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Com o Reboot, os idealistas da Benfeitoria querem uma economia mais colaborativa — e um mundo melhor

- 18 de novembro de 2014
Time da Benfeitoria, no Rio de Janeiro. Tati (de blusa verde-água) e Murilo (sentado, de xadrez), são os empreendedores do site de crowdfunding que seleciona apenas ideias que tornem o mundo melhor

É, amigo, você travou. Não anda para frente, não encontra saída ao lado. Estacionou na era do consumo desenfreado e da escassez. Se fosse um computador, o jeito seria apertar o malabarístico CTRL + ALT + DEL. Observar a tela ficar preta, perder o que causou a falha de sistema e reiniciar.

Mas já que você não é um PC, o jeito é outro: estimular a cachola, acender a centelha da mudança para, aí sim, cuidar do seu recomeço. Essa é a ideia do Reboot, Festival de Wikinomia que acontece no fim de semana que vem, dias 29 e 30 de novembro, no Instituto Europeu de Design (IED), no esplêndido bairro da Urca, no Rio de Janeiro. E de graça.

O Reboot é um projeto da Benfeitoria, a startup de empreendedorismo social que surgiu a partir do desejo de um casal carioca de levar as pessoas a reavaliarem como operam em diversos setores: na vida íntima, na profissão, em relação à sociedade, ao meio ambiente etc. Não é filantropia.

Para entender o que essa turma quer, é preciso se familiarizar com o termo Wikinomia. Esta é a linha de pensamento que embasa tanto a Benfeitoria quanto o Reboot. Tati Leite, co-fundadora da Benfeitoria, explica aqui o que é e como surgiu esse conceito, cunhado no Canadá por um executivo chamado Don Tapscott.

Na Benfeitoria, a Wikinomia foi desdobrada em uma filosofia que perspassa todas as suas iniciativas. A ideia é disseminar uma nova dinâmica econômica baseada em três pilares fundamentais: Cuidado, Criatividade e Colaboração. E como isso é feito? Segundo Luisa Rodrigues, 24, coordenadora de projetos e responsável pela divulgação do festival, por meio do resgate do senso de comunidade, da coletividade, da generosidade e da cultura do acesso no lugar da posse. “São valores necessários para reverter o cenário mundial atual em que a lógica da escassez impera sobre a abundância”, diz ela.

MENOS ESCASSEZ, POR UM MUNDO MAIS ABUNDANTE

Em resumo, a Benfeitoria busca um modelo de gestão de recursos que enxerga possibilidades infinitas. Qual é esse formato que, para eles, está fora do tempo? “De que as coisas vão acabar, e por isso você tem que fazer o seu”, explica Murilo Farah, 35 anos, o outro co-fundador do empreendimento. Luisa complementa:

“É inegável que há recursos escassos, mas também existem um montão de recursos abundantes que, se utilizados de forma inovadora, criativa, cuidadosa e colaborativa, podem ser potencializados e não acabarem de vez”

É aí que entram nos negócios palavras como sustentabilidade e colaboração, além de ideias que fazem bem ao mundo, como a bicicleta e o veículo compartilhado, cada vez mais comuns na Europa, por exemplo.

Reboot, um evento para testar na prática as ideias de economia colaborativa

Reboot, um evento para testar na prática as ideias de economia colaborativa

Por mirar o futuro, o Reboot também foi desenhado em um formato diferente do habitual em eventos que tratam de grandes temas. Esqueça o roteirinho básico de palestra – coffee-break – almoço – e mais palestra. A estrutura é de exposição interativa, com um circuito sugerido por salas que dissecam seis temas pelo térreo do prédio do IED: Preparatório, Despertador, Observatório, Desincubadora, Mirabolatório e Desaceleradora.

Um dos temas que deve seduzir boa parte dos 2 000 participantes previstos é o Mirabolatório. Esse será um espaço de co-criação em que as pessoas receberão materiais didáticos sobre metodologias para a proliferação de ideias ou “ideação”, como dizem os Benfeitores (como a turma se autodenomina).

Quem esculpir uma cria por ali poderá inscrever seu projeto em um concurso de ideias promovido pelo evento. Os inscritos passarão por uma curadoria, e cinco serão selecionadas para uma etapa de votação aberta. O vencedor ganha um empurrãozinho para materializar a sua ideia: 10 mil reais de capital-semente — fruto de um crowdfunding divulgado com esta campanha e que terminou no último dia 17.

Já o Observatório apresentará cases de sucesso que comprovem essa revolução na forma de pensar e fazer economia. Serão exemplos nas áreas de política, educação, produção e consumo e até que representem transformações pessoais. Também haverão cerca de 10 empreendedores circulando à disposicão para um bom e antigo dedo de prosa.

No subsolo, o mergulho é mais profundo e um pouco mais tradicional, se é que é possível afirmar isso: uma agenda paralela com palestras que vão desde temas como meditação para liderança até um workshop sobre negócios sociais.

Se toda essa conversa parecer etérea demais para você, ótimo: você é o público-alvo do Reboot. Este não é um festival para entendidos do assunto. “Queremos tirar essa barreira de que esses conceitos são difíceis, excludentes e exclusivos”, fala Luisa. “Queremos chamar pessoas que não sabem que tudo isso pode ser trazido para o dia dia. O ato de colaborar tem que ser tão sexy quanto comprar uma Coca-Cola”, brinca.

BOM PARA QUEM? PARA TODOS

Vale destacar que o Reboot está sendo viabilizado por uma gama de parceiros, apoiadores e patrocinadores. O projeto ganhou um edital da Prefeitura do Rio de Janeiro, que assina o patrocínio. A Natura entrou como segunda patrocinadora, e o IED firmou parceria ao ceder o espaço.

O evento também conta com o apoio de duas grandes empresas: Itaú e Coca-Cola. Seria isso um contrassenso? “A gente acredita que dentro de cada empresa existem pessoas que querem fazer a diferença. Tem muita gente inquieta e que quer mudar, só que essa mudança acontece de pouquinho em pouquinho, processo formiguinha”, diz Luisa. No final das contas, é bom para o projeto, que se materializa, e para as empresas, que ganham visibilidade aliadas a algo inovador.

Neste lugar, entre amigos e interessados na nova economia, surgiram as ideias para o Festival Reboot. Faz sentido, né?

Neste lugar, entre amigos e interessados na nova economia, surgiram as ideias para o Festival Reboot. Faz sentido, né?

Por sua vez, Téo Benjamin, 26, coordenador de projetos da Benfeitoria, levanta uma questão interna, mas bastante pertinente em negócios sociais. “As pessoas às vezes confundem a Benfeitoria com uma ONG, por conta do nome e da nossa filosofia”, diz ele. Murilo até faz graça com a confusão: “Quando você entender o que é a Benfeitoria, me explica? Eu ainda estou nessa missão de defini-la”, diz, e em seguida concorda que até pela forma como eles se estruturaram, com essa flexibilidade de descobrir o que estão fazendo, é normal existirem dúvidas. Coisa de quem inventa o que não existia.

Para facilitar a compreensão deste organismo vivo chamado Benfeitoria, vale voltar um pouquinho no tempo. Desde que começou a se delinear como profissional, Murilo guardava a vontade de empreender. “Tinha uma gaveta cheia de ideias”, diz. Ele era o típico inquieto que via possibilidades de negócios nas respostas a perguntas como:

1) Por que o Brasil não exporta caldo de cana?

2) Por que não existe (à época) um espaço de aprendizagem amplo e aberto?

Escolheu o curso de Administração na faculdade, mas logo se envolveu com projetos mirabolantes na empresa júnior da instituição, com ideias inovadoras para, por exemplo, propaganda no metrô. Até que, em 2002, passou em uma seleção de estágio para a Coca-Cola. Na empresa, Murilo ganhou o que diz ser o bônus da vida: conheceu Tati Leite, sua esposa e sócia, e começou a desenhar o que seria um dos grandes projetos dos dois: a Benfeitoria. O outro é o filho, Téo, de apenas seis meses.

Naquela época, Tati tinha juntado grana para um ano sabático, enquanto ele acumulava caixa para um dia poder voar como empreendedor. Até as duas economias convergirem, foram muitas conversas, troca de insatisfações, e a participação em um curso em que tudo se mostrava possível.

“Bateu uma crise de propósito. Eu não queria passar 20 anos em uma empresa e depois contar para o meu filho que só vendi refrigerante na vida”

Já por volta de 2008, 2009, o casal se deparou com iniciativas de crowdfunding como o Kickstarter e o IndieGogo, que fizeram os olhos deles brilharem: o financiamento coletivo de recursos poderia viabilizar essas ideias. Pimba! A partir deste estímulo, eles fizeram um planejamento financeiro minucioso. Somaram os cofrinhos, o que deu 60 mil reais. Este valor era tanto para investirem na Benfeitoria, como para se sustentarem por um ano sem depender de nenhuma receita do projeto. Tati deixou a Coca primeiro, na fase de gestação e estruturação da Benfeitoria. Murilo, que à chegou a gerente de marca, pediria as contas pouco depois.

Da Coca-Cola para os perrengues do empreendedorismo social, o casal Murilo e Tati em sua nova vida

Da Coca-Cola para os perrengues do empreendedorismo social, o casal Murilo e Tati em sua nova vida

Assim, em abril de 2011 nascia a Benfeitoria, o primeiro site de crowdfunding gratuito do mundo. Sim, do mundo! Isso porque, para inserir o seu projetinho lá, não existe comissão, como é a regra deste segmento. E mais: na Benfeitoria é possível receber suporte para compreender melhor essse novo mundo do financiamento coletivo e acertar o alvo.

Uma das ferramentas de apoio são os tutoriais, didáticos e divertidos, que levam uma sigla assinatura curiosa: UFC, que nesse caso signica Universidade de Financiamento Coletivo. Nada mais é do que uma designação de equipe.

O resultado desse trabalho é uma maior taxa de alcance das metas financeiras do Brasil: em média 75% no ano passado, ante cerca de 50% nos outros sites, dizem os Benfeitores. Este ano está especialmente bom: 83% dos projetos obtiveram sucesso no financiamento coletivo. Até hoje, mais de 250 projetos passaram pela Benfeitoria, movimentado no ano passado cerca de 2,5 milhões de reais. Eles esperam dobrar este montante em 2015.

Um detalhe importante é o conceito dos projetos da Benfeitoria: todos são submetidos a uma curadoria e devem, de alguma maneira, gerar um impacto positivo para a sociedade, como diz Murilo:

“Estamos falando de projetos de cultura, de meio ambiente, sociais ou econômicos que tenham interesse coletivo, e também sejam inovadores”

Nessa linha, iniciativas meramente comerciais — como, por exemplo, abrir uma franquia de um fabricante de Mate — devem procurar outros abrigos.

A BENFEITORIA, NA PRÁTICA

Ok, então a Benfeitoria é um site de arrecadação coletiva, certo? Errado. É isso, e mais. Hoje, a Benfeitoria é um negócio social que funciona como um guarda-chuva para uma série de ações e iniciativas.

Murilo explica que a startup se desdobra em três núcleos: tecnologia; conteúdo e educação e projetos especiais. Tecnologia cuida do site Benfeitoria, que deve sofrer reformulação para lançar-se em uma versão 2.0, mais poderosa e encorpada com novas ferramentas. Também é responsável pelo mais recente “primo” dos Benfeitores, o Recorrente. Lançado há dois meses, o site é dedicado a projetos que requisitam financiamento contínuo e uma política de sustentabilidade a médio ou longo prazo. Nesse caso, cobra-se uma comissão por conta da longevidade das iniciativas.

Outro núcleo que fundamenta a Benfeitoria é o de conteúdo e educação. Aqui, encontram-se as palestras e consultorias que inclusive subsidiaram os custos do projeto como um todo por um tempo. Há um portfólio de conteúdos que já foram apresentados em eventos internos de empresas como Coca-Cola, Natura, Oi, Ampla e IED.

O Rio+ é um projeto-modelo do estilo Benfeitoria de trabalhar: promovendo o financiamento coletivo de ideias para o bem social

O Rio+ é um projeto-modelo do estilo Benfeitoria de trabalhar: promovendo o financiamento coletivo de ideias para o bem social.

O último núcleo comanda os projetos especiais e inclui, além do Reboot, uma que pode melhorar profundamenta a paisagem carioca: o Rio +. A ideia é gerar soluções para a cidade a partir de ideias criadas pelos próprios cariocas. O processo é exemplar do jeito Benfeitoria de trabalhar: em 2013 o projeto abriu uma convocação criativa para boas ideias em prol do bem-estar da Cidade Maravilhosa.

Das 1 700 ideias inscritas, 26 receberam o aval de um time de analistas de 120 pessoas. Agora a Benfeitoria está prestes a testar as 13 vencedoras na rua, em protótipo. Os resultados e avaliações serão entregues à Prefeitura do Rio, que terá a missão de escalar os modelos bem-sucedidos.

Colocar a ideia na rua antes de sua finalização é uma das novas rotinas dos negócios que faz parte da vida de startup, diz Téo:

“Não dá mais para ficar planejando a longo prazo, no mesmo modelo de negócio que considera milhões de coisas. Gestão de projetos, linha startup, são formas atualmente naturais e conectadas à internet, à velocidade das coisas e de fazer negócio”

Mas, alto lá, ninguém disse que a Benfeitoria nunca se deu mal. Murilo conta que até se adaptar a esse formato de disparar o tiro antes de apontar a arma perdeu algumas oportunidades. O perfeccionismo, por exemplo, o impediu de lançar seu empreendiemnto antes de outros concorrentes.

Sustentabilidade financeira também nunca foi, e nem é, um tópico fácil. Várias vezes Tati e Murilo cogitaram se não era o caso de um dos dois voltar ao mercado, para fechar a conta do casal. Nesses momentos difíceis, quando tomavam a decisão, recebiam um sinal de que a trilha estava correta por meio de uma parceria, um edital ou um novo projeto. Resilientes, hoje a Benfeitoria tem 14 colaboradores, e ampara sua receita nos patrocínios dos projetos, na colaboração espontânea, no caso do site de crowdfunding, e nas consultorias.

Pergunto a Murilo sobre o futuro, os próximos planos. Ele adianta que o Rio + deve entrar em um novo ciclo tão logo este se encerre, e diz que já existem conversas de projetos similares com o Espírito Santo e até em Portugal. Fala também da Benfeitoria 2.0 e em uma evolução do Reboot, um documentário ou série, ele não sabe ao certo.

A verdade é que o certo é o incerto. E esse é o grande barato por aqui.

draft card benfeitoria

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