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Mesmo com os desafios do setor de saúde, as healthtechs começam a ganhar espaço no mercado

- 9 de agosto de 2018
Lívia Cunha, fundadora da Cuco Health, precisou pivotar o modelo da startup duas vezes até chegar às duas versões do app: uma gratuita para o paciente lembrar a hora de tomar os remédios e outra premium, vendida às farmacêuticas.

As healthtechs representam hoje 8% do setor de startups no Brasil. O número, na visão de Rafael Ribeiro, diretor executivo da ABStartups, é satisfatório. “Se pensarmos que as startups de saúde começaram a surgir em 2011, é uma porcentagem significativa.” Ele cita ainda o recente surgimento de incubadoras voltadas especificamente para o setor de saúde, como a Eretz.bio, do hospital Albert Einstein, a Berrini Ventures e a BioStartup Lab. “São iniciativas estratégicas e essa aproximação impacta positivamente na produtividade do empreendedor brasileiro desse setor.”

Entre as pioneiras está a Dr. Consulta, uma rede de centros médicos a preços acessíveis, sendo que a primeira unidade foi inaugurada em Heliópolis, bairro periférico da zona sul de São Paulo. Segundo o site da própria empresa, mais de um milhão de pacientes já usaram os serviços dos 45 centros médicos localizados na capital paulista. O negócio cobre 56 especialidades médicas e mil tipos de exames, além de vacinas e cirurgias de baixa complexidade. O pulo do gato foi baratear o serviço médico e facilitar o agendamento de consultas e exames. O modelo de negócios já atraiu investimentos de 300 milhões de reais.

Depois da Dr. Consulta surgiram muitas outras healthtechs. Um levantamento feito pela Liga Ventures em maio deste ano mapeou 263 startups que atuam no setor de saúde no Brasil. O estudo agrupou as empresas em 18 subsetores, entre eles: autismo, bem-estar físico e mental, buscadores e agendamentos, marketplaces de medicamentos e equipamentos e sistemas de gestão para consultórios.

De acordo com o relatório, apesar de estarem surgindo muitas oportunidades no setor de saúde, a falta de maturidade do mercado dificulta maiores investimentos. Rafael fala mais a respeito:

“Acredito no crescimento do setor, mas ainda não é um mercado consolidado e maduro no Brasil. O grande desafio dessas startups é a aproximação com o corpo clínico de hospitais e secretarias de saúde”

E prossegue: “Estamos falando de um mercado extremamente tradicional, e um dos pontos a ser levado em consideração é a quebra de paradigmas que ainda precisa ser feita”. Conheça a seguir a história de outros players desse mercado.

Cuco Health

No mercado há três anos, a Cuco Health focou seu modelo de negócios inicial nas operadoras de saúde e hospitais, mas teve que rever os planos. “Começamos oferecendo soluções B2C, com foco em auxiliar os pacientes a tomarem suas medicações da forma correta. Com o passar do tempo, percebemos que, para impactar de fato na experiência do tratamento, era preciso envolver os pagadores. Começamos, então, a desenvolver uma solução e um modelo de negócios orientado às operadoras de saúde e hospitais”, diz a fundadora e CEO Lívia Cunha. O resultado foi uma solução de monitoramento remoto de pacientes crônicos, com foco na redução de sinistro.

Após um ano trabalhando no novo modelo a empresa pivotou novamente. “Foi um momento que exigiu muita resiliência, pois era como se estivéssemos começando a empresa novamente.” O foco passou a ser a indústria farmacêutica. No atual modelo, que Lívia chama de “Digital Therapeutics”, há duas versões do aplicativo: uma gratuita para o consumidor final, com lembrete da hora de tomar os medicamentos e cadastro de cuidadores, e a premium, vendida às farmacêuticas. “É uma terapia digital que complementa o uso oral do medicamento”, afirma a empreendedora.

Funciona assim: o médico prescreve o remédio e já avisa o paciente que há uma terapia digital para auxiliá-lo. O paciente compra o medicamento na farmácia e dentro da caixa há um indicativo para baixar o app, que por meio do QR Code da embalagem cadastra automaticamente os lembretes para o paciente. Ele passa também a ter acesso a uma bula interativa em formato de chatbot. “Ao longo do tratamento o paciente conta com uma ferramenta que lembra de tomar e comprar o medicamento, esclarece dúvidas frequentes sobre o remédio e tem uma jornada de autoconhecimento sobre a doença”, conta a CEO. “Além disso, a ferramenta é inteligente e percebe a não adesão ao medicamento e, nesse caso, envia notificações para engajar novamente o paciente.”

Nessa mudança estratégica, a Cuco deixou Florianópolis e mudou-se para São Paulo. Foi aí que um dos sócios saiu e a equipe foi toda substituída. “Percebi que era preciso estar perto dos colaboradores e do mercado. A distância, com a operação em uma cidade e o comercial em outra, não foi uma experiência positiva”, fala Lívia. Desde sua fundação, a Cuco Health recebeu 1,3 milhão de reais em investimento-anjo. Hoje, tem oito funcionários, contabiliza 70 mil downloads e oito clientes pagantes. A CEO não divulgou o faturamento da empresa.

Consulta do Bem

Ao longo de sua trajetória a Consulta do Bem também teve que adaptar seu modelo de negócio algumas vezes. Depois de um primeiro ano, em 2015, como marketplace de consultas a preços mais baratos, o modelo foi incrementado e passou a incluir outros serviços, como exames, cirurgias e procedimentos estéticos.

A Consulta do Bem consegue negociar melhores preços com os hospitais como se seus usuários fossem parte de um mesmo plano de saúde. Assim, os descontos podem chegar a 70%.

“Paramos de cobrar uma taxa por transação e recentemente fechamos a plataforma apenas para assinantes. Com isso, nosso público, que originalmente eram apenas pessoas físicas, passou a ser empresas também”, diz Rafael Morgado, CEO da startup. Hoje, metade dos clientes são pessoas jurídicas.

Com assinatura anual de 269,10 reais no plano individual e de 359,10 reais no plano familiar (titular + 3 dependentes), a Consulta do Bem negocia preços e oferece consultas, exames, cirurgias e atendimento em pronto-socorro com até 70% de desconto. “A ‘mágica’ em questão é que negociamos com os prestadores como se fôssemos um plano, só que quem paga é o consumidor final.” Para se ter ideia, o valor médio de uma consulta pelo sistema é de 80 reais. A Consulta do Bem tem 15 funcionários, três mil médicos cadastrados e também não revela faturamento ou número de assinantes.

Zenklub

Com mudanças mais suaves ao longo do caminho, a Zenklub, fundada em 2016, alterou apenas a forma de se apresentar ao mercado. “Somos uma plataforma digital que conecta e aproxima pessoas e especialistas de bem-estar emocional. No início, nos apresentávamos como um site que permitia aos clientes ter sessões de terapia online, com preços acessíveis e a comodidade de realizá-las em qualquer local e horário”, diz Rui Brandão, médico e CEO do Zenklub. Hoje, há mais de cem especialistas na plataforma, selecionados rigorosamente pela nossa curadoria e de diferentes áreas.” Em 2017, a startup expandiu as operações e passou a atuar também em Portugal.

Para Rui, o maior desafio da Zenklub é o mesmo enfrentado por psicólogos e especialistas em bem-estar emocional: o estigma e o tabu de que cuidar da saúde emocional é apenas para quem tem algum problema específico, como depressão, ansiedade ou compulsão alimentar, e não para quem se preocupa com um equilíbrio entre mente e corpo sãos. Ele afirma:

“Estamos quebrando esse pensamento limitado e fazendo as pessoas entenderem que tão importante quanto ir à academia, precisamos também cuidar proativamente do bem-estar emocional”

No modelo de negócio, a startup fica com parte do valor de cada sessão realizada por intermédio da plataforma. Os preços das consultas variam entre 80 e 120 reais e a Zenklub repassa 80% desse montante aos especialistas. A startup não revela o faturamento ou número de usuários cadastrados, mas informa que já realizou mais de 15 mil sessões por videoconsulta e que cresce 20% ao mês. Em 2017, o negócio recebeu investimento do fundo HealthPlus “Com a expansão, estamos negociando novas oportunidades”, conta Rui, que tem como sócio José Simões. Hoje, a equipe da Zenklub tem sete pessoas.

Vittude

Na mesma área de atuação da Zenklub está a Vittude, plataforma que conecta pacientes e psicólogos. Fundada em 2016, a startup acaba de lançar um prontuário eletrônico, que permitirá aos especialistas armazenarem digitalmente as informações dos pacientes. “O desenvolvimento do prontuário eletrônico foi uma sugestão do Conselho Regional de Psicologia da 6ª região e também um pedido dos nossos psicólogos”, conta a fundadora e CEO Tatiana Pimenta.

Para oferecer sessões de psicoterapia online, Tatiana Pimenta e Everton Everton Höpner tiveram paciência de esperar dois anos pela autorização do Conselho Federal de Psicologia.

A empreendedora diz que os maiores obstáculos na trajetória do negócio foram a burocracia e a forte regulamentação do setor de saúde. A Vittude começou como uma plataforma online de agendamento e, somente em setembro de 2017, recebeu autorização do Conselho Federal de Psicologia para oferecer Orientação Psicológica Online. “Em maio deste ano, o Conselho publicou a redação da nova regulamentação, autorizando efetivamente a terapia online, sem nenhuma restrição de números de sessões”, diz Tatiana. Ela afirma:

“A morosidade do setor de saúde vai contra o avanço da tecnologia”

No ano passado, a startup recebeu um aporte de 650 mil reais e também lançou uma solução corporativa. Nesse caso, as empresas pagam um valor fixo mensal para que os funcionários tenham acesso, por um valor reduzido, à rede de psicólogos Vittude. Hoje, a healhtech tem sete funcionários, mais de 1 500 psicólogos cadastrados e cerca de quatro mil pacientes. O objetivo é, ainda em 2018, multiplicar por dez o número de clientes.

MedRoom

No mercado há quase dois anos, a MedRoom não lida com pacientes, mas sim com médicos e alunos de medicina. Quando conseguiu um aporte, no fim de 2017, a empresa colocou no mercado seu primeiro produto, o Lab, um laboratório de morfofisiologia para estudos em anatomia e fisiologia. “Nós recriamos uma paciente dentro da realidade virtual com todos os sistemas e estruturas relevantes para os alunos de medicina da graduação. Agora, eles podem estudar em um corpo humano realístico e com aspecto vivo, característica que os cadáveres, por exemplo, não conseguem suprir”, conta Vinicius Gusmão, fundador da startup.

Para ele, o maior obstáculo do negócio até hoje é a questão de investimento. “No Brasil, a cultura de venture capital ainda é jovem e tímida. Não temos um número tão grande de fundos, o que também limita a quantidade de capital disponível.” E prossegue “O maior desafio mesmo é conseguir um bom ‘deal’. Enquanto empresas fora do Brasil trabalham com times de 500 pessoas, com 50 milhões de euros de orçamento para a construção de um game de alta qualidade, nós temos que alcançar a mesma qualidade com um time muito reduzido e um orçamento obviamente muito menor”. Hoje, a equipe da MedRoom tem 21 pessoas e a primeira rodada de investimento não passou de 500 mil reais.

De qualquer forma, a startup já conseguiu fechar contratos com empresas como Bayer, GE Healthcare e Roche. Além disso, levou seu produto para o Albert Einstein, onde está rodando em modo piloto, para uma faculdade no Mato Grosso do Sul e acabou de fechar negócio com uma universidade do México. “Temos pelo menos mais três faculdades em fase final de negociação com possibilidade de implantação ainda em 2018.” Vinícius acredita que o setor é bastante promissor:

“O Brasil é um país de múltiplas etnias e diferentes biomas, e um país tão heterogêneo tem uma necessidade enorme de personalizar a forma como trata da saúde da população”

No entanto, ele tem consciência de que ainda existe muito trabalho a ser feito, mas se anima ao percever que cada vez mais os fundos e empresas da área se sensibilizam com a inovação que as startups oferecem. “O próprio case do Einstein é extremamente digno de nota. Não se vê iniciativas como essa em outros lugares do país, embora isso já seja relativamente comum lá fora.”

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