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Como o hub/sp busca conectar startups e o governo para, juntos, resolverem desafios públicos

- 14 de março de 2019
Os idealizadores do modelo do hub/sp: Humberto Conti, Pedro Pugliese e Camilo Barros na entrada do espaço, localizado no Parque Tecnológico do Jaguaré, em São Paulo (foto: Pedro Fortino).

Mais de uma vez, Camilo Barros, 43, Humberto Conti, 33, e Pedro Pugliese, 33, tiveram de explicar a seus pares do ecossistema empreendedor por que decidiram colocar em segundo plano empreitadas bem-sucedidas na iniciativa privada para “se intrometerem” na estrutura do Poder Público. Uma dica do motivo de terem escolhido esse caminho vem da fala de Pedro:

“É preciso mudar a cultura, o mindset. Mas enxergamos que, agora, vital mesmo é dar acesso ao que já está disponível”

Sabe aquela frase popular cheia de ranço e preconceito: “do governo eu quero distância”? Que atire a primeira pedra quem nunca pensou assim. Pois em meados de 2018, a chave mental do trio girou de vez e eles se debruçaram na criação do projeto do hub/sp — um centro de inovação inaugurado em janeiro deste ano, na zona oeste da cidade de São Paulo.

Com infraestrutura física, conteúdos diversos e suporte a negócios, o projeto une a academia (inicialmente, mas não só, a USP, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas, o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares e o Instituto Butantan, fisicamente mais próximos do local); o Poder Público, por meio das 24 secretarias de governo do Estado de São Paulo; a iniciativa privada, através de marcas mantenedoras e parceiras; e os empreendedores.

INOVAÇÃO PÚBLICA E COM OLHAR ESPECIAL PARA A PERIFERIA

O intuito é “dar acesso e conectar todos esses atores” do jogo econômico para impulsionar o desenvolvimento de startups que tragam soluções para desafios nas áreas de saúde, mobilidade urbana, educação, turismo e comunicação. Para cumprir a promessa, o hub/sp não fugiu do visual a la Silicon Valley: grafites na entrada, pufes espalhados, escorregador no meio do salão, gente jovem, gente não tão jovem… enfim, uma mistura geral, farta e com potencial para inovar.

Entre os eventos promovidos pelo hub/sp está o Happy Hour no Deck (foto: Gisela Domschke).

Os meios são os já consagrados: espaço de coworking (a novidade deste é a gratuidade) com 110 posições de trabalho, salas de reunião, treinamento e auditório; Espaço Maker, montado na área externa, em um container perto do jardim, para receber empreendedores e, também, estudantes da rede pública em oficinas agendadas; e eventos permanentes e gratuitos de disseminação de conhecimento como F’ckups (encontros em que membros da comunidade do hub/sp falam sobre suas experiências de fracasso), Super Talks (treinamentos abertos ao público, com inscrição prévia), Jam no Deck (treinamento aberto ao público, sem inscrição prévia) e Happy Hour no Deck.

Além disso, um Programa de Aceleração com duração de três meses, chamado hub/x, foi montado pelo futurista Luiz Candreva, 32, Head de Inovação do espaço. Startups selecionadas para a residência não recebem investimento e também não pagam para estar no coworking. O período e a permanência ou não das startups após esse primeiro ciclo é ajustável. Segundo Luiz, esse sistema foi determinado para permitir rotatividade das posições, caso alguém não se adapte à demanda esperada, além de maior amplitude de entrega de soluções.

O primeiro batch de aceleração recebeu inscrições em dezembro de 2018 e foi iniciado em janeiro. Conta com 26 startups participantes, entre elas: Agrimart,  Birdymee, CosmoBots, Courri, Datalogix, Eunos, FindUp, NumenuSuperplayer e VRMonkey. Nove delas estão em early stage, dez em fase de growth e sete estão prontas para escalar. As áreas mais representadas entre as empresas são: Data Science, marketplace e mobilidade/logística. Luiz, que já contou sua história aqui no Draft, diz: “Fizemos um modelo equity free, cash free e bullshit free.” Ele continua:

“Aqui, as únicas coisas que os empreendedores não têm gratuitamente é preguiça e moleza. Exigimos entrega e presença, que é diferente de estar aqui todos os dias”

A meta para 2019 é realizar pelo menos uma inovação para cada secretaria de governo, não importando se ela terá impacto micro e interno ou macro e amplo para o cidadão lá da ponta. Humberto, um dos responsáveis por Relações Governamentais, fala de um ponto bastante caro ao trio capitaneador do hub: a proposta de aproximar as comunidades da periferia, seus problemas e possíveis soluções ao ecossistema. Uma das formas achadas é procurar garantir que 20% das vagas do hub sejam ocupadas por empreendedores de comunidades. Ele afirma:

“Os encontros têm de ser provocados, pois naturalmente eles não acontecem. Quando desenhamos o hub sabíamos que não poderíamos ser um clubinho”

Ele ainda diz: “Fizemos parcerias com empresas de capacitação como Empreende Aí e temos negociações com parceiros como o Echos para facilitar o desenvolvimento de empreendedores da periferia aqui dentro”.

Em uma das pontas da rosa dos ventos do hub/sp encontra-se o Poder Público. Segundo Pedro, que também atua na área de Relações Governamentais, o governo tem duas grandes responsabilidades e desafios. Primeiro, abrir para a sociedade os próprios dados de forma tangível e inteligível. Segundo, trazer as dores do Poder Público, compartilhá-las com o ecossistema para que propostas de melhoria apareçam. “O governo já tem formas de fazer isso, como o Pitch Gov.SP, por exemplo, mas o hub/sp passou a ser um canal mais conectado com as novas gerações”, diz ele.

DE UM EDITAL A UM MODELO DE NEGÓCIO DEFINIDO

Em geral, empreendedores passam por pitches, avaliações de investidores e validação de teses de modelo de negócio antes de colocarem suas ideias em prática. No caso de Camilo, Humberto e Pedro, eles passaram pelo crivo de um edital público, porque a iniciativa do hub/sp é um projeto da Investe São Paulo — Agência Paulista de Promoção de Investimentos e Competitividade, uma organização social ligada à Secretaria de Planejamento e Gestão.

Assim, o hub/sp é um equipamento público, localizado dentro do Parque Tecnológico do Jaguaré que, por sua vez, faz parte do Sistema Paulista de Parques Tecnológicos – SPTec. É um espaço de 46 mil metros quadrados. O prédio está todo ocupado e abriga 300 pessoas que circulam entre o hub/sp, a própria Investe São Paulo, a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação e a Secretaria de Turismo.

O coworking do hub/sp é gratuito e conta com 110 posições de trabalho.

O modelo de negócio proposto pelo trio de empreendedores que venceu o edital e tem contrato de 24 meses, renováveis por mais 24, prevê que a operação do primeiro ano do hub/sp (de outubro de 2018 a outubro deste ano) seja bancada pela verba disponibilizada pelo edital: 2,8 milhões de reais, já incluídos os valores das obras de reforma do espaço físico. Pedro afirma:

“Nos responsabilizamos por captar, no mercado privado, os recursos para operação do segundo ano em diante. Isso implica bancar desde a infraestrutura e equipe até o programa de aceleração”

Camilo, o responsável por dialogar com as corporações, conta que para garantir essa entrega, terá de atrair mantenedores, empresas que arquem com o custo para essa roda girar. Foram estabelecidas dez cotas anuais de 150 mil reais cada, e o valor pode ser parcelado ao longo dos meses. Até o momento três cotas foram negociadas, sendo que a única já divulgada é com a Mutant, especialista em customer experience de plataformas digitais.

Há ainda a possibilidade de ser apoiador, ou seja, a marca pode oferecer o valor equivalente a uma cota de mantenedor em produtos ou serviços. Até o momento, há sete marcas nessa categoria. Entre elas, estão a agência de comunicação Artplan (que fez o trabalho de branding do hub/sp, apoia as startups residentes e faz mentorias), a Abedesign (que passou a trazer seus eventos para o espaço como forma de dar acesso à comunidade ao conteúdo produzido por eles) e o escritório de advocacia SBAC Advogados (que apoia desde a abertura de CNPJs até a leitura de editais e compreensão das regras do governo).

“Por não se tratar de uma venda de patrocínio, a gente não faz leilão para ver qual marca dá mais. Iniciamos uma conversa e fazemos uma espécie de processo seletivo para verificar se as expectativas casam. Já definimos um modelo comercial dessa relação, com contrato que prevê entrega de marca e de espaço. Mas o mais valioso é a questão do envolvimento com o ecossistema”, diz Camilo.

COMO ELES PERCEBERAM QUE ERA POSSÍVEL TRABALHAR COM O GOVERNO

Antes de se jogarem na empreitada de montar o hub/sp, os cofundadores trabalhavam na iniciativa privada. Humberto e Pedro são sócios da agência de marketing esportivo Futebol Experience – FXP. O primeiro contato que tiveram com o governo foi na Copa do Mundo de 2014. Antes disso, eles confessam que nem olhavam para o Poder Público como prospect.

Acima, residentes do primeiro batch do programa de aceleração hub/x (foto: Ruy Jobim Neto).

“Trabalhamos muito e vimos que o evento foi bem feito. Os estádios foram entregues, os jogos aconteceram e todos ficaram satisfeitos. Só não foi bom o resultado (risos). Nos desenvolvemos muito nesse período e percebemos que dava para trabalhar com o governo também”, fala Humberto.

Em 2016, durante as Olimpíadas do Rio, eles cumpriram o primeiro contrato de prestação de serviços com o Poder Público e foram bem-sucedidos.

Camilo também tem estrada na iniciativa privada. Trabalhou anos na área de Publicidade e seu primeiro contato com o governo foi em 2011, com a volta do Rock In Rio para o Brasil e a criação da Cidade do Rock, onde depois foi implantado o Parque Olímpico, no Rio de Janeiro. “Os grandes eventos maturaram o olhar de ambos os lados. Ficou provado que se o governo tiver vontade de abrir o acesso para a iniciativa privada, as coisas acontecem e a economia gira.”

A FXP era fornecedora de “experiências, marketing direto e ações de relacionamento” da Artplan, onde Camilo estava. Desde o final de 2015, após cada reunião de trabalho, ele, Humberto e Pedro conversavam sobre a Nova Economia e um desenho de hub de inovação começou a ser traçado.

Em 2018, o sonho virou realidade. No meio do ano, o trio inicial se transformou em quarteto, com a entrada de Luiz para o projeto. Além de ser conhecido no ecossistema, ele trouxe a visão pragmática para a montagem do programa de aceleração, que tem como princípio que a maior dificuldade dos empreendedores é o acesso e não o financiamento:

“Se a startup consegue acesso e tem um modelo saudável, ela só vai precisar de um grande volume de dinheiro depois, para crescer. O grande negócio é usar essa máquina gigante para maximizar a inciativa”

Os empreendedores contam que, mesmo em pouco tempo, conseguiram inserir o hub no ecossistema latino-americano, fizeram conexões em Portugal (haverá um pré-evento do Web Summit no hub/sp um mês antes do renomado evento português) e ensaiam conexões com o Start-up Nation Central de Israel e Plug and Play Tech Center, dos Estados Unidos.

Camilo, Humberto e Pedro afirmam que o hub/sp é uma forma de devolver os impostos para a sociedade, desburocratizar iniciativas que existem e melhorar a relação entre o micro e pequeno empreendedor, a iniciativa privada e o setor público. Pedro finaliza: “O hub é para os empreendedores. Tem sido bem recebido e pretendemos reproduzir esse modelo em outros municípios e estados. Já tivemos conversas com interessados em desenvolver o mesmo tipo de iniciativa”.

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