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Com tecnologia nacional, a fabricante de drones Horus já bateu um recorde de equity crowdfunding no país

- 30 de outubro de 2018
Lucas Mondadori, Fabrício Hertz e Lucas Bastos saíram direto da faculdade para fundar a startup de mapeamento aéreo agrícola, que, em pouco mais de um mês, captou 2 milhões de reais.

Em apenas 34 dias, a Horus Aeronaves, que fabrica drones automatizados para substituir aviões tripulados no mapeamento de cultivos agrícolas, captou 2 milhões de reais junto a 111 investidores independentes no mercado. O valor e a velocidade alcançados, em agosto, são recorde para uma ação de equity crowdfunding (modalidade regulamentada este ano no Brasil, que transforma investidores em acionistas de novos negócios, com todos os seus benefícios e riscos).

A empresa, criada em Florianópolis por Fabrício Hertz, 31, Lucas Mondadori, 29, e Lucas Bastos, 28, todos engenheiros mecânicos, chamou atenção por promover a substituição de uma tecnologia de custo elevado por uma mais barata, prática e precisa. “Dependendo do tamanho da área agrícola, uma única prestação de serviço por aeronave tripulada pode custar o mesmo que adquirir um drone próprio que vai estar à disposição do produtor rural a baixo custo de operação”, fala Lucas Mondadori, sócio e diretor de tecnologia da empresa.

A história do trio apaixonado por aeronaves e eficiência começou em 2010, quando, ainda na Universidade Federal de Santa Catarina, formaram uma equipe de competição para concursos de aerodesign, uma atividade que atrai centenas de estudantes de graduação em Engenharia. Já em 2012, a aeronave criada por eles foi campeã de uma das três categorias do torneio brasileiro e, no ano seguinte, levaram o terceiro lugar em um campeonato mundial, honrando o chapéu de Alberto Santos Dumont.

A onda de popularização dos drones ainda estava dando os primeiros passos, principalmente para fins recreativos, quando eles perceberam o potencial de uso dos equipamentos para além de um brinquedo que voa e pode, também, fazer filmes e fotos aéreas. Os amigos correram atrás e, com o apoio do programa Sinapse da Inovação, da agência de fomento à pesquisa de Santa Catarina, conseguiram os primeiros 50 mil reais para desenvolver, na garagem de casa, em 2014, o protótipo.

ATÉ AS MELHORES IDEIAS PRECISAM DE INCENTIVO PARA DECOLAR

Sempre perseguindo a redução de custos, o aumento da eficiência e da resistência do equipamento, os sócios acabaram desenvolvendo um modelo que atende hoje mais de 500 produtores rurais em todo o Brasil e gerou mais de 4 milhões de reais em receita bruta total desde 2015. Nada mal para três jovens recém-formados e com pouca experiência profissional até ali. Fabrício, sócio e CEO da Horus, fala a respeito: “Para mim, foi natural, porque já tinha me preparado para empreender, era algo que eu buscava”.

E continua: “Claro, sempre avaliei a possibilidade de trabalhar em uma outra empresa, mas queria ter um negócio próprio e isso foi se desenvolvendo ao longo do tempo e, no momento oportuno, terminou virando realidade, unindo uma ideia com uma possibilidade de investimento, que é uma das coisas que geralmente barra os negócios”.

A imagem simula um drone da Horus sobrevoando uma plantação de milho.

Com o primeiro protótipo em mãos, já com o CNPJ criado e o nome — inspirado no deus dos céus do Egito antigo —, os engenheiros tiveram a Embrapa Instrumentação, de São Carlos (SP), como primeiro cliente a adquirir o equipamento aéreo capaz de elaborar mosaicos ortorretificados (calma, a explicação sobre essa palavra estranha vem a seguir!) com mais precisão e economia que os produzidos por levantamentos feitos por aviões convencionais ou mesmo satélites.

Os mosaicos são sequências de dezenas até milhares de fotos aéreas que, reunidas e integradas por ferramentas de georreferenciamento, produzem mapas do terreno desejado, gerando um efeito igual ao que pode ser visualizado, por exemplo, no sistema do Google Maps ou Earth. A ortorretificação é a correção de distorções existentes em cada foto, dando precisão ao mapa, inclusive com perspectiva em três dimensões para a visualização mais fácil de relevo, vegetação natural, florestas, plantações e hidrografia. Lucas lembra das primeiras batalhas enfrentadas pelo trio:

“O desafio foi escolher e integrar os componentes certos para operarmos de forma segura e, então, depois desenvolvermos o produto e comercializá-lo”

Ele ainda diz: “Tecnicamente, a parte mais complicada, no início, foi desenvolver a automação da aeronave para ela realizar todo o voo de forma automática a partir de um plano pré-definido”, conta. Todo procedimento no ar, a cerca de 120 metros de altura, é controlado, mas dispensa a participação humana, necessária apenas nos pousos e decolagens.

Segundo os fundadores, a estrutura dos drones, de fibra de carbono importada, utiliza a melhor tecnologia aeronáutica disponível para o modelo de asa fixa, que funciona de forma similar a um avião (diferentemente dos drones mais populares, os multirotor, que operam de forma mais parecida com um helicóptero). “Enquanto um multirotor tem autonomia para mapear cerca 25 hectares a cada voo, um asa fixa pode cobrir até 5 mil hectares, sem precisar de recarga”, diz Fabrício. Os valores de cada unidade variam de 60 mil a 150 mil reais, dependendo das especificações.

Comparado a um modelo importado, que seja equivalente em autonomia de voo e resistência, o equipamento da Horus é de duas a três vezes mais barato, de acordo com os sócios. Produzidos na fábrica da empresa, na capital catarinense, além de gerarem emprego e renda para técnicos brasileiros, os dispositivos contam com facilidades que motivam a manutenção do local de produção. Lucas fala mais sobre as vantagens da fabricação local:

“Florianópolis é um dos lugares mais propícios para se desenvolver tecnologia no país: tem incentivos fiscais, mão de obra qualificada e um ecossistema desenvolvido”

 Assim como os demais sócios, ele é nascido na cidade e circula entre a sede e uma filial recentemente instalada em Piracicaba (SP), gerindo um total de 30 funcionários.

ALÉM DE VOAR, OS DRONES PRECISAVAM CAPTAR DADOS RELEVANTES

Enquanto ainda tentavam fazer seus drones decolar e mapear, de forma automática, centenas de hectares de soja, milho, algodão, café ou eucalipto, já era hora de começarem a avançar na verdadeira mágica do serviço que oferecem: extrair das imagens aéreas informações e análises que auxiliem o produtor rural na tomada de decisão. Segundo o CEO, o aumento da produtividade agrícola tem variado entre 10% e 15%, enquanto a redução dos custos pode chegar a 25%, consequentemente, aumentando a lucratividade das lavouras a cada safra.

Pelo app da Horus, o agricultor consegue acompanhar dados como a quantidade de plantas existentes, seu estado de saúde, necessidade de irrigação etc.

Dependendo do pacote de serviços adquirido, as informações captadas pelos sensores podem indicar a quantidade de plantas existentes, seu estado de saúde, necessidade de irrigação ou adubação, identificando o surgimento de pragas e aspectos difíceis de se controlar em monoculturas. O modelo de cobrança varia dependendo do que foi contratado, mas custa de 2 a 6 reais por hectare mapeado (no caso das análises agronômicas).

Se as condições estiverem fora dos melhores parâmetros e sua correção não for feita de forma ágil, a cada dia, podem aumentar as perdas e prejuízos na lavoura. Por isso, a empresa recomenda que sejam feitos sobrevoos, em média, a cada 15 dias, durante as safras. As análises são geradas em cerca de 24 horas e permitem a ação rápida do produtor rural.

Recém-chegado de uma imersão no Vale do Silício, Lucas Bastos, sócio e diretor de Operações, é o que parece ter mais condições de situar o que significam os resultados técnicos alcançados pela empresa em pouco mais de três anos de operação comercial em um setor totalmente inovador:

“Nós temos, hoje, a aeronave de asa fixa mais eficiente do mundo e somos benchmark no mercado”

Seus concorrentes estão principalmente na Suíça, China e Estados Unidos, onde empresas similares buscam desenvolver equipamentos que consigam, ao mesmo tempo, ser o mais leves possível, voar pelo maior tempo e carregar o maior peso necessário para portar sensores de medição. O desafio do setor é que as máquinas possam, um dia, carregar até mesmo água, defensivos e fertilizantes para correção de problemas em tempo real.

A visita de Lucas à “Meca da tecnologia mundial” foi parte do prêmio que a startup ganhou na chamada Energy Start 2017, realizada pela multinacional de energia e gás italiana Enel. Anunciada em julho deste ano, a premiação também significou o investimento direto de 2,1 milhões de reais no negócio, um dos sete escolhidos entre mais de 700 concorrentes de todo o Brasil. O recurso deverá ser investido em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de aeronaves para monitoramento no setor energético, incluindo inspeções de redes de transmissão, torres, parques eólicos e painéis solares.

Esse não foi o primeiro nem o maior investimento captados pela Horus. Entre 2016 e 2017, foram realizados outros dois aportes significativos de empresas de venture capital: a catarinense CVentures ofereceu um valor protegido por sigilo, em troca de 7,3% da empresa, enquanto a paulista SPVentures aportou 3 milhões de reais no negócio, recebendo um montante sigiloso de ações. Já os 2 milhões levantados por equity crowdfunding foram aportados por meio da Eqseed, uma das nove plataformas eletrônicas de investimento coletivo registradas na Comissão de Valores Mobiliários. Voa, Horus.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Horus Aeronaves
  • O que faz: drones de alta performance e sistemas de análises agrícolas
  • Sócio(s): Fabrício Hertz, Lucas Bastos e Lucas Mondadori
  • Funcionários: 30 (incluindo um dos sócios)
  • Sede: Florianópolis
  • Início das atividades: 2014
  • Investimento inicial: R$ 50.000
  • Faturamento: R$ 4 milhões (desde 2015)
  • Contato: contato@horusaeronaves.com.br
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