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Lugar de mulher é onde ela quiser: como a rede feminista Maternativa promove o empreendedorismo materno

- 23 de outubro de 2019
As sócias da Maternativa: Ana Laura Castro (à esq.) e Vivian Abukater.

No Brasil, as mães são 60% das mulheres economicamente ativas. Um estudo de 2016 da Fundação Getulio Vargas (FGV), porém, mostra que metade das profissionais que tiveram suas trajetórias analisadas na pesquisa estava fora do mercado de trabalho 12 meses após o início da licença-maternidade. Os principais motivos: demissão, falta de vagas em creches ou, ainda, renda insuficiente para contratar uma babá.

É nesse contexto que atua a Maternativa. Criada em 2015, a rede conecta mais de 24 mil mães por meio de uma página no Facebook. As participantes trocam informações sobre temas como os trâmites para a abertura de uma empresa, dicas de finanças e formas de se anunciar e vender seus produtos. Ana Laura Castro, 34, mãe de José, de 5, e fundadora do projeto, explica:

“Muitas mães não se acham capazes de empreender na sua área de conhecimento e acabam se voltando para o ambiente doméstico, onde a mulher sempre foi colocada”

Pedagoga de formação, Ana Laura trabalhou por três anos como Community Manager de uma plataforma de economia criativa — e se viu desempregada após descobrir que estava grávida. E assim, com uma demissão, tinha início a gestação da Maternativa.

UMA DAS PARTICIPANTES MAIS ASSÍDUAS DA REDE VIROU SÓCIA DO NEGÓCIO

A rede do Facebook é fechada. Quem quer fazer parte responde a duas perguntas (“Você entende que esta é uma rede feminista?” e “Você é mãe?”) e preenche o email de contato. Ana Laura valida cada perfil “na unha”, um a um, assim como a aprovação de cada post.

Felizmente, ela não precisa mais fazer isso sozinha. Graduada em Comunicação Social, com pós em Administração, Vivian Abukater, 39, atuou como executiva de marketing e consultora por uns 15 anos. Mãe de dois meninos (Felipe, de 7, e Heitor, 4), ela conheceu a Maternativa em 2015, por meio do boca a boca, e se tornou umas das participantes mais assíduas da rede — até ser convidada para integrar o time e se tornar sócia.

Vivian diz que aprendeu com a vida que a maternidade é a melhor escola de negócios que existe.

“Muitas pessoas ainda têm a percepção de que as mulheres empreendem, mas fazendo docinhos, crochê. Quando a rede tem acesso a outras referências, isso inspira”

Nessa jornada elas toparam com negócios maternos em diversos segmentos, da marcenaria à alimentação orgânica. Um exemplo são as mães-empreendedoras Alê Abdalla e Rosângela Alves, que fazem parte da rede desde 2015, antes mesmo de fundarem a Pitaya, consultoria e sex shop para mães.

Além da troca de informações, a Maternativa também promove o empreendedorismo materno por meio de conteúdos, feiras e eventos — até hoje, foram cerca de 30 encontros presenciais, impactando diretamente 800 mulheres.

AS SÓCIAS RECEBERAM MENTORIAS PRESENCIAIS NUM PROGRAMA DO FACEBOOK

As sócias gostam de enfatizar o engajamento da Maternativa (medido pelo número de pessoas que interagem num determinado período). “A média das comunidades no Facebook varia entre 8% e 10%”, diz Vivian. “O nosso engajamento é de 80%!”

No segundo semestre de 2018, o negócio ganhou um impulso extra da plataforma de Mark Zuckerberg: a Maternativa foi escolhida como uma das 115 residentes do Facebook Community Leadership Program, que premia e incentiva comunidades de impacto social ao redor do globo.

O programa rolou de novembro de 2018 a setembro deste ano, com treinamento e duas etapas de mentorias presenciais, no Vale do Silício, a mais recente no fim de julho. Ana Laura hoje faz parte do grupo de fellows do projeto.

Vivian, por sua vez, teve a chance de tietar e receber os elogios de Sheryl Sandberg, chefe operacional e primeira mulher no conselho de administração do Facebook (olha as duas em foto publicada no Instagram da Maternativa, em junho, em Menlo Park, na Califórnia).

Na visão das sócias, o que garante a força e a coesão da Maternativa é a clareza de princípios da rede — e de propósito das participantes. Segundo Vivian:

“Quando você não tem o seu propósito claro, ou é uma causa falsa para você, não adianta ter milhares de pessoas na sua rede. Seu propósito precisa ser vivido, em toda a sua essência”

A participação no Community Leadership Program garantiu às empreendedoras da Maternativa acesso a ferramentas ainda em teste pelo FB e a oportunidade de dialogar com especialistas sobre temas como a construção e manutenção de comunidades engajadas.

Outro ganho foi o prêmio de 50 mil dólares para investir em conteúdos, eventos, cursos e workshops (como o de planejamento financeiro, ministrado por Caroline Moreira, da Negras Plurais).

PARA ALAVANCAR A REDE, ELAS INVESTEM EM EVENTOS PRESENCIAIS

“A Maternativa não é um espaço de vendas, mas sim de troca e aprendizagem sobre o empreendedorismo”, esclarece Ana Laura. No entanto, as sócias perceberam que as mães da rede queriam falar sobre o negócio e suas dificuldades — e precisam vender.

Para atender este lado comercial, uma solução foi usar o Instagram da Maternativa, separando os conteúdos por hashtags, como a #compredasmaes (que em setembro se desdobrou numa nova página, com curadoria e alguns negócios no catálogo).

Outra forma de dar visibilidade e alavancar os negócios da rede foi por meio dos eventos presenciais. Em dezembro de 2018, selecionadas para a Ocupação, programa do Red Bull Station, as sócias montaram uma feira de empreendedorismo materno, realizada na sede da Red Bull em um edifício tombado no Centro da capital paulista.

Leia também: A maternidade pode arruinar o sexo? É isso que a Pitaya, consultoria e sex shop para mães, quer mudar

“Queríamos mostrar as potencialidades, mas também pensar um evento que fosse um lugar de troca, de conversa, sem essa cara de ambiente materno, rosinha, bobo”, diz Vivian, reforçando o cuidado em evitar clichês.

A feira no Red Bull Station atraiu 400 pessoas em um dia. A programação paralela incluiu as artistas Anelis Assumpção e Ava Rocha, a redatora e ativista Joana Mendes e a empreendedora Bárbara Soalheiro, da Mesa (antiga Mesa & Cadeira). Ninguém cobrou cachê. “Temos uma curadoria foda de mulheres que vão de graça aos nossos eventos só porque acreditam na causa e na gente”, afirma Ana Laura.

POR MAIS DIVERSIDADE, ELAS LANÇARAM UM PODCAST SOBRE MÃES NEGRAS

O formato da feira de empreendedorismo foi replicado em abril deste ano no Barchef, em Recife, e em agosto no Espaço Cultural Renato Russo, em Brasília. Somadas, as três feiras reuniram 80 expositoras, 260 palestrantes e umas 1 200 pessoas.

“Muita coisa já acontece no eixo Rio-São Paulo”, diz Ana Laura. “Precisamos chegar a lugares onde as mulheres precisam ainda mais de rodas de conversa e espaço. Afinal, somos uma rede nacional.”

A fundadora da Maternativa reconhece que a rede precisa se diversificar ainda mais. Das 24 mil mães da comunidade, quase metade (48%) está em São Paulo. As demais estão espalhadas por cerca de 100 cidades pelo Brasil.

“Temos clareza de que a rede não representa a realidade da mãe brasileira. Sabemos que a maior parte da nossa comunidade é formada por mulheres brancas, classe média, paulistanas da Zona Oeste”

A criação de conteúdos voltados especificamente a mães negras é uma das respostas para mudar esse quadro. No dia 25 de julho deste ano, data que marca a Marcha das Mulheres Negras Brasileiras, em parceria com a jornalista Maitê Freitas, a Maternativa pôs a série em podcast “Mães Pretas: empreender pelo bem viver”, com um total de nove episódios.

PALESTRAS E CONSULTORIAS PARA EMPRESAS AJUDAM A MANTER O NEGÓCIO

Para se manter, a Maternativa vende palestras e consultorias para clientes corporativos com temas relacionados à maternidade e trabalho. Na semana do dia das Mães, por exemplo, rolou uma roda conversa na GE (com plateia majoritariamente masculina e, segundo as sócias, muito atenta e engajada). Elas também produzem conteúdo sobre para plataformas de marketplace, como o e-commerce Dinda e a Zôdio, do grupo da Leroy Merlin.

 

O dinheiro das empresas é bem-vindo e necessário, claro, mas elas não permitem algumas ativações, como banner nos seus canais digitais, por exemplo. Segundo as sócias, nem toda companhia que abrir as portas para um treinamento da Maternativa terá sua marca exposta em um evento promovido por elas:

“É o tal do ‘walk the talk’. O que você, como empresa, vai de fato fazer por este grupo? Ou seja: não vem botar seu banner aqui, fingir que é legal e, na vida real, não fazer nada  para mudar o status quo”

Ana Laura e Vivian avaliam que as empresas no país se encontram em estágios diversos de evolução. Algumas poucas olham com mais cuidado para a questão da maternidade — mas a maioria não tem nem ideia do que significa a volta de uma mulher para o trabalho.

RECÉM-LANÇADA, UMA CARTILHA ORIENTA SOBRE BOAS PRÁTICAS NO TRABALHO

Pensando nisso, na segunda quinzena de outubro a Maternativa lançou uma cartilha de boas práticas para empresas que desejam construir um ambiente de trabalho justo para mães. O material, gratuito, foi desenvolvido por meio da escuta com mulheres e ajuda de pesquisadoras acadêmicas e profissionais de Recursos Humanos.

Uma questão problemática em várias empresas é a falta de salas de amamentação. “Muitas mães tiram o leite no banheiro e têm que jogar fora porque não tem onde guardar. A maior parte das mulheres volta a trabalhar quando o bebê tem apenas quatro meses. A OMS recomenda amamentação exclusiva até os seis meses”, diz Ana Laura.

Outro ponto é a falta de clareza dos RHs das empresas quanto às orientações legais e a volta ao trabalho, após a licença maternidade. “É preciso deixar claro para esta profissional o que está previsto para o período de licença, o que será feito do cargo dela, o que ela deve esperar na volta”, diz Vivian. “Quer dizer: jogo limpo e transparente.”

 

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DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Maternativa
  • O que faz: Rede de apoio, formação e informação sobre maternidade e trabalho.
  • Sócio(s): Ana Laura Castro e Vivian Abukater
  • Funcionários: 2
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2015
  • Faturamento: R$ 250 mil (2019)
  • Contato: [email protected]
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