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Em busca de mais afeto na literatura, Ketty Valêncio criou a Africanidades, que precisou virar um negócio

- 7 de março de 2018
"Eu, mulher negra, resisto", diz a camiseta de Ketty Valêncio, fundadora da Livraria Africanidades (Foto: Camila Honorato).
"Eu, mulher negra, resisto", diz a camiseta de Ketty Valêncio, fundadora da Livraria Africanidades (Foto: Camila Honorato).

“Eu sentia falta de um projeto que mostrasse afeto na literatura. Tive uma infância com várias complicações e me apoiei em mulheres fortes para seguir em frente. Usei os livros como válvula de escape, mas foi muito difícil eu me ver representada”, diz a bibliotecária e há pouco tempo empreendedora, Ketty Valêncio, de 35 anos. Ela criou, primeiro, um modesto e-commerce para revender especificamente livros de autores e autoras negros. Graças ao sucesso — o que confirma que a dor dela era a de muitos —, foi levada a tornar mais sério o seu empreendimento e, com isso, a Livraria Africanidades passou a existir também fisicamente, na capital paulista.

Ela criou a Africanidades para entregar ao mundo algo que sentia falta: “A literatura precisa ser mais acolhedora”. Ketty nasceu na periferia e conta que aprendeu a amar os livros na escola, mesmo que não se sentisse representada, nem nas tramas nem nos personagens, das histórias que lia. As dificuldades  também estavam fora dos livros, como se vê nas lembranças dela sobre o período: “O aluno não quer estar na escola porque há um quê de perversidade, principalmente para quem tem a pele preta. Os passeios, as brincadeiras e as festas eram prioridade das pessoas brancas. Na adolescência, passei a me deparar com a objetificação do corpo da mulher negra. A meu ver, há muito da questão do racismo na questão da saúde mental de quem é negro no Brasil, já que a nossa solidão está intrinsecamente ligada à depressão”.

A decoração da livraria foi cedida por amigos de Ketty, apoiadores de sua proposta (Foto: Camila Honorato).

A decoração da livraria foi cedida por amigos de Ketty, apoiadores de sua proposta (Foto: Camila Honorato).

Enquanto via a romantização e a objetificação da mulher negra nas obras que os professores indicavam à classe, como Iracema, de José de Alencar, e O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, Ketty começou a buscar, por conta própria, outras referências literárias. E que encontrou alento nas palavras duras de autoras negras como Maria Firmina dos Reis e Carolina de Jesus (que está em um quadrinho na parede da Africanidades e que Ketty pediu para segurar, na foto de abertura desta reportagem).

Já mais madura, formada em biblioteconomia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP-SP) e com MBA em Bens Culturais pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), ela diz que teve a certeza de que o mercado editorial não mudaria sua lógica por conta própria:

“As editoras endossam a venda de determinados autores”, diz. Dados de uma pesquisa realizada no ano passado, pela UnB mostram a escassez de autores (e especialmente autoras) negros entre os títulos publicados no país. Dos 692 livros nacionais analisados, publicados entre 1965 e 2014, mais de 70% foram escritos por homens, 90% deles brancos. E, sobre representatividade, os dados mostram que nas histórias publicadas por esses escritores, 60% dos protagonistas são homens e, destes, 80% são brancos e 90% heterossexuais.

QUANDO UMA DOR SE TRANSFORMA EM UM NEGÓCIO

Quando estava fazendo seu MBA, em 2014, Ketty teve a chance de colocar em prática a vontade, cada vez mais latente, de dar visibilidade a autores negros e prototipou o que viria a ser a Africanidades. Na época, ela vendia fanzines de cunho político da Anarcopunk. A iniciativa chamou a atenção e ela sentiu que havia leitores, ou seja, consumidores, interessados nisso. Era hora de profissionalizar o incipiente negócio.

Inspirada em autoras negras contemporâneas, como Angela Davis, Alice Walker e Virginia de Nascimento, passou então a estudar formas de vender livros deste segmento. Conversou com editoras e solicitou exemplares para revenda em um e-commerce. Cerca de 2 mil reais foram usados como investimento inicial na compra dos primeiros exemplares e no o desenvolvimento do site.

Mais do que empreendedora, Ketty se vê como um agente impulsionador da educação da população jovem e negra. A Africanidades vem ganhando destaque e apresentando resultados financeiros satisfatórios, diz, com um faturamento mensal de 4 mil reais. Mas ela ainda atua como bibliotecária no Sesc Osasco, na Grande São Paulo e encara o ofício como responsabilidade social: “Ser bibliotecária tem um lado educativo e transformador. Muitas crianças e adolescentes chegam até mim, então, posso criar acervos e incentivar a leitura das literaturas negra, LGBT e feminista, por exemplo”.

Para ela, é importante dar voz a obras de ficção e estudos que mostrem a cultura negra de uma ótica diferente. “É errado a gente acreditar na visão pessimista da herança escravocrata, de que a violência contra os negros é natural nas ruas e até nas relações afetivas. É errado a gente acreditar que não pode ser feliz”, afirma, ao falar sobre o que acredita ser literatura:

“Viver outras vidas com a leitura é uma forma poderosa de cura”

O acervo da Africanidades é variado e vai desde obras infantis a livros adultos, como Sangue Negro (57 reais), antologia poética da moçambicana Noêmia de Sousa, e Laços de Sangue (45 reais), de Octavia E. Butler, ficção científica que conta a história de uma mulher californiana transportada para a uma fazenda escravista no sul dos Estados Unidos.

Nas estantes da Africanidades, obras infantis e adultas, com foco na população negra (Foto: Camila Honorato).

Seu relacionamento com as editoras, como a Odysseus e a Morro Branco, fornecedoras de parte dos livros comercializados, acontece na base da consignação. Da venda dos exemplares, 40% do lucro vai para a Africanidades e o restante é repassados para as editoras, sendo que essa margem não é fixa e pode variar conforme os meses do ano. Além disso, ela publica exemplares adquiridos diretamente com autores independentes. Nestes casos, a porcentagem do lucro fica entre 30% e 50%.

QUANDO SEU SUCESSO É SINAL DE UMA FALHA NO SISTEMA

Dentre as dificuldades que encontrou ao empreender, Ketty cita as questões políticas de editoras maiores, que a seu ver seguem priorizando determinados perfis (de autor, de temática). Além disso, diz, o preço elevado do livro físico no Brasil ainda é um empecilho para a livraria que não trabalha com e-books. Mas ela se incomoda, ainda que paradoxalmente, é com o próprio sucesso:

“A Africanidades existe por causa de uma falta enorme de espaço para esses autores no mercado. É triste essa deficiência ter promovido a minha ascensão”

A atuação da livraria também se estende em projetos complementares. Ketty integra o Mercado Negra, projeto que viabiliza o empreendedorismo de mulheres negras promovendo feiras e encontros. Hoje, o site da Africanidades segue como a principal fonte de renda da bibliotecária, mas aos poucos, vai cedendo espaço para a comercialização feita no espaço físico, recém-inaugurado, na Casinha Lá do Mato, compartilhado por outras empreendedoras mulheres, e sede da saboaria natural de mesmo nome.

Na loja física, que ocupa um dos cômodos da casa, Ketty atende a compradores que chegam com hora marcada, e também realiza alguns eventos. Está nos planos ampliar o espaço físico da Africanidades e “promover outras linguagens artísticas”, comercializando produtos como quadros e camisetas, além de ceder o ambiente para eventos que dialoguem com a cultura negra e, como fala, incentivem  o contato físico entre as pessoas. “Há um grande valor nos encontros artísticos, no fato de alguém sair de casa para comprar um livro ou usar esse espaço para conversar, conhecer outras pessoas. E um ato simples, porém transformador”, diz, e segue transformando a própria vida e a da muita gente.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Livraria Africanidades
  • O que faz: Vende livros de autores negros
  • Sócio(s): Ketty Valêncio
  • Funcionários: 1 (a fundadora)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2014
  • Investimento inicial: R$ 2.000
  • Faturamento: R$ 4.000 por mês, em média
  • Contato: livrariafricanidades@gmail.com
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