim qualidade, por isso só disponibilizamos os aprovados”, diz Lucas, que complementa: “Criamos uma experiência de ‘job discovery’ única. Na Revelo, esses profissionais conseguem rapidamente ter uma ótima visibilidade no mercado, já que são as vagas que vão até os candidatos, e não o contrário”. Até hoje, a Revelo recebeu dois aportes. O primeiro, de 3 milhões de reais, veio em julho de 2015 e o segundo, de 14 milhões de reais, aconteceu em outubro de 2017. A empresa tem 65 funcionários.

JOBECAM

Se hoje quase tudo é digital, por que as entrevistas de emprego e os currículos não iriam pelo mesmo caminho? É isso o que faz a Jobecam (que também já foi destaque em Acelerados). Fundada em 2016, com investimento inicial de 400 mil reais, a startup desenvolveu uma plataforma de empregos baseada em tecnologia de vídeo e algoritmos inteligentes. A ideia do negócio surgiu quando Cammila Yochabell, CEO da startup, 33, procurava emprego.

Ela passou uma temporada na Oceania e, em seu último mês lá, começou a buscar oportunidades de trabalho no Brasil. Achou uma oportunidade ao tentar se aproximar dos contratantes:

“Cansada de sites convencionais e antiquados, busquei uma plataforma em que eu pudesse gravar meu vídeo-currículo e, assim, o recrutador soubesse quem eu era por trás de um papel. Foi aí que vi que não existia nada do tipo”

Com carreira traçada na área de Recursos Humanos, Cammila, natural de Mossoró (RN), mapeou os gaps do processo de seleção e observou também as dores dos candidatos para, assim, desenhar a Jobecam, uma plataforma de empregos totalmente digital focada em vídeo-currículos (entrevistas gravadas e entrevista às cegas gravadas).

No modelo de negócio em vigor, a Jobecam vende Jobcoins, que são as entrevistas. Cada Jobcoin equivale a uma entrevista de quatro perguntas com até dois minutos de duração cada. Os pacotes custam a partir de 690 reais e dão direito a 100 Jobcoins. Há também os projetos customizados, que geralmente são para volumes maiores que 1.000 Jobcoins por mês.

Cammila Yochabell (à frente), da Jobecam, usa entrevistas em vídeo e inteligência artificial para indicar os melhores candidatos driblando preconceitos inconscientes dos recrutadores (foto: Marco Torelli).

A inteligência artificial entra para otimizar a seleção dos vídeos. A transcrição do áudio das entrevistas gravadas pelos candidatos é cruzada com as informações que a empresa indicou serem necessárias para a vaga aberta e, assim, se faz o match entre candidato e empresa.

Na entrevista às cegas, lançada recentemente, o recrutador tem acesso ao material completo do candidato somente caso o aprove, garantindo contratação por meio de suas habilidades e eliminando a possibilidade de vieses inconscientes (algo que pode interferir negativamente na contratação de mulheres e negros, por exemplo). Desde o lançamento da empresa, a empreendedora conta que o trabalho tem sido árduo:

“Vivemos uma fase de transição cultural e inovação das áreas de RH. Nosso maior desafio é provar para todos o quanto os vídeos tornam os processos mais ágeis e justos”

Hoje, a Jobecam possui mais de 300 empresas cadastradas, incluindo Osklen e Grant Thorton, e tem uma equipe de 13 funcionários. Por ano, a startup realiza mais de 4 mil entrevistas. Além do investimento inicial, com capital próprio, a startup levantou 1 milhão de reais da People+Strategy, consultoria de recursos humanos, e da BRQ Solutions. Em 2018, a Jobecam cresceu 300%. Em 2019, passou a ser apoiada pelo programa de aceleração do Facebook em parceria com a Artemisia na Estação Hack.

LOVE MONDAYS

“Percebemos que havia avaliações para praticamente tudo na internet, hotéis, lugares turísticos, restaurantes, mas para o trabalho, que é onde as pessoas passam a maior parte da vida, não havia nada.” Foi essa reflexão que levou, em 2013, Luciana Caletti, CEO, 38, Dave Curran, COO, 37, e Shane O’Grady, CTO, 38, a criarem o Love Mondays. Já bem conhecido, no site as pessoas podem avaliar as empresas onde trabalham e, também, publicar seus salários, para que interessados em atuar na organização possam ter uma ideia mais precisa de como é aquele ambiente corporativo. Luciana fala mais sobre a proposta:

“As pessoas tomavam a decisão de ir trabalhar em uma empresa no escuro e só descobriam como era o ambiente de trabalho quando já estavam lá. Só que nem sempre é fácil mudar”

O Love Mondays é inspirado no Glassdoor, site americano com a mesma proposta. A startup brasileira cresceu tanto que chamou a atenção da fonte inspiradora: em 2016, o Glassdoor comprou 100% do Love Mondays. “Tínhamos contatos em comum, por causa dos fundos que investiam nas duas empresas. Fomos conversar para trocar figurinhas e entender os desafios do negócio, desenvolvemos um bom relacionamento que culminou na venda do Love Mondays”, conta Luciana. O valor da negociação não foi divulgado.

No Love Mondays, os funcionários podem avaliar o ambiente corporativo e até publicar a faixa salarial dos cargos.

A empreendedora afirma que, mesmo com a compra, as operações seguem independentes e a liderança do Love Mondays se manteve a mesma. “O que o Glassdoor acrescentou foi expertise, porque estão no mercado há mais tempo.” Ela ainda diz:

“Toda startup acaba fazendo e errando, e aprende com isso. Nós estamos aprendendo com os erros que o Glassdoor cometeu no passado, o que nos poupa de errar algumas coisas”

Depois da entrada do Glassdoor, o Love Mondays lançou mais duas funcionalidades: avaliação dos benefícios oferecidos pelas empresas e dos processos seletivos praticados por elas. Além disso, expandiu sua atuação para Argentina e México. Hoje, o site registra 6 milhões de visitas por mês e reúne 1,9 milhão de conteúdos publicados pelos usuários. Há mais de 170 mil empresas avaliadas na plataforma. Duplicando de tamanho a cada ano desde sua fundação, o Love Mondays tem como fonte de receita o investimento que as empresas fazem na plataforma para atrair candidatos, divulgar vagas e reforçar a marca. A equipe da startup tem 34 pessoas.

GOGOOD

Ex-atleta profissional de karatê, Bruno Rodrigues, 30, lutou nos tatames por 16 anos. Quando se aposentou da carreira esportiva, formou-se advogado, mas, mesmo com o diploma em mãos, decidiu que queria trabalhar levando bem-estar às pessoas, algo que ele conheceu praticando esporte. “Queria disseminar os cuidados com o corpo, a mente e o espírito entre as pessoas”, diz.

Com foco nesses três pilares, ele desenvolveu a GoGood (que já saiu na seção Negócios Sociais), uma plataforma direcionada a empresas que estejam preocupadas com a saúde de seus funcionários. O fundador afirma:

“A proposta é gerenciar a saúde e o bem estar das pessoas e incentivá-las a perder peso e melhorar a qualidade de vida”

O foco da GoGood é reduzir o gasto das empresas com a saúde dos colaboradores, investindo na qualidade de vida dos empregados. No aplicativo, as atividades físicas dos funcionários são registradas, bem como o sono e a alimentação. Dessa forma as pessoas podem monitorar o que comem e a quantidade de água que ingerem diariamente, por exemplo. Os elementos de gamificação, por sua vez, ajudam na motivação e no engajamento das equipes.

Em 2018, o número de usuários da plataforma subiu 150%, chegando a 2.547 usuários ativos. Para 2019, a expectativa é quintuplicar a quantidade. Desde sua fundação, a GoGood recebeu 1,4 milhão de reais em investimento.

Um levantamento feito no fim de 2018, analisando os mais de 419 mil hábitos diários dos usuários registrados na plataforma, apontou 38 mil quilômetros de corrida percorridos, 56 mil quilômetros de pedaladas e uma média de 6.139 passos diários por usuário — 40% acima da média nacional, segundo a startup. O lema de Bruno é:

“Colaboradores saudáveis e felizes representam menor taxa de adoecimento e absenteísmo, melhorando os resultados, reduzindo os custos e aumentando o lucro das empresas”

Graças também à tecnologia, ele mensura isso em números: 200 usuários da plataforma perderam dois ou mais quilos em sete meses de uso da tecnologia. Entre os clientes da GoGood estão PayPal e Tivit. “Essa mudança de comportamento e de hábitos deve, sim, ser estimulada e promovida”, diz o CEO.

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