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“Sempre trabalhei em áreas dominadas por homens, mas nunca deixei que isso me intimidasse”

- 14 de dezembro de 2018
Priscylla Spencer em Istambul, cidade onde passou um período sabático de três meses para repensar os rumos de sua carreira.

 

por Priscylla Spencer

Imagine-se trabalhando no mapeamento de minas, no interior do Pará, em meio à Floresta Amazônica, debaixo de um sol ardente, com botas e capacete, e ainda, com uma turma de homens e somente você de mulher. E mais: que tal morar em uma cidade que possui uma cerca em todo seu perímetro para evitar a entrada de onças? Imaginou? Este é o começo da minha trajetória para me tornar independente 18 anos atrás.

Nasci em Natal e morei até os 17 anos na cidade vizinha de Parnamirim com meus avós maternos, pois minha mãe estava em São Paulo trabalhando, como se diz, para dar uma vida melhor a mim e ao meu irmão. Desde pequena, eu sempre quis conhecer o mundo.

Costumo dizer que tenho uma alma masculina, pois sempre ingressei nas áreas mais difíceis para as mulheres e essencialmente dominada por homens

Primeiro, fui estudar em uma escola técnica, na área de Geologia e Mineração, com habilitação em Pesquisa Mineral, tendo como maior parte de meus colegas de turma alunos do sexo masculino. No último ano, a Vale veio buscar uma turma de estagiários para trabalhar na Serra dos Carajás. Foi ali que vi minha primeira oportunidade de ir para o mundo! Mesmo com a dor de ficar longe da família, não tive dúvidas: uma das duas vagas na minha especialização, disputada entre três Estados, seria minha. E foi!

Eu tinha 17 anos e era a minha primeira experiência longe do lar. Foi incrível como amadureci. Morava em uma república com mais cinco meninas. Ali também começava o aprendizado de dividir espaço com pessoas desconhecidas e de suportar as diferenças. Naquela cidade de apenas 5 mil habitantes, onde todos sabiam da vida de todo mundo, essa convivência foi um desafio.

Eu fazia mapeamento da mina, que consiste em descrever os minérios das frentes de lavra a cada dez metros. Eu marcava e os topógrafos captavam a coordenada para, depois, aplicar ao software. A minha chefe era uma mulher e, muitas vezes, me acompanhava nos mapeamentos. Mas em outras eu ia sozinha.

Eu era respeitada pelos homens, tirando o fato de ser chamada de “a mulher do bigode loiro”

Como sou muito branca, debaixo daquele sol ardente e meus pelos do rosto brilhavam. Fiquei em Carajás por seis meses e, no final do ano 2000, resolvi vir para São Paulo. Eu queria mais, queria fazer faculdade. Fui, então, para a capital paulista morar com a minha mãe. Escolhi prestar Engenharia de Produção (turma, mais uma vez, formada na maioria por homens). No terceiro ano, consegui um estágio no Grupo Pão de Açúcar. No GPA, trabalhei na área logística de transportes e engenharia logística. Nem preciso falar que também era um universo masculino. Trabalhava durante o dia e cursava a faculdade à noite.

Quando me formei, decidi sair da empresa. Queria novos desafios e, após um tempo, veio um chamado diferente para uma entrevista. Era de um escritório de advocacia. O que eu faria dentro de um escritório de advocacia? E como eu me portaria diante de advogados? Que roupa eu usaria para entrevista?

Como sempre gostei de desafios, comprei um terninho risca de giz e arrisquei. Foi uma verdadeira sabatina, com os quatro sócios do escritório. No dia seguinte fui contratada. Meu primeiro desafio foi mapear todos os fluxos do escritório, em uma semana. Apresentei o trabalho para os sócios e eles gostaram. Desenvolvi uma forma única de apresentar fluxogramas (juntei o aprendizado da faculdade com a experiência de engenharia logística adquirida no Grupo Pão de Açúcar). Depois de dois anos, fui promovida a coordenadora e, no ano seguinte, a diretora das áreas administrativas da operação. Mas não pensem que foi fácil.

Vocês acham que os advogados aceitavam fácil as minhas sugestões? Uma engenheira, mulher, metendo o dedo na área deles?

Mas eu sempre lembrava da frase de um dos sócios: “Sei que você tem uma mão de ferro, então use-a”. No final, eles aceitavam e respeitavam as minhas decisões. Em agosto de 2011, no entanto, decidi pedir demissão. Queria ter um negócio próprio. Muitos me chamaram de louca. Outros me parabenizaram pela coragem de trocar algo certo e “confortável” pelo incerto. Fui empreender. Fundei a Spencer Gestão de Processos e me lancei no mercado como especialista em gestão de processos para escritórios de advocacia.

Uma entrevista para uma revista jurídica e uma reportagem no jornal Valor Econômico me trouxeram os primeiros clientes. Comecei bem! Consegui me destacar no mercado como engenheira que aplica ferramentas dessa área no meio jurídico. Porém, após um ano nessa jornada, percebi que não estava feliz. Queria viajar. Fui, então, passear na Turquia com a minha mãe. Foram 15 dias maravilhosos. A partir daí, tudo mudou! Me apaixonei pela Turquia e sua cultura. Voltando ao Brasil, decidi que um dia iria retornar àquele país.

No início de 2013, juntei o resto das minhas economias, vendi meu carro e decidi viver um período sabático em Istambul

Fui sozinha para um país com predominância muçulmana. Começava ali um reencontro comigo mesma. Foi lá que me desfiz da “máscara” de executiva e vivi como uma menina desbravando uma cidade na qual me sentira em casa, sem nunca ter vivido lá. Foram três meses mágicos.

De volta ao Brasil, meu plano era trabalhar para fazer uma grana e retornar mais uma vez a Istambul. Porém, próximo ao final do ano, reencontrei um conhecido, com quem tive um breve relacionamento em 2011. Mas esse reencontro seria diferente. Logo veio o pedido de namoro e em menos de um ano estávamos morando juntos. Me apaixonei e me deixei levar. Ambos maduros e decididos, deixamos fluir.

Retomei a consultoria, pois a veia empreendedora falou mais alto. Em fevereiro de 2015, nos casamos. Denis, meu marido, me ajudou na retomada da consultoria. Mas eu me sentia um pouca confusa em relação à minha atuação. Aquele público jurídico não me apetecia mais. Seria isso? Busquei mentorias junto à Rede Mulher Empreendedora e logo me veio à cabeça um outro projeto.

Criei uma loja online de pashminas turcas, que me trouxe grande satisfação devido à conexão com a Turquia. Ao final de 2015, veio a grande novidade: eu estava grávida. Meu Deus, meu maior sonho começava a ser tornar real! Eu me tornaria mãe! Em julho, nasceu Pedro, um anjo de luz em nossas vidas! Nunca imaginei sentir um amor tão avassalador que parece não caber no peito.

De 2016 até o início 2018, fiquei completamente afastada dos negócios. Decidi ficar em tempo integral com meu filho até ele completar 1 ano e 6 meses. Foi um período intenso, pois me afastar “do mundo” não foi tarefa fácil! Em março de 2018, decidimos colocá-lo na escolinha para eu retomar a minha vida profissional e para ele também iniciar seu processo de vínculos com outras crianças.

Após ser mãe, me vi completamente perdida. Como recomeçar? Faria algo do zero? Voltaria com a consultoria? Como iria cuidar de tudo? Casa, família, filho e trabalho?

Ainda estou me adaptando a esse novo mundo, mas hoje posso dizer que nesse período aprendi muito! Sou outra mulher, com muitos projetos diferentes dos anteriores, mas com a mesma vontade de criar e desenvolver algo visando o bem da humanidade. E agora com uma prioridade: meu filho.

Continuo com a consultoria e com clientes na área jurídica, não tem jeito! Mas sigo com outros projetos em paralelo. O mais recente é a minha página Temas que Provocam, com a finalidade de despertar a reflexão das pessoas sobre temas importantes para a nossa evolução, entre eles: educação não linear e suicídio infantil. E sigo, a cada dia, aprendendo. Com tropeços e dificuldades e tropeços no meio do caminho? Sim, mas com muita vontade de continuar descobrindo o novo. Sou uma “aprendedora” da vida.

 

Priscylla Spencer, 37, é engenheira especialista em Logística e Gestão de Projetos. É fundadora da Spencer Gestão de Processos e cofundadora da SGC Gestão de Processos e Internacionalização.

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