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“Como deixei de ser a ‘Claudia do RH’ para me transformar em outra pessoa: eu mesma”

- 9 de fevereiro de 2018
Depois de 25 anos "sendo" o RH, Claudia Vaciloto conta como enfrentou o medo e a culpa (ao parar de trabalhar) e também a solidão (ao começar a empreender), até encontrar seu caminho.

 

por Claudia Vaciloto

Foram 24 anos na área de Recursos Humanos. Eu não imaginava que aquele primeiro estágio, enquanto ainda fazia faculdade, me levaria a construir uma carreira na área de RH por tanto tempo.

Fui passando por grandes empresas e, maiores que elas, eram meus desafios. Eles me preenchiam e me distraiam, até que me vi na diretoria de uma companhia que chegou a ter cinco mil funcionários. Depois de quase oito anos naquele cargo, acompanhei a venda da empresa para um grupo ainda maior. Ali, eu sabia que estava terminando essa fase na minha vida, esses longos anos que se transformaram quase que no meu sobrenome.

A “Claudia do RH”. Eu tinha me tornado isso. Percebi que tinha me colocado nessa “caixinha” e que tinha me perdido de mim mesma

Depois da venda, foram mais três longos anos até eu sair definitivamente da empresa. Foi um processo doloroso, que me levou a adoecer e a ver as pessoas adoecerem ao meu redor. Ao meu lado, eu via executivos com síndrome do pânico, depressivos, pessoas com medo da demissão… E eu? Eu, a “Claudia do RH”, enfrentava a maior crise de burnout (esgotamento por estresse) e fingindo que estava tudo bem.

Só algumas pessoas, muito próximas, sabiam que eu estava tomando remédios para dormir porque o estresse intenso me causava insônia. Depois, precisava levantar, ficar em pé e resistir a reuniões que pareciam “carnificinas de egos” tentando demonstrar que estava tudo bem. Eu respirava fundo e ia.

Confesso que foi o período mais difícil da minha carreira, e cada vez mais tinha certeza que não queria mais isso para mim. Que bom que os outros anos tinham sido de muita alegria, e amizades que carrego hoje na minha vida. Mas essa fase tinha terminado.

Desenhei minha saída e decidi me presentear com um período sem trabalhar, afinal, desde os 14 anos sem parar me sentia merecedora de um tempo. O famoso sabático.

Para a minha surpresa, quando me vi em casa, tendo todo o tempo para fazer qualquer coisa, eu simplesmente não sabia o que queria fazer

No começo, o “romântico” sabático me causou é medo. Lembro de uma tarde estar no parque, embaixo de uma árvore tentando meditar, e os pensamentos que me assombravam eram questionamentos recheados de culpa: O que você está fazendo aqui? Como assim não está trabalhando? Não está fazendo nada?

Foi então que percebi que precisava urgente me reconectar comigo mesma. O que era minha essência? Por onde andavam meus desejos e sonhos? Eu tinha sonhos? Percebi que tinha de fato me perdido de mim. O ano era 2014 e, ali, comecei um grande processo de resgate. O resgate de quem eu era. Aos poucos, comecei a me “descascar” do que eu não era (aliás, em um curso de escrita, esse foi o nome do primeiro texto que escrevi na fase “pós RH”: Descascando).

Era como eu me sentia. Fui me conectando com o que gostava, e tirando tudo que coloquei em mim mesma que não era meu.

Comecei a lembrar que gostava de cantar e tinha parado, gostava de pintar e não pintava, amava as artes de um modo geral e tinha me afastado dela. Fui fazer um curso lindo em Esalen, na Califórnia, sobre Espontaneidade e Criatividade através da pintura, para me “descascar” mais um pouco.

Lembrei da minha formação. Fiz Psicologia porque amava estudar o universo humano e também tinha abandonado a ciência que escolhi. Então, voltei para ela e, 20 anos depois, que surpresas lindas encontrei! Novas perspectivas, teorias, pesquisas, era um novo mundo todo para mim.

Neste processo, em 2015 comecei a me interessar por Jogos de Autoconhecimento. Eu não sabia muito bem que universo era esse, mas queria uma vida mais divertida e os jogos despertam isso nas pessoas. Podemos nos conectar conosco e com novos ensinamentos de maneira leve e lúdica.

Eu não queria mais uma vida chata. Queria voltar a brincar

O primeiro Jogo que conheci e me apaixonei, foi o jogo Miracle Choice. Um jogo de tabuleiro que nos ajuda a entender sobre qual ótica estamos escolhendo viver nossa vida: a do medo? Ou a do amor? Ele nos faz perceber que muitas das nossas escolhas estão arraigadas no medo. Por que sentimos tanto medo? Com esse jogo, percebemos que fazemos escolhas a partir do Ego e não de nossa essência que é livre e puro amor.

Foi mágico o que esse jogo fez na minha vida e, além de me tornar uma facilitadora certificada, me tornei treinadora dele no Brasil. E, então, outros jogos vieram e comecei a me aprofundar nesse mundo. Hoje estou cocriando com duas sócias uma plataforma de jogos, representando jogos incríveis e criando novos e vi um novo mundo se abrindo pra mim.

Outro momento transformador foi que também em 2015, comecei a me interessar pelas novas economias. Economia colaborativa, economia compartilhada, e como a forma de nos organizarmos para o trabalho estava mudando e rompendo barreiras e modelos de como empreendemos nossos negócios e nossa vida.

Nesta fase, decidi abrir minha casa para uma experiência de compartilhamento. Uma idéia que começou na Suécia em grupo no facebook, o Hoffice: consiste em pessoas abrirem eventos para que outras venham trabalhar em suas casas.

No primeiro encontro vieram sete pessoas que eu nunca tinha visto antes. Era gente das mais diversas profissões, mas com uma coisa em comum: todos estavam sentindo a necessidade de trocar. Eram pessoas empreendendo seus projetos e se sentido solitárias.

O exercício de empreender é muito desafiador, traz solidão. Quando compartilhamos nossas ideias e projetos em grupo sentimos a força e o poder que temos de nos ajudar e de exponencializar nossas iniciativas

Com esses encontros acontecendo ao longo do ano de 2015 em casa, percebi o quanto tínhamos o potencial de unir talentos para empreendermos em rede. Eu já tinha conhecido Oswaldo Oliveira, uma pessoa que tinha me feito acreditar nas infinitas possiblidades das conexões e do empreender-se em rede. Oswaldo nos deixou o ano passado, mas com ele ficou um grande legado, suas provocações fizeram muito grupos surgirem e muitas pessoas passaram a acreditar que somos multipotenciais e que podemos criar o trabalho que quisermos. E com essa inspiração, começamos a tematizar os encontros na minha casa e surgiu a ideia do NaSala.

Nesses encontros fui me conectando com pessoas incríveis que viraram meus sócios. O NaSala é uma organização em rede e acreditamos no poder do fluxo e experimentamos uma nova lógica de trabalho mais livre e horizontal. “Empreendemos em rede porque acreditamos na colaboração e no equilíbrio sistêmico. Conectamos diferentes talentos e temas, a fim de desenvolver projetos e iniciativas em nosso espaço e dele para o mundo”, diz nosso manifesto.

Desde então, tenho recebido tantas pessoas que, como eu, também tiveram momentos de desconstrução, sentiram medo, mas não deixaram de querer se abrir para novas possibilidades.

Não pertencemos a nenhuma “caixinha”. Nossa essência é livre. Podemos fazer escolhas mais conscientes a cada dia

A todo o instante. Da hora que acordamos até a hora de dormir. Sempre! Dia após dia. E a cada dia me conecto com mais pessoas e novas oportunidades se abrem. Hoje, quando me perguntam o que faço, tenho um pouco de dificuldade de responder, e acho até engraçado. Sigo vivendo meu propósito de hoje. E, como dizia meu mestre Oswaldo Oliveira, parafraseando Osho: “O propósito da vida é viver”.

 

Claudia Vaciloto, 48, é psicóloga, facilitadora e treinadora do Jogo Miracle Choice no Brasil. Fez carreira em RH por 25 anos passando por empresas como Accenture, EDS, VR, Ability Trade Marketing, onde atuou como diretora por 10 anos. É sócia do NaSala, iniciativa que visa inspirar pessoas e organizações a vivenciarem o poder do fluxo.

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